sábado, 17 de outubro de 2009

Dedicatória

A História chegou ao fim.
Depois de uma longa temporada, postei o último capítulo.
Longas aventuras seguiram na primeira hítória de Thiago, que agora volta à normalidade... Ou assim pensa. Seguem agora spoilers que eu cederei da próxima história, Terrorismo, e que não revelaram (óbvio) o final.

Thiago se apaixona;

O que causa todas as compliações da história é um cd;

Cd esse que, se Thiago não o tivesse concertado, não teria ocorrido nada;

Lívia entra nessa história adolescente.

Vários acontecimentos estão previstos para acontecer no segundo.
Mas ainda não acabou. Serão cinco histórias (uma já acabou) que acontecerão, na ordem:

A CARTA, A PEDRA E A ESSÊNCIA;
TERRORISMO;
DRAGÕES;
A CÓPIA VOL. 1 - Morte
A CÓPIA VOL. 2 - Vingança.

Nos proximos volumes, eu irei criar um nome para saga, mas por enquanto, mantenho Aventuras de Thiago.

EPÍLOGO

ALGUNS ANOS NO FUTURO

-... Aí ela me disse: “você não vai comprar?”, aí eu respondi: “claro que não!”.
Thiago estava conversando com o Matheus. Os dois estavam andando numa das calçadas de um dos quarteirões da Avenida Capitalismo. Estava um sol lindo de fim de tarde. De vez em quando passava um carro na avenida, e havia poucos pedestres como eles.
- Mas você não acha que foi um pouco grosso? – perguntou Matheus.
- A minha sogra quer me fazer comprar uma lavadora que eu não quero. E ainda por cima custa o meu fígado!
Nesse momento Thiago olhou para frente, e viu um casal acompanhado de um garoto de treze anos. Ele lhe era familiar. Thiago teve um momento de inspiração e lembrou-se dele, como num sonho distante, uma participação ínfima na vida dele, apesar de ter sido ao contrario. Ele ficou na frente do garoto e cumprimentou os pais dele:
- Olá, meu nome é Thiago – ele estendeu as mãos, que os pais do garoto apertaram – e gostaria de falar com o seu filho – disse apontando para o garoto.
Os pais dele ficaram desconfiados, se entreolharam, conversando com os olhos, mas permitiram. Sem antes o pai segurar firmemente no ombro dele.
- Oi Lucas – o garoto se surpreendeu pelo fato dele conhecer o seu nome, mesmo sem tê-lo dito – não espero que você se lembre, mas eu gostaria de te falar que eu consegui matar Baltazar.
- Eu não sei do que o senhor está falando. – respondeu meio desconfiado.
- Posso então te passar algumas lembranças?
Lucas olhou para o pai, que pensou um pouco e fez que sim com a cabeça, mas não soltou o ombro do filho, caso Thiago quisesse seqüestrar Lucas usando o relógio ou teletransportação, teria que levar o pai junto. Thiago e Lucas deram-se as mãos, e então Thiago passou para ele todas as suas lembranças desde a conversa que eles tiveram e que o Lucas tinha contado sobre os próprios pais, os acontecimentos na avenida e no galpão, finalizando quando a luz tinha tomado conta do seu corpo. Alguns fatos haviam se perdido com o tempo, mas faziam um todo coerente.
- Estou feliz por você – disse Lucas sinceramente – mas não consigo me lembrar de nada, nem lembro se já havia te visto alguma vez na vida.
- Tudo bem – disse Thiago decepcionado – só queria que você soubesse. Não sabia se haveria outra oportunidade como essa.
E então Thiago deu um toque no braço de Matheus, e eles recomeçaram a caminhada:
- Eu não quero comprar aquela lavadora sendo que nós já temos uma de ótima qualidade... – retomou a conversa com o Matheus. Se distanciando de Lucas. Uma das poucas pessoas que “poderiam” afirmar que “presenciaram” a decisão do destino de sua cidade.

Seu pai deu um toque no ombro, indicando que era hora de andar. As lembranças que aquele cara tinha eram um ótimo enredo de jogo, mas ele não se lembrava se conhecia o homem. Quanto mais tentava se lembrar, menos conseguia. Algo no fundo dizia para ele: “você o conhece”, mas só isso não era suficiente para ele lembrar. Ficaria a duvida agora. Seus olhos saíram de foco, enquanto uma torrente de lembranças invadia seu cérebro. Ele parou no meio do caminho. Agora se lembrava. Ele se virou, ignorando os olhares dos pais.
- Thiago! – o homem adulto, que lembrava o Diogo, parou e se virou, com uma cara de “quê?” – eu me lembro. Obrigado por ter trazido os meus pais de volta!
Thiago deu um sorriso, retirando de sua memória à cara de raiva inchada que ele tinha mantido da “ultima” vez em que haviam se visto, quando Lucas estava agonizando numa hemorragia interna incurável. Ele recomeçou a sua caminhada com o amigo, que mantinha a mesma idade das lembranças de Lucas.
Ele começou a caminhar, seguido pelos seus pais. Eles mantinham a cara de interrogação.
- O quê que você lembra Lucas? – perguntou a mãe.
- É uma longa historia. – ele preparou a garganta – Num presente que não vai mais acontecer, tinha um homem chamado Baltazar. Ele...


fIM

ATUALIZAÇÕES

O refrão final da musica “When Love Takes Over” chegou aos seus ouvidos assim que sentiu uma leve pressão nos ouvidos. Seus olhos estavam fechados. Ele estava estranhamente descansado, comparando os fatos recentes.
Enquanto a musica tocava, ele sentiu a claridade diminuir sobre seus olhos, chegando ao ponto de uma luminosidade normal. Lentamente ele abriu os olhos, relutante para saber dos perigos que havia à espreita.
Não tinha nenhum.
Ele se encontrava num corredor bastante conhecido, mas não se lembrava da onde era. A pressão nos ouvidos eram os fones.
Ele reconheceu o corredor. Estava em casa.
Após ter matado Baltazar jovem, ele impediu que o mesmo crescesse e, por subseqüente, não cometesse os atos maléficos dele. Em resumo: não poderia tornar a vida de Thiago adulto num inferno, ao ponto de buscar ajuda ao Thiago jovem, portanto, esse não precisaria sair do conforto da sua casa, deixando uma brecha para a morte da própria mãe. Em mais resumo ainda: tudo estava em ordem.
Ele caminhou lentamente até o próprio quarto, saboreando cada pisada. Era um alivio estar de volta.
Desinteressado de ouvir rádio – começou a tocar uma musica que ele odiava – ele retirou os fones. Assim que ele foi desligar o aparelho teve uma surpresa: o seu mp3 não era mais um mp3, mas sim um mp4.
Devo ter ganhado, mas o que faria a minha mãe comprar um aparelho mais avançado?
Retirando essa questão da cabeça, ele abriu a porta do próprio quarto.
A primeira coisa que notou de novo era a cor das paredes. Ao invés daquele cinza que era antigamente, agora tinha uma coloração azul-escurecida. As paredes havia se estendido, deixando o quarto maior. Os moveis eram melhores e o ultimo adesivo que tinha colado sumira. Indo direto para a cama, ele conferiu a coxa branca, sem nenhuma marca de fuligem.
Meio camuflado com a cor da coxa, havia uma carta endereçada ao Thiago.
Ele a pegou, temendo que algo tivera acontecido de errado. A abriu lentamente e tirou de dentro uma folha de caderno dobrada quatro vezes. Ele a abriu para revelar uma única palavra:

Obrigado.

A carta se desfez em sua mão, virando pó, fazendo milhares de pedaços voarem até a janela. Ele os seguiu. Novamente ele percebeu outra mudança no quarto: a mesinha de estudos foi para baixo da janela. Lá estavam os cadernos, gibis, canetas e outras tralhas dele.
Se apoiando na mesinha, ele deu boas vindas ao dia.
Estou livre. Finalmente livre. Sem responsabilidades, sem pessoas a ajudar. Livre!
Um barulho o alertou que tinha alguém na porta. Um segundo depois uma voz chegou aos seus ouvidos, uma voz que ele não ouvia há dois anos.
- Filho?
Thiago se virou rapidamente, não acreditando em seus ouvidos. Porém eles estavam mais do que certos. Seu pai estava de volta.
Mas não era para ele ter vindo. Quer dizer... Ele tinha morrido muito antes dessa historia toda! A não ser que Baltazar tenha o matado.
- Pai?
- Achou que fosse quem? – ele riu devido à própria piada. Ele estava segurando um copo de água na mão esquerda e uma revista enrolada na direita. Estava de chinelos, algo que sugeria folga.
- Ninguém... Imagina. Cadê a mãe?
- Ela foi fazer compras, como tínhamos combinado ontem.
Assim que a última palavra foi proferida, uma torrente de memórias se relanceou em sua mente. Atualizações de todos os últimos dois anos. Todas as noites que a mãe dele passou chorando foram substituídas por noites de muitas risadas. Os aniversários foram incluídos o pai dele, passeios feitos, reforma da casa, uma viagem, o cemitério não visitado mais... Ele contando para Sara que ia estar de folga no dia 25, e ela se recusando que ele fosse ao mercado, que ela ia de qualquer jeito.
Mesmo assim, as lembranças de antes se mantiveram em sua mente, para lembrá-lo do que custou a briga com Baltazar. Agora ele tinha tanto as memórias do pai morto quanto dele vivo.
Um carro estacionou na garagem. Thiago se virou para ver quem era e se deparou com um Novo Ka, segundo suas memórias um presente de aniversário para Sara.
- Sua mãe chegou, vou ajudá-la com as compras. – dito isto ele se retirou.
Thiago se ajoelhou na frente da janela. Obrigado Deus, valeu mesmo. Rapidamente se levantando, ele olhou para baixo, para ver o seu pai chegar até sua mãe e se abraçarem, parecendo que não se viam há dois anos, mesmo sem entenderem o porquê de tanta saudade. Tecnicamente eles NÃO se vêem há dois anos, mas na pratica...
Repentinamente ele sentiu sede, desejando um copo de água loucamente, e se lembrou que não tomou nada desde as oito horas da manhã do dia do eclipse. De lá se passaram cinco horas, e mais meia ou uma hora da briga com o Baltazar jovem. Não contava o fato de ele ter tomado um copão de água há vinte minutos.
Seus olhos caíram repentinamente na mesinha de estudos, então ele notou um copo de água, que supostamente nunca estivera lá. Impossível... Isso é impossível!
Cogitando ainda menos a teoria que acabara de forjar, ele tocou a ponta do dedo no copo – cuja água estava fresca – e quis que a água gelasse.
Fios brancos saíram do ponto em que tocava, no lado de dentro do copo, em direção ao vidro do outro lado. Toda vez em que tocava o vidro, o fio branco se expandia, para então tocar em outra ramificação, congelando toda a água.
Estupefado, ele pegou o copo e virou o conteúdo na mão esquerda, soltando uma pedra de gelo com o formato do copo, ela deslizou, mas manteve-se equilibrada.
Devolvendo a peça ao copo e secando as mãos ele pensou. Isto é impossível. Era para os poderes se extinguirem assim que eu matei o Baltazar. Não era para eles terem vindo comigo...
Ele foi até a caixa de tranqueiras que ele mantinha embaixo da cama, retirou-a de lá e a colocou em cima da cama.
Ele revirou o conteúdo, retirando tudo aquilo que não o interessava, e em baixo das cartas que ele tinha recebido de aniversario, cursos e coisas do genero, estavam o poder-do-universo e a essência.
- Isso é impossível – exclamou – a não ser que tenha alguém tentando me ajudar! Mas quem... Não tem ninguém que eu conheça que tenha poderes o suficiente para tal façanha! E se existe, no momento não se lembra de nada!
Ele guardou tudo de volta na caixa e a alojou em baixo da cama. Preciso de um lugar melhor para guardar minhas coisas. Principalmente a essência. Mas ele logo retirou essas questões da cabeça. Afinal, ele tinha todo tempo do mundo.
Finalmente podia dormir sossegado! Baltazar não podendo crescer, ele estava sem problemas, e ainda, estava com um pai de novo! Chega de lembrar como era ter um pai, pois agora era só pensar em como é ter um pai.
Ele postou-se no seu lugar perto da janela. E ficou observando os seus pais descarregarem as compras do carro, eles pareciam excessivamente felizes.
Um barulho puxou a sua atenção, vindo do final da rua. Um caminhão virou na esquina e veio em sua direção, estacionando na casa da Elza.
Thiago se lembrou que a Elza tinha se mudado na semana retrasada, estressada por causa das brincadeiras de Thiago e de Matheus, e que tinham comprado a casa dela na quarta-feira, e iriam mudar-se hoje, sexta-feira.
O caminhão que estacionou era o da mudança, e atrás dele veio um carro preto, que o ultrapassou e estacionou na frente dele, perto dos pais de Thiago.
Do carro saiu um casal, eles conversaram com o motorista do caminhão, que desceu e foi direto para a traseira, onde estava a equipe de mudança. O casal então satisfeito foram até os pais de Thiago, receber as boas-vindas.
Tomara que esse casal seja legal, pensou Thiago, tomara que sejam diferentes da Elza. A porta de trás do carro se abriu, revelando um par de pernas. Eles têm um filho! Tomara que seja legal, senão eu e o Matheus faremos um inferno na vida dele! O garoto arrumou algumas malas dentro do carro, atrasando a sua saída de dentro dele.
O garoto que estava dentro do carro fez o movimento de levantar-se, revelando uma juba de cabelo em ondas castanho-claro até os ombros, que no momento cobria-lhe o rosto. O garoto jogou os cabelos para trás, revelando-se uma menina.
Thiago suspirou. Era a garota mais bonita que ele já havia visto na vida. Ela não possuía o “padrão de beleza” imposto todos os dias, mas ela possuía algo que encantava o Thiago. O coração dele bateu mais rápido. Sentiu-se estranhamente tolo, e excessivamente feliz. Era como se todo o sol tivesse se focado nele. O dia tinha ficado com uma beleza exótica.
Ela olhou para os adultos reunidos em casais, eles se cumprimentaram, e então, junto dos próprios pais, ela perguntou algo, e o pai de Thiago apontou para a janela dele. Ela o olhou.
Seus olhos se encontraram. Thiago se sentiu tão mexido por ela que suas pernas bambearam.
De súbito ele sentiu um calafrio, tão forte ao ponto de balançar os seus braços. Mas não era um simples calafrio. Era o calafrio provocado pelo poder-do-universo. Era aquele que indicava que algo realmente perigoso estava para acontecer. Acontecer com aquela garota. Acontecer com ele.
Mas ele não sabia o que era. Nem o que estava para acontecer. Estava tudo nas mãos do destino. Uma nova aventura.

ESCOLHAS II

Continuação...
Interpretem os pensamentos filosóficos dele, depois eu vou configurar o texto.


Ele piscou ao reconhecer onde estava.
Ele estava naquele galpão, era obvio. O tempo estava parado, obviamente, uma vez que tudo tinha ficado estático e mudo. Mas o que era diferente era a posição em que se encontrava: estava de pé, a dois metros de distancia de si próprio, que estava deitado no ar, segurando uma espada de energia, a sete metros do peito de Baltazar, sua cara era de espanto, ao passo que a de Thiago era de pura raiva misturada com cara de vitória.
Então ele se lembrou da carta: “e esse poder irá parar o tempo para que você possa fazer uma escolha. Pois essa escolha envolve um perigo.”.
Ele olhou atentamente em volta, para ver que perigo seria aquele.
Seus olhos vasculharam o galpão, mas não via nada que pudesse ser tão perigoso assim. Ele notou as ondas de poeira; os vidros estilhaçados das janelas indo à direção ao chão; viu os raios desintegrando tudo; Lucas jorrando sangue; ele próprio; a cara de curiosidade de Baltazar; a nuvem descendo pela coluna, mas só na metade do caminho; e a essência.
Ela estava a dez metros atrás de Thiago. Ele se aproximou e seu medo aumentou: ela havia caído.
Como Matheus tinha lhe avisado, “se ela cair no chão, pode acontecer uma mega-explosão”, e Thiago não precisara de algo mais detalhado para entender o contesto: se a essência cair de modo violento no chão, explode.
Ele examinou minuciosamente o frasco. Estava de pé, inclinado levemente. Seu fundo tocava o chão. O frasco estava quebrado, varias partes de vidro haviam sumido. A essência havia adquirido um tom vermelho enquanto se expandia em pequenas cordilheiras entre os espaços que dividiam o vidro, para consumir o galpão com fogo.
Então é isso, pensou, meu perigo é esse, a explosão da essência. Se eu decido que não haja explosão, Baltazar continua vivo. Se eu mato Baltazar, morro junto devido à explosão. Minha vida ou a liberdade do povo, ele riu devido à questão diplomática, não me vejo morrendo pelo povo.
Devo escolher o que é certo. Mas o que é certo? Se eu morro agora, outros Thiagos morrerão. Se eu não o mato, vou falhar assim como os meus antecessores. E provavelmente ele não deixará isso barato.
O que o Diogo escolheria? Dã, ele sou eu. E o pior, foi um perigo diferente.
Ele me disse que só tinha falhado na segunda decisão, ou seja, passou por essa. Se ele passou, tenho condições de passar.
Se fiando nesse raciocínio, pensou em como chegar a Baltazar antes da essência ao chão. Uma frase apareceu em sua mente: “faça a escolha certa, e, se optar por ela, vá com mais velocidade”.
Então era isso! Ele (Diogo) tinha adivinhado o que ia acontecer.
Aproveitando a deixa de estar ali, com o tempo parado, ele deitou no chão (que esquisitamente estava quente) e começou a descansar.
Se eu posso aproveitar... Por que não?
Quando se passou o equivalente há cinco minutos (equivalente, ao passo que o tempo estava parado), ele levantou-se, tirou a poeira da roupa e deu uma ultima examinada nele mesmo.
O conjunto da obra dava uma ótima imagem promocional de um filme. Seu toque estiloso dera a cena um tchan especial, já que tinha deixado o zíper da blusa aberto. As abas da blusa esvoaçavam-se do lado dele.
Achando que já descansou o suficiente ele decidiu ir em frente.
Confiante, seguiu até ficar ao lado dele mesmo e pensou mentalmente na resposta.
Nada.
Ele segurou a própria mão – dele que estava deitado – e pensou com toda força de vontade possível na sua decisão.
Nada.
Então ele percebeu que era mais simples do que tinha imaginado.
Ainda segurando a própria mão, e falou calmamente:
- Eu quero continuar.
Uma dor lacinante penetrou na sua carne.

-... Por nós! – foi o único aviso.
Segurando a espada acima da cabeça com as duas mãos, ele inclinou-se para frente, um pouco antes de cair no chão, ele voou. Voou direto ao coração de Baltazar.
Seu vôo foi tão rápido que poderia ter cruzado a distancia que os separava em um segundo, mas Baltazar havia lançado um poder Extensivo, jogando o braço esquerdo da direita para o seu respectivo lado, fazendo que cada metro real percorrido por Thiago parecesse cem.
Nesse tempo extra garantido, Baltazar começou a entoar um cântico para que o processo duplicativo de poder andasse mais rápido.
Ele sentiu, agora que estava atento, a corrente em que estava pendurada a essência balançar-se perigosamente no pescoço. Um dos elos se partiu, deixando-a escapar.
Ele triplicou a velocidade.
Thiago estava a dois metros reais da coluna de ar, sua blusa de moletom chicoteava os lados do corpo. Ele esticou mais os braços. Baltazar hesitou. A famosa Curiosidade Adolescente. Era tudo que ele precisava. Thiago guinou para frente. Em direção ao peito de Baltazar.
Então, finalmente naquele dia, ele fincou a espada no peito de Baltazar.
Sem parar, ele virou-se para a esquerda – mantendo a mão direita no punho da espada – e apontou a mão para o frasco, tudo em questão de segundos.
Uma cúpula envolveu a essência, ela explodiu, transformando o escudo numa lâmpada. O fogo manteve-se por dois segundos e então se apagou devido à falta de oxigênio, deixando em seu lugar apenas fuligem e uma cratera.
O impulso do vôo fez com que Baltazar cambaleasse para trás. Assim que Thiago pôs os pés no chão, soltou a espada, deixando o Baltazar cair de joelhos. Ele liberou o fluxo do poder, deixando a espada sumir, e, assim que ela deixou de existir, o sangue brotou do furo, empapando a camisa de Baltazar.
Com essa distração, Baltazar manteve suas atenções na dor, retirando-se do ritual. Então a coluna de ar se desfez, do chão para cima, parando o fluxo; fazendo as nuvens se dispersarem (um tanto delas tocou no teto e condensou, fazendo pequenos fios de água). A poeira se assentou e os raios restantes calaram-se.
Apesar de todos esses motivos, o galpão estava quieto demais, exceto os gemidos de dor de Baltazar.
Thiago parou para pensar. Não pode ser o poder que o Diogo fixou em mim, senão ele teria especificado dois não um. Isso é um Poder de Tempo, obvio, já que tudo está parado. Ele deu uma vasculhada no galpão. Uma camada de poeira flutuava acima do solo; pingos de água flutuavam no espaço; e o corpo agonizante de Lucas estava parado. Tudo indicações de Paralisante Temporal, mas tinha algo que o intrigava. Por que cargas da água Baltazar está se mexendo então? Será que eu devo matá-lo? Mas ele está praticamente morto.
Antes que ele pudesse convocar uma espada, uma voz ressoante e tão profunda quanto qualquer assunto mórbido ecoou no galpão, reverberando no crânio de Thiago:
- Não adianta.
Ele se virou assustado, para então dar de cara com um vulto alto. Seu corpo estava coberto por uma capa preta que cobria o seu rosto, pés e mãos. E na mão direita ele segurava uma espada. Essa espada era de prata pura, estava tão lisa e imaculada que ele poderia jurar que era novinha em folha. Ela brilhava intensamente, mesmo sem nenhuma luz encostar-se a ela.
A figura em si lembrava algo para Thiago. Uma figura má. A própria...
- Olá, eu sou a Morte. – sua voz veio como uma pancada de água fria. Talvez por ser quem era. Talvez por ser um homem, e não mulher como a maioria das pessoas achavam.
Thiago recuou dois passos:
- Você não tinha uma foice? – foi a única coisa que escapou da boca de Thiago.
- Foice era para antes, antiquado. Espada é mais bonita. E armas-de-fogo não têm a sutileza necessária para o meu ofício.
- E por que não adianta? – seu corpo tremia violentamente para que fugisse dali.
- Por que sou eu que decido quem vive e quem morre. Acima de mim, as ordens vêm de lá – ele apontou para o teto com a mão esquerda, sem mostrar a mão – o resto fica por minha conta. Uma pessoa pode muito bem estar entre a vida e a mim, mas se eu decidir que ela deve continuar viva, ela continua, mesmo se ela ficar em coma por uma década. Mas se uma pessoa totalmente saudável pinicar a ponta do dedo uma vez só com um alfinete, e eu decidir se ela morre, ela morre. E quando se vai ver... Foi tétano. Pura falta de sorte.
- Você vai devorar a alma dele?
- Por que deveria? – sua voz adotou um tom irritado – o problema dos humanos é acharem que eu me alimento das almas. Eu não sou uma criatura monstruosa. Esse é meu emprego. Como qualquer outro. Desde que a humanidade tomou a consciência de cidade, de vida, e de bando, um indivíduo foi selecionado para este emprego, e desde então, toda vez que uma Morte se aposenta, outro da mesma linhagem de sangue vem fazer uma substituição. Senão os seres vivos seriam imortais. É só um emprego como qualquer outro. As almas que eu encaminho vão ao Pré-Julgamento, em que se é decidido se vão para cima, ou para baixo. E esperam até o Último-Julgamento, em que se é balanceado as atitudes humanas, e se é decidido se o lugar pré-escolhido foi o certo. E nesse dia, junto à bancada do Juiz Supremo, estará o representante da Morte da época, e o representante do Destino da época, outro empregado divino. E – se antecipando à pergunta de Thiago – não adianta me perguntar, por que nem o próprio Juiz Supremo sabe quando será do Último-Julgamento. Tudo depende das atitudes humanas.
“Mas voltando à linha de raciocínio, não preciso me alimentar de almas para me manter vivo, não quando não sinto fome. Um dos poucos males de se ser a Morte.”
- E por que você quer ele vivo?
A Morte deu uma gargalhada. Algo assustadoramente cruel.
- Por que eu deixei isso para você. Uma decisão que você terá que tomar: mato ele ou não mato? – sua voz tinha um tom alegre, de quem esta achando graça.
Thiago olhou em duvida para o Baltazar agonizante. Ele está sofrendo. Não foi assim que fui criado. Fui criado para evitar ser injusto para com as pessoas. Não posso afirmar que eu abomino qualquer tipo de morte, sendo que eu mesmo já matei vários insetos.
O problema é que não é um simples inseto, mas um humano. Um igual – literalmente falando. Ele está sofrendo muito, mesmo que esteja estagnado nesse ponto de morte.
Como Diogo havia falado, não posso fraquejar agora. Preciso me manter nessa mesma opinião. Mas isso requer que eu vire um juiz e o condene. Apesar de ele ter feito isso com centenas de pessoas, não me vejo fazendo o mesmo.
Vou pedir para que ele o mate.
- Mate-o. – disse solenemente.
Uma pequena ondulação percorreu o teto de ponta a ponta, tão pequena que Thiago não percebeu. Porém a Morte a viu.
- Mesmo? – sua voz tinha o mesmo tom dos professores que queriam confundir os alunos. Mesmo que a resposta esteja certa, ele pergunta “mesmo?” num tom que confunde o aluno e o força a fazer a escolha errada.
Devo declinar? Perguntou-se, ele não merece viver, mas eu tenho esse direito sobre essa decisão?
Tenho.
- Mesmo. – outra ondulação percorreu o teto, só que mais forte, ao ponto do teto se afundar e depois se elevar cinco centímetros do teto original. Esse Thiago percebeu, e seus pêlos se arrepiaram. Decisões importantes estavam sendo tomadas.
- Tem certeza? – perguntou calmo e inflexível, no mesmo tom anterior.
- Por que pergunta tanto? Ta com medo de abrir mão de quem te encaminha tantas almas?
- Você não ouviu nada do que eu disse. Não me importa se ele morrer agora do que depois. A pessoas que ele matou vão acabar morrendo de qualquer jeito.
- Mas você não me respondeu...
- Por que pergunto tanto? E só pra saber de uma coisinha só... Você vai agüentar viver com esse fardo? Ser o carrasco que decide quem vive ou quem morre?
Nem eu sei ao certo. Mas a questão é que eu preciso que ele morra. As esperanças de varias pessoas estão sobre mim.
- Posso conviver com isso. – outra ondulação ocorreu, de mais de meio metro.
- Se é assim que decides. – ele curvou os ombros.
Ele ergueu sua espada. Simultaneamente outra ondulação percorreu o teto, e Thiago adivinhou se era pelo fato de não ter impedido a Morte.
Ele colocou a espada apoiada sobre o ombro direito, se postando de frente ao Baltazar, com Thiago ao seu lado.
Após uma longa espera, Thiago se viu forçado a falar:
- O que está esperando? – e mais outra ondulação percorreu o teto. Só que a intensidade foi tanta que, da onde Thiago estava vendo, o teto recuou e de ergueu um metro e meio em relação ao original, essa mesma ondulação percorreu o teto de ponta a ponta.
- Como queira. – rosnou entre dentes a Morte antes de baixar a espada com tudo em direção a garganta de Baltazar.
A reação instintiva de Thiago foi fechar os olhos, mas ele se manteve forçado a olhar. O instinto levou a melhor fechando os olhos a espera do barulho de carne cortada e a cabeça rolando. O barulho veio instantaneamente...
Pec.
O barulho de carne batida foi tão inesperado que Thiago foi forçado a abrir os olhos.
Em vez de a Morte ter cortado a cabeça de Baltazar, ele simplesmente bateu com a parte plana da espada no pescoço de Baltazar, ainda agonizando.
A Morte agilmente fez a espada subir pescoço acima e, sem arrancar nenhum teco de carne da orelha, ele pôs a ponta da espada no topo da cabeça de Baltazar.
Fios prateados e insubistânciais da alma de Baltazar saíram da sua cabeça em direção a espada. Elas percorreram toda a sua extensão e penetraram no punho. Assim que elas o tocaram as paredes e o teto do galpão ficou instantaneamente branco, devido à luz que os cobriram.
No momento que o ultimo pedaço de alma de Baltazar sumiu, e esse caiu para o lado, quieto para todo o sempre, a luz avançou rapidamente em direção ao Thiago.
- Está feito. – disse a Morte.
A luz o engolfou vertiginosamente. Ela era salpicada de azul-claro. Imagens do que acabara de acontecer passaram aos olhos de Thiago, só que de traz para frente, e bem rápido.
Ele viu a si mesmo andando de costas entre os mortos; ele viu Baltazar reaparecer em cima do prédio; viu a lua reentrar na frente do sol. Tudo em tom azul-luz.
Uma dor penetrou nas pontas de seus dedos, todos eles.
Ele viu a si mesmo indo deitar de manhã, o sol se pondo às seis horas, para depois ele reabrir os olhos meia-noite, e ele acordando às seis da tarde.
A dor subiu perna acima e percorreu os braços, ele os olhou e viu que aonde doía estava com a mesma tonalidade da luz.
Ele viu o fogo reentrar na cripta, que se reconstruiu enquanto um míssil voava para trás, em direção a um caça no mesmo sentido; e ele correndo de frente para trás, de costas, entrando na cripta.
A dor chegou aos seus braços e coxas.
Ele viu a si mesmo ainda odiando o Lucas; chegando a Resistência; jurando fazer a diferença, só que agora notando uma luz em sua mão.
A dor chegou aos seus ombros e a cintura.
Ele se vingando de Baltazar; o conselho de Matheus; o tiro que matou Diogo saindo de seu peito em direção a arma na mão de Baltazar.
A dor parou de avançar nos ombros, mas continuou a subir cintura a cima.
Eles pegando o poder-do-universo; recuperando o relógio; Diogo explicando sobre o poder-do-universo; a visita de Baltazar.
A dor chegou à altura do coração, as imagens passavam cada vez mais lentas.
Ele indo salvar Diogo no futuro; soltando a carta na cama enquanto voltava para a porta, repondo os fones nos ouvidos.
A dor chegou ao seu cérebro, e a luz se tornou tão intensa ao ponto de cegá-lo.

sábado, 19 de setembro de 2009

ESCOLHAS

Assim que seus olhos se acostumaram com a falta de claridade, eles puderam ver onde estavam.
O lugar em que chegaram era totalmente inesperado.
Eles estavam em um galpão enorme, de uns quarenta metros de comprimento por dez de largura. O teto estava a quinze metros acima. No galpão havia duas portas grandes o suficiente para entrarem dois caminhões de uma vez só e tinham quatro metros de altura.
O relógio de Thiago os tinha trazido em frente a uma das portas, dali dava para ver pelas janelas – nove metros acima do chão – pedaços de céu azul de uma bela tarde, com algumas nuvens carregadas. A luz lá de fora entrava diagonalmente em direção ao chão, levemente deslocado pela posição do sol, deixando colunas de pó amarelo dentro do galpão. O próprio chão estava pontilhado de varias janelas com o dobro do tamanho original.
E bem no centro do galpão, sob a luz de uma janela, estava Baltazar-jovem.
Em comparação com o adulto, eles eram completamente diferentes. O Baltazar de agora tinha cabelo, seu maxilar era menos largo e não era tão robusto quanto o adulto. E o mais intrigante era que essas duas características atuais do Baltazar eram próprias do Thiago. Ele deve ter nascido igual a mim, e conforme foi crescendo, foi mudando. Concluiu.
Depois de reparar no físico do Baltazar, ele percebeu o que ele estava fazendo.
O garoto estava de braços levantados diagonalmente em relação ao corpo, com as palmas voltadas para frente. Sua cabeça estava pendida para frente, fazendo seus cabelos cobrirem o rosto. Apesar da distancia, Thiago pôde ouvir claramente o que ele estava falando. O Baltazar estava cantando algo que Thiago não compreendia; uma língua enrolada e com cadências alternadas.
Ele subitamente se lembrou de um aviso de Diogo:
- Desde os treze anos e idade Baltazar teve poderes, pois o seu eu do futuro, sem se mostrar, havia deixado para ele um aviso e poderes-do-universo. É claro que o aviso estava assinado como anônimo. Eu sei disso, pois ele já tinha me contado em uma de nossas brigas. Considere-se sortudo Thiago. Eu fui o que mais recolhi informações do circulo.
Thiago obviamente na hora não tinha entendido o que ele queria dizer. Contando com o fato de Diogo ter ficado pálido ao ver o que tinha acabado de falar algo que desencadearia um choque-temporal.
Quando o Lucas demonstrou a intenção de ir à direção do outro garoto, uma coluna de ar, completamente uniforme em relação à largura que era de cinco metros (dois entre Baltazar e a camada de dentro da coluna, três entre a camada de dentro da coluna e a camada de fora), se ergueu em volta dele. A coluna, Thiago sabia, fazia parte de um ritual para duplicar o poder. Rituais como esses consumiam energia (os únicos), por isso Baltazar parou o canto e começou a respirar, visivelmente cansado. A coluna não se desfez.
Lucas deu intenção de se mover, porem Thiago deu um sinal silencioso para que não. Enquanto esperavam para ver o que aconteceria, sulcos enormes apareciam na coluna, para depois sumirem e aparecerem em outro lugar, igual a sulcos de um rio. A transparência da coluna podia-se igualar à água limpa, salvo algumas partes na base, que puxavam a poeira do chão para elevá-las coluna acima e joga-las no teto. Com esse ritmo logo se formou uma fina parede de poeira, que caía do teto para que de novo fossem tragadas e jogadas mais uma vez.
Sem aviso Baltazar ergueu a cabeça, revelando os olhos cheios de maldade a tanto conhecidos. Ele se surpreendeu com os visitantes:
- Me avisaram que você viria – ele apontou para Thiago – mas não que traria um amigo.
Ele ignorou os dois e continuou a olhá-los, mas com os olhos fora de foco. Ansioso do jeito que estava por causa da situação, Thiago levantou o braço direito acima da cabeça – cuja palma brilhava – e o baixou rapidamente, liberando o poder. Uma fina faixa de luz formou-se na mesma forma em que Thiago tinha direcionado o braço. A luz fincou-se no chão e avançou contra Baltazar quase que instantaneamente, deixando um rastro de destruição no caminho. Mas ao tocar a coluna, não provocou nada além de um sulco, que rapidamente se desfez.
Uma risada de desdém formou-se quando Baltazar ergueu a mão brilhante, enquanto gritava:
- Hemorragia!
Formou-se na coluna uma janela redonda de um metro de diâmetro, deixando a luz vermelho-sangue passar, indo direto ao Thiago. Fechando-se novamente após o uso, fazendo que a coluna ficasse tão imaculada quanto antes.
Sua única reação foi fechar os olhos, esperando sentir o calor no peito antes da hemorragia interna.
Porem aconteceu algo diferente. Ele sentiu, ao invés do ventinho produzido pelo poder, pesados 76 kg se chocarem contra ele, prensando-o contra a porta (dois metros atrás). Quando abriu os olhos para ver o que aconteceu, ficou chocado.
Deitado em seu colo estava Lucas, tremendo violentamente. Ele rasgava a camisa com dificuldade para expor sua barriga e seu tórax avermelhado, como se tivesse todo o sangue ido em direção àquele ponto. Thiago puxou a barra da calça dele até os joelhos, e viu que a panturrilha dele estava vermelha igual, assim como os braços e a cabeça.
- Por quê? – gritou. Uma lágrima caiu sem querer quando ele imaginou a dor do amigo.
- N-não s-sou e-eu qu-que t-tem q-ue m-matá-lo, e-e s-sim v-você!
Thiago ergueu o braço para cuidar dele. Assim que a luz cessou, a cor branca de Lucas havia voltado, para que então pontos vermelhos surgirem espalhados, e cresceram, fazendo a pele novamente ter a cor vermelha, tentou novamente, e, assim que a luz cessou, ele entrou em pânico: o corpo dele não tinha se curado. Depois de três tentativas sem sucesso Baltazar se pronunciou.
- Não tem como curá-lo. Eu fiz o poder especialmente para isso.
O rosto de Thiago tornou-se vermelho devido a tanta raiva. E a liberou em forma de poder.
A intensidade foi tanta que a bola formou-se com trinta centímetros, e enquanto ela voava em direção ao Baltazar, iluminou o galpão inteiro. Apesar da força do poder, a coluna manteve-se intacta.
- Hora do show – falou Baltazar – Duplicata Maximum.
A ventania aumentou, fazendo uma corrente de ar deslocar-se da coluna e expandir-se dentro do galpão. Tufos de cabelo do Baltazar desprendiam-se do couro cabeludo, deixando-o parcialmente careca.
Uma ondulação originou-se na base da coluna de ar, para então percorrer toda a extensão dela e bater no teto, quebrando-o o suficiente para passar. Pela janela Thiago pôde ver que a coluna se estendia para um quilometro em todas as direções, e quando chegou nesse limite, subiu na forma da coluna até alguns metros abaixo das nuvens, que foram puxadas pela corrente de ar e a tocou, formando um furacão. O furacão de um quilômetro.
Uma raiva crescente dominou Thiago. Por causa de Baltazar sua vida tinha saído dos eixos. Por sua causa sua mãe morrera. Por sua causa Lisa e os cinco garotos morreram. Por sua causa Lucas estava tendo uma hemorragia interna. E por sua causa Thiago teve que abandonar a casa para sair em luta.
Thiago tentou por duas vezes atingir Baltazar. Sem sucesso. A barreira de ar era impenetrável.
Uma outra ondulação na coluna aumentou a velocidade ao ponto da blusa de moletom de Thiago se debater alguns centímetros longe do corpo. A poeira do galpão formava ondas transparentes devido à força do vento. Pequenas faíscas de energia salpicavam a mão de Baltazar.
Um raio escapou dos dedos de Baltazar-jovem e chocou-se no chão a frente de Thiago, elevando uma densa nuvem de concreto desintegrado, parecendo um dedo. Rapidamente a poeira se dissolveu e continuou voando.
- Se você não tivesse vindo aqui para me matar – gritou Baltazar – eu até te ensinaria a fazer o Ritual Duplicante! E sensação de poder é maravilhosa!
- Que morra com ela! – gritou Thiago, tentando pensar em como poderia matá-lo.
- Idem! – então raios de energia voavam de sua mão, espatifando janelas e desintegrando o concreto.
A essa altura as nuvens já tinham entrado no galpão, apesar de avançarem lentamente. O chão em volta de Thiago havia sido totalmente esburacado, parecendo uma estrada para o interior, estrago provocado pelos raios que, para o desgosto de Baltazar, não o atingiam.
- Não era para você ter quatorze? – a curiosidade em sua voz era esquisita em comparação com a situação, mesmo assim tinha um tom de desdém em sua voz.
- Pra que a duvida? – perguntou Thiago, verdadeiramente intrigado.
- Por que eu atingi a sua idade, e agora eu estou com quatorze.
- Eu estava no futuro, e como no futuro eu não posso fazer aniversário, já que não é meu tempo natal... Eu estagnei no treze. – gritou em resposta, uma vez que os raios abafavam a sua voz.
Um desses raios atingiu Lucas, rachando a pele no antebraço. Com a pele ferida, o sangue brotava do pequeno corte como se fosse uma nascente de rio.
O pânico inicial deu lugar ao ódio profundo. Até mesmo o enjôo causado pelo sangue havia sumido, devido à raiva contra Baltazar. E um plano de ultima hora surgiu em sua mente, sem pensar se daria certo ou não, ele o pôs em pratica.
Inclinando o braço direito para baixo e para trás, Thiago evocou uma espada de energia. Enquanto ela surgia da mão dele até a ponta, ele ergueu o braço esquerdo e evocou um Escudo de Energia Modelável. Ele o fez ir até a coluna de ar e penetra-la em forma de agulha.
Isso provou ser extremamente fácil. Assim que tinha passado por toda extensão, mantendo-se no meio, ele a expandiu na largura, refazendo a janela que tinha estado lá.
- Pela cidade! Pela Resistência! Pelos meus pais! Por nós! – foi o único aviso.
Segurando a espada acima da cabeça com as duas mãos, ele inclinou-se para frente, um pouco antes de cair no chão, ele voou. Voou direto ao coração de Baltazar.
Seu vôo foi tão rápido que poderia ter cruzado a distancia que os separava em um segundo, mas Baltazar havia lançado um poder Extensivo, jogando o braço esquerdo da direita para o seu respectivo lado, fazendo que cada metro real percorrido por Thiago parecesse cem.
Nesse tempo extra garantido, Baltazar começou a entoar um cântico para que o processo duplicativo de poder andasse mais rápido.
Thiago estava a dois metros reais da coluna de ar, sua blusa de moletom chicoteava os lados do corpo. Ele esticou mais os braços. Baltazar hesitou. A famosa Curiosidade Adolescente. Era tudo que ele precisava. Thiago guinou para frente. Em direção ao peito de Baltazar.

Continua...

A BATALHA DO CAPITALISMO - VII

Continuação...

A cara de Baltazar havia se transformado num enorme ponto de interrogação, enquanto digeria a idéia de que fora enrolado até o final do eclipse. E ele, na raiva, apontou a espada de energia para o peito de Thiago, que com a grossura e largura da espada seria dividido em quatro com um só golpe no coração.
Lívia se contorceu e bateu com toda a força possível no pulso de Baltazar com o braço esquerdo. A espada de energia escapou de suas mãos e voou para longe.
Thiago reagiu imediatamente, dando vida a um plano de ultima hora. Ele estendeu o braço direito bem acima das costas de Lívia e emitiu uma combustão violenta contra Baltazar. Por causa da pressa, esqueceu de especificar mentalmente que ele e a Lívia não eram para ser afetados pela combustão.
Assim que a massa de ar se deslocou do seu punho cerrado, ela bateu em Baltazar, e o jogou direto para fora do prédio. Ela também o atingiu, jogando-o apenas a alguns metros para trás – apesar dele não ter especificado que era para ele não ser atingido, ele continuava a ser quem conjurou, diminuindo as conseqüências – e também atingiu Lívia nas costas, prensando-a no chão, que, por causa da briga, estava fraco e com a combustão desmoronou. Thiago sentiu-se ligeiramente em gravidade-zero, para logo depois se chocar com o chão cheio de escombros. Um pedaço de concreto continuou inteiro – rachado, mas inteiro – mas declinou-se, deixando uma rampa em direção ao beiral do prédio, no lado da avenida.

Romeu olhava preocupado para os corpos, que com poderes dos sobreviventes haviam sido transformados de volta ao normal e enfileirados lado a lado na calçada, que estava cheia de pó que caia do céu, como neve. Haviam morrido duzentas pessoas, metade da Resistência estava inconsciente no chão, e entre os sobreviventes ele não viu o rosto de Liza.
Mas sua preocupação foi desviada por um impacto gigantesco às suas costas, fazendo o chão vibrar discretamente sob os seus pés. Ele se virou para ver o que aconteceu e se deparou com uma enorme cratera que se elevava do chão. O que tinha caído formara um enorme “berço” de concreto. Ele correu até a cratera para ver o que tinha feito aquilo, mas sem sucesso. Para poder ver o que estava ali ele teve que escalar montes de concreto e terra para ver. Assim que conseguiu olhar para baixo ele perdeu o fôlego.
No meio da cratera estava um corpo enorme, de cinco metros de altura, todo vermelho e com asas (faltavam-lhe alguns pedaços) e um cotoco de um rabo fino, de uns dois centímetros de espessura.
O bicho olhou para ele e apontou o dedo indicador. Seu corpo começou a perder volume e tamanho, suas asas entraram de volta no corpo enquanto o cotoco sumia, uma roupa ia aparecendo gradualmente ao mesmo tempo em que sua pele adquiria tom branco. Assim que estava com tamanho de humano ele sussurrou:
- M-me ajude...
Romeu continuou calado. Baltazar não merecia ser socorrido.
- P-por f-favor... M-me ajude...
Romeu mexeu a cabeça negativamente, embora sua palma formigasse para que ajudasse.
- E-eu n-não v-ou so-sobreviver...
- Peça para quem você matou. – respondeu firme.
- V-você v-vai ne-negar a-a-ajuda pa-ra alguém ne-cessitado?
- Só estou fazendo algo que você faz há anos.
- E-então mo-rra! – seu grito não saiu mais que um sussurro.
A energia mal se formou em sua mão e tornou a desaparecer, deixando a mão cair bobamente no asfalto, sem vida.
Romeu mal acreditou em que via. Baltazar estava morto! Ele se virou alegremente para a Resistência e gritou:
- Está morto!

O grito que veio lá debaixo foi como musica aos seus ouvidos. Baltazar morrera finalmente. Thiago se moveu lentamente para uma massa de um metro de altura entre os escombros, e a cutucou:
- Lívia? Ainda está viva?
Ela se levantou, sua cabeça saiu do limite do teto, agora inexistente.
- Baltazar iria precisar de mais do que isso para me matar.
Seu corpo re-transmutou de volta à forma humana. Mas suas asas continuaram para fora.
- Vou descer lá, ver o estrago. Você quer vir?
Thiago não tinha certeza se queria ver quem tinha morrido, mas acenou positivamente.
- Então venha.
Ela o guiou rampa acima até o beiral.
- Me abrace na cintura bem forte.
- Que? – perguntou tão espontaneamente que saiu como se fosse um grito.
- Me abrace na cintura. Ou você quer ir de elevador até lá embaixo?
- Mas e o relógio e poderes? – para Lívia sua duvida estava na cara o que queria evitar. Por isso ela começou a rir, deixando-o vermelho.
- Não tem problema, pode me abraçar. Ou quer perder a chance de voar comigo?
Suas bochechas queimaram como fogo enquanto abraçava a cintura dela, deixando um vão entre eles.
- Desse jeito você vai cair. – aconselhou ela.
Suas bochechas queimavam ao equivalente a febre enquanto se encostava a ela. Suas asas elevaram-se e ela flexionou os joelhos. Deu um impulso, subindo dois metros e oitenta para cima.
Num lapso de loucura ele olhou para o chão. Quase vomitou quando viu a paisagem dezenas de metros para baixo. Numa tentativa de se acalmar, ele olhou para o rosto de Lívia. Ela estava sorrindo enquanto inclinava o corpo para o chão, recolhendo as asas juntou ao corpo. Logo eles estavam em queda-livre, abraçados.
Nos últimos dez metros antes de chegarem ao chão, Lívia abriu as asas, diminuindo a velocidade. Ela planou um pouco para pousar suavemente.
Thiago largou o abraço correu para vomitar na sarjeta (uma boa desculpa para poder se recompor e perder o rubor das bochechas). Assim que terminou, limpou a boca com as costas da mão:
- Você foi mais forte que eu. No meu primeiro vôo eu vomitei no ar.
- Por que agente vomita? – ele percebeu que sua pergunta podia ser mal interpretada – quer dizer... No ar?
- É que não estamos acostumados a voar, senão teríamos nascido com asas.
Thiago se lembrou de algo e rapidamente a pôs em pergunta.
- Mas quando eu tomei o poder-do-universo, eu voei para experimentar os meus novos poderes, e não vomitei.
- Por que você não estava preocupado com a altura, mas sim com o vôo em si. Estava mais excitado do que outra coisa, fazendo-o esquecer do medo.
- Quase um placebo.
- Quase um placebo – afirmou.
Eles caminharam para as pessoas mortas, e Thiago logo reconheceu os cinco garotos que tinha conversado logo de manhã. Também viu várias outras pessoas, dentre elas quem mais lhe trouxe pesar foi a Liza. Mas ficou contente internamente em não ver o corpo de Lucas.
Se essa briga idiota não tivesse ter que acontecer... Estariam todos vivos. Pensou amargamente. Estariam todos felizes. Ele repentinamente se lembrou do que Baltazar lhe contara: “E o Diogo veio me fazer uma visitinha; e, apesar da tentativa, não conseguiu me matar, isso ajudou a alimentar a minha ira contra ele.”.
Então significava que Diogo tentara matar Baltazar. Mas por quê? A reposta veio tão imediata que um sorriso bobo estampou-se em seu rosto. Se Baltazar morresse jovem, essa briga nunca ocorreria, eles e minha mãe continuariam vivos, e eu então poderia voltar para ficar com ela.
Ele localizou Lucas entre um bando de garotos sentados na calçada que divisava as pistas da avenida.
- Lucas! Vem aqui, por favor. – chamou-o a três metros longe dos garotos.
- Sim.
Thiago lhe contou sobre a sua dedução.
-... Seria ótimo que isso acontecesse, mas você quer vir comigo?
- Vamos! Mas como vai fazer para ir até ele?
- Vou me concentrar numa imagem dele e vou fazer uma “regressão” com poder, para ter o rosto dele com quatorze anos, depois é só colocar no relógio o ano de dois mil e dez.
- Então vai.
Thiago se concentrou numa imagem mental de Baltazar, então ele a “regressou” para quatorze anos, e quanto à imagem estava pronta, ele apertou o relógio para o ano de dois mil e dez.
Um medo rápido se apossou dele quando pensou na possibilidade de Baltazar-jovem estar usando o banheiro no momento. Mas esse medo sumiu assim que a fumaça cessou.

Chegou o fim do capitulo (Aleluia!) mas ainda temos dois capitulos pela frente e um Epilogo (se não sabe o que é preocure no dicionário, burro) antes que possamos ir até o livro II - Terrorismo. Aproveitem esse desfecho, pois promete tantas emoções quanto esse que acabou de acabar.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A BATALHA DO CAPITALISMO - VI

Menos duas horas.
Menos uma hora e meia.
Menos uma hora.
Menos meia hora.
Lívia e Baltazar estavam visivelmente cansados, mas mesmo assim nenhum dos dois estava disposto a perder. Os Seres lá embaixo não se cansavam, pois eram substitutos dos mortos, a Resistência estava cansada e as munições estavam no fim.
Menos quinze minutos.
O braço de Lívia tremia enquanto aparava os golpes, resistindo até o ultimo.
Menos dez minutos.
Um dos mísseis da Resistência foi desviado com um poder, atravessou toda a avenida e se chocou com a barreira, produzindo um barulho descomunal que estilhaçou todas as janelas dos prédios vizinhos. Pelo menos estavam no lugar, e não caíram. A combustão do fogo fez o prédio tremer levemente. Intrigado, Thiago tentou ver o que pôde ter feito uma explosão tão descomunal, e viu que os Seres tinham colocado, às escondidas, combustível nas partes alcançáveis da barreira, que rachou perigosamente.
Um segundo míssil foi desviado, e antes que Thiago pudesse fazer algo, o míssil atingiu a barreira, com uma explosão bem menor.
A barreira desmoronou e os Seres Malignos, antes confinados, entraram no combate no exato instante em que as munições acabaram.
Menos cinco minutos.
A Resistência, desesperada, retrucou o ataque com poderes visíveis naquela noite. Pois o importante não era mais ficar invisível, mas sim sobreviver.
Menos um minuto.
Lívia agora se mexia com dificuldade, estava extremamente cansada, e Baltazar parecia ter tirado forças de algum lugar. Thiago lentamente e discretamente se postou para ficar à frente de Baltazar. Era agora ou nunca.
Por causa do cansaço e da lerdeza de Lívia, Baltazar logo tomou o comando da briga, e numa seqüência brilhante de espada, desarmou-a. Com uma batida da parte plana da espada de energia no lado de trás dos joelhos, ele fez com que Lívia caísse de mão e joelhos no chão. Ele se curvou para trás, rindo, segurando a espada de energia, pronto para decapitá-la.
- Hei! Baltazar! – gritou, desviando a atenção dele.
Baltazar olhou furioso para Thiago, que esticou o braço para o céu, apontando para algo. Ele seguiu como o olhar e seus olhos pararam direto no eclipse.
O relógio no pulso de Thiago apitou na hora marcada: meio-dia. A lua se deslocou mais rápido que a Terra, fazendo-a sair da frente do sol.

Agora que só lhe restava aguardar, Matheus estava jogando um joguinho de um dos computadores da empresa. Não podendo ir à batalha, para não se pôr em risco, ele estava entediado. O seu relógio disparou, dera meio-dia.
Ele correu para a janela para olhar o céu. A lua saiu lentamente da frente do sol, deixando cair uma estreita faixa de luz desceu céu abaixo em direção à avenida. Os Seres explodiram instantaneamente ao toque da luz. A faixa se alargou e cresceu a cada segundo, matando mais Seres do que qualquer coisa naquele dia.
Os Seres correram rapidamente em direção às vielas escuras entre os prédios, para se proteger. Sem sucesso. Quando os raios solares entraram em contato com os vidros dos prédios, os acenderam como se fossem faróis. E como numa reação em cadeia, um prédio foi ascendendo o outro, assim sucessivamente. A luz ofuscou Matheus assim como iluminou quaisquer canto da cidade, aniquilando os Seres.

- Querido, eu já falei! Estamos a sete quilômetros da Avenida Capitalismo! – explicou Clara.
Ela e o marido estavam de passeio na cidade, e ela insistira para ver a maior avenida do país. E ela estava como “navegadora”, com o mapa na mão enquanto o marido dirigia.
- Nós temos que pegar a próxima rua à direita, senão não chegamos lá hoje! Você devia ter...
Ela se calou assim que uma luz entrou pela sua janela. Só dera tempo de ver uma luz engolindo um pedaço da cidade – o mais cheio de prédios – e se estendendo para todos os lados.

Antes que Matheus ficasse cego, ele re-sujou os prédios com um aceno de mão. A luz diminuiu de intensidade até ficar igual à luz do meio-dia. Estava terminado. Pelo menos os Seres haviam morrido.

sábado, 22 de agosto de 2009

A BATALHA DO CAPITALISMO - V

continuaçao.

Thiago sentiu-se atônito. Seu DNA serviu para criar um monstro!
- Mas eu irei acabar com isso! – gritou Lívia.
Logo após seu grito, seu corpo começou a se transmutar. Ela cresceu até chegar a uns cinco metros de altura, seus músculos cresceram de forma desordenada enquanto sua roupa aderia à pele, se transformando nela. Asas de pena que tinham trinta centímetros cresceram proporcionalmente ao corpo, que tinha uma tonalidade branca-acizentada. Assim que a transformação terminou Baltazar exclamou claramente calmo:
- Vai usar o Titã-Alma? – ele começou a rir – boba! – e então seu riso começou a engrossar e ter um som para dentro.
Seu corpo cresceu para o também cinco metros, sua roupa aderiram ao corpo, que se tornou avermelhado, seus músculos cresceram, juntamente com asas de morcego e uma cauda fina, suas unhas, ao contrario de Lívia, cresceram pontudas como garras.
Lívia já havia explicado que cada pessoa tinha um Titã-Alma em si. E que cada um correspondia à base de pensamentos da pessoa, como o caso da Visão Diferenciadora de Personalidade, em que pessoas boas teriam a forma em que Lívia se transformou, e más se transformariam no que Baltazar se transformou. Mas mesmo assim ficou surpreso com a transformação.
O chão rachou com o peso duplo, mas não cedeu. Os dois evocaram espadas de energia, que eram do tamanho de Thiago.
- Você pode ainda desistir Baltazar – gritou Lívia, e sua voz angelical se transformou num grito grave e monstruoso.
- Só se você me matar! – gritou em resposta, na mesma voz.
- À vontade!
Os dois se precipitaram para a batalha que custava a vida. Fagulhas causadas pelo choque das espadas voarão para todo lado, enquanto eles desferiam golpes complexos e ardilosos. O chão tremia perigosamente.
Como não tinha nada para fazer, Thiago continuou a se curar. Assim que terminou ele olhou no relógio: 09h56min da manhã. O barulho da batalha ecoava lá em baixo e, apesar de serem quase dez horas, se lembrou do sonho. “O relógio marcava dez horas da manhã. Um ensurdecedor grito de luta ressoava lá em baixo. Ele estava no alto de um prédio, o coração estava ansioso.”
Então ele tinha feito uma premonição! Ele previra o que iria acontecer, a hora, o a luta, o prédio, tudo. Em sua felicidade ele ficou mirando o relógio sem mesmo vê-lo, e quando retomou de seu devaneio, o relógio marcava dez horas da manhã.
Mas aquilo significava que iriam acontecer outras coisas, como aquele cone de ar, parecido com um furacão... O furacão de um quilômetro. Aquela estranha visão dos braços e pernas peludas e a dor no peito, tudo isso irá acontecer.
Sua atenção voltou para a briga que estava acontecendo lá em cima do prédio. Lívia e Baltazar ganharam inúmeros cortes. Penas brancas estavam espalhadas por todo lado, algumas caindo para a batalha lá em baixo, e pedaços da asa de Baltazar estavam espalhados perto da briga. Inúmeras marcas de queimados salpicavam o chão, causadas pela faíscas enormes. Pedaços do chão simplesmente sumiram, devido à violência da briga.
Thiago se virou desinteressado para a batalha lá em baixo. A imagem estava monótona. Ele não tinha mais nada para fazer. Agora era só esperar.

continua....

A BATALHA DO CAPITALISMO - IV

continuaçao. revelaçoes estao sendo feitas, e a historia está chegando ao final.
decisoes cruciais que podem decidir o futuro dos personagens estao prestes a serem feitas.


Apesar da situação, apesar de estar deitado numa escada de cabeça para baixo, cheio de cortes e possivelmente uma costela quebrada (a cada respiração era uma agonia), Thiago achou maravilhoso poder estar deitado, descansando o corpo. Thiago levemente abriu os olhos, e viu na escuridão Baltazar descendo as escadas, provocando a cada pisada uma avalanche de escombros, às vezes pequena. Uns três degraus ante de chegar ao Thiago ele teve que retirar um bloco da escada, jogando-a com bastante estardalhaço lá em baixo. Ele se agachou ao lado de Thiago e provocou:
- Ora, ora, o nosso querido Thiago – ele pronunciou o nome com uma voz fina de grito, imitando alguém pedindo socorro – está esparramado pelo chão, todo machucadinho.
Baltazar olhou para Thiago de cima a baixo, com os olhos da cor de uma berinjela. Estava fazendo uma inspeção raios-X dele.
- Hum... – tornou a dizer – o que você acha disso? – e então cutucou bem onde estava a costela quebrada.
O grito de dor escapou involuntariamente da boca de Thiago enquanto suas costelas doíam.
- Tadinho. – foi à única coisa que Baltazar falou, em tom sarcástico. – não vai me impedir.
- Não vou deixar você dominar o mundo.
Baltazar deu uma gargalhada.
- Quem lhe disse essa besteira? Acho que foi o Diogo. Mundo, mas que piada.
- Mas você só vai se contentar com esse país? – o tom da voz de Thiago o deixou vermelho. Sem aviso ele pegou na garganta de Thiago e o jogou direto no teto.
Thiago só teve tempo de convocar um escudo de energia antes de se chocar com o teto, evitando a morte causada pelo impacto, que destruiu o teto e ele ainda continuou a subir, devido à força de Baltazar. A pequena distração provocada pelo teto foi o suficiente para ele parar de produzir o escudo. Enquanto caía em direção ao chão, ele tentou absorver a queda com o braço direito, mas quando ele bateu no chão sentiu os ossos quebrarem. Agora ele não se importava mais com o que o Baltazar diria, e começou a chorar de dor.
- Ta chorando, ta? – disse Baltazar rindo, esticando o braço para matar Thiago.
- Fique longe dele! – gritou Lívia.
Uma expressão de puro espanto apareceu no rosto de Baltazar. Ele se virou:
- Lívia! A defensora dos fracos e oprimidos! O que veio fazer aqui nessa linda manhã de sexta? – disse ironicamente.
- Saia de perto do Thiago – ordenou
Um riso se formou na boca de Baltazar.
- Então vocês já se conhecem?
- Ela tem me ajudado muito nesses últimos dias. – disse Thiago meio entre dentes pela dor.
Apesar da intromissão dele na conversa, nem Lívia nem Baltazar tiraram os olhos uns dos outros. O ar lá estava tenso.
- Mas acho que ela não te contou o essencial... Ou será que ela te contou o fato de nós sermos irmãos?
Thiago se sentiu completamente sem chão. Será que todo esse tempo ela era só uma espiã de Baltazar? Será que todas aquelas ajudas foram simples fingimentos?
Thiago olhou para ela buscando respostas, que ela, mesmo sem desviar os olhos de Baltazar, respondeu:
- Olha quem fala! Me repreende por não contar que eu sou sua irmã, mas não fala pra ele que você é adotado.
A desconfiança em Lívia se abrandou, mas ainda estava tenso.
- É verdade – afirmou Baltazar, como se estivesse confirmando uma resposta certa – mas me diga: quem mais nessa cidade iria me aceitar? Quem nessa mixuruca de cidade iria aceitar um bebê-clone?
Thiago petrificou-se, parando no exato momento em que curava sua costela com a mão esquerda. Clone? Então...
- É, eu sou o primeiro clone humano da história. – disse como se tivesse lido os pensamentos de Thiago – e quem, em sã consciência, me aceitaria, um clone humano?
- Ainda não entendo. – disse Thiago, apesar de estar falando com o seu inimigo – não entendo por que alguém não aceitaria ficar com você. – ainda sim ele evitou um tom de compaixão na voz.
- Eu não sou um simples clone – respondeu no mesmo tom de antes – eu fui mudado geneticamente para que eu não parecesse exatamente com o meu “original”. O meu DNA foi recombinado para que meus traços básicos fossem completamente opostos ao garoto clonado.
- Ainda não entendo. – disse retomando a cura de seus ferimentos.
- Mas não foi só isso! Eu também fui programado para ter um crescimento acelerado, até que a minha idade se igualasse ao do clonado, que aconteceu quando eu tinha quatorze anos. E então, que família iria querer um garoto que tivesse um crescimento rápido, que depois de um ano ele já tivesse corpo de cinco? Mas então, a família dela me acolheu, dando casa e um quarto para dividir com o futuro presidente – então Lívia é irmã do ex-presidente! – e eu fui crescendo, crescendo, e continuando a ser o ultimo a ser lembrado pela família perfeita! Até que chegaram meus quatorze anos. E o Diogo veio me fazer uma visitinha. – apesar da história, os olhos dele não se moveram – e, apesar da tentativa, não conseguiu me matar, isso ajudou a alimentar a minha ira contra ele.
- Mas você foi clonado de quem? – perguntou enquanto curava o braço e a palma da mão.
- A... Venho esperando anos para responder essa questão para você.
- Eu?
- É... Não entende por que você?... Deixe-me esclarecer. Eu, Baltazar, fui clonado de... Você.

continua...

A BATALHA DO CAPITALISMO - III

continuaçao, e ainda falta bastante coisa


Cada membro da Resistência conjurou o próprio. Espadas de lâmina grossa, bastões com pontas afiadas, lanças, arcos e flechas e até armas de fogo surgiram na mão dos “Seres do bem”. Assim que sua arma estava pronta, eles começaram uma corrida desenfreada contra os Seres de verdade, que vinham na direção oposta. E as primeiras explosões surgiram enquanto a eficiência das armas era revelada. Thiago se manteve imóvel. Um dos Seres de áurea preta se aproximou com as garras a postos, para atacá-lo. Quando estava a poucos centímetros, Thiago conjurou um bastão que transpassou o Ser na barriga, sem o Thiago precisar se mover, pois o bastão se formou diretamente no peito do Ser. Com o impacto da corrida desembestada do Ser, Thiago cambaleou para trás e deu uma torcida no bastão, matando-o. O Ser explodiu, deixando Thiago coberto de pó, ele se desfez do bastão, jogando-o para o lado. Assim que deixou o contato com a mão dele, o bastão se desfez.
Agora ele percebera que, na confusão, que seu caminho para Baltazar fora fechado. Ele viu entre o tumulto da batalha a cabeça careca de Baltazar, estava imóvel, esperando-o. Thiago, que estava visível e não se importava muito, conjurou um outro bastão, só que de luz, e calmamente deu um passo à frente e golpeou um Ser claramente perdido, sem muita certeza se estava entre amigos ou inimigos, ou o dois misturado, hesitou em outro golpe quando viu a áurea branca dos dois à frente, que tiveram também uma súbita hesitação no ataque mútuo, se viraram, e atacaram os Ser Maligno inimigo respectivo.
Baltazar ainda estava a cinco metros de distancia, e os Seres não deixavam Thiago avançar sem um pouco de resistência, sem um pouco de luta. Em um trajeto de dois metros lhe resultou em inúmeros arranhões e cortes, que ele não fez a mínima questão de curar, já que não ofereciam riscos e se desviasse a atenção necessária poderia ser atacado sem dó.
Mas ele também não deixava barato. Desferia golpes sem culpa e sem hesitação. Toda vez que a sua frente tinha um amigo, ele lutava com outro até poder dar algum passo.
Os Seres conseguiram se situar e agora repeliam os ataques na mesma moeda, com espadas de energia negra. Por esse motivo Thiago ficara engajado em um duelo por quase quinze minutos, que só terminou quando fingiu atacar a perna-pata direta do Ser, e quando o mesmo chegou antes para aparar o golpe, Thiago subiu a espada por cima do ombro dele e lhe cortara a cabeça. Mas esses últimos segundos que precisou para tal façanha custou um naco de carne da coxa esquerda, cujo Ser arrancou, com um movimento hábil de sangue-frio, uma fatia de carne.
O corte podia ser pequeno, mas a dor era lacinante. Cada pisada que ele dava era uma onda de dor. Para poder se controlar Thiago mordeu a língua, deixando rapidamente o gosto de sangue na boca.
A única vantagem de lutar contra Seres Malignos era que eles não sangravam com cortes mortais, deixando ele limpo, salvo a mancha em sua coxa esquerda. Os únicos ferimentos causados ali nos Seres tinham a intenção de serem mortais, eram evitados cortes sem motivo, para poupar golpes. Mas isso preocupava Thiago, por que ele via poças de sangue no asfalto. E agora que percebera, havia também Seres jogados no chão, alguns deles imóveis, e todos esses tinham a áurea branca, que indicava amigos.
Quando Thiago deu por si, estava lutando com um Ser Maligno, e nas costas dele, outro Ser (da Resistência), que por sua vez lutava com Baltazar. Thiago matou o Ser mais rapidamente possível, pois sabia o fim que o membro da Resistência teria, e tentou tira-lo de lá. Mas foi tarde demais. Ele viu a ponta da espada de luz nas costas grandes e peludas do Ser, que foi jogado ao lado.
A situação de Baltazar não era melhor do que a de Thiago. Estava todo machucado e suado como ele, exceto o corte na perna que constantemente tirava a concentração de Thiago. Os dois se encararam por um tempo e Baltazar esboçou um riso sarcástico, que sumiu assim que um Ser se aproximou para matar Thiago.
- Ele é meu! – gritou enquanto emitia uma luz no monstro, explodindo-o.
O grito ecoou na avenida e silenciou por três segundos a luta. Depois, os Seres, amigos ou inimigos, se afastaram deixando três metros para a luta dos dois. Enquanto os Seres voltavam as suas lutas, tentavam evitar entrar no “circulo sagrado”.
- Meio apertado aqui não? – disse sarcasticamente
- Não muito para quem vai morrer... Ou você prefere morrer em um lugar espaçoso?
Baltazar não riu. Simplesmente deu um pulo para frente. Thiago de reflexo esticou o bastão, apontando-o diretamente no peito de Baltazar, que usou a espada de energia e desviou o bastão de Thiago enquanto erguia a mão esquerda, que esbarrou no ombro dele. Imediatamente a cena de dissolveu. Quando tudo se formou novamente, ele estava no terraço de um prédio. Ele escutou ao longe o som de luta.
Um barulho o fez virar bruscamente, custando uma fisgada de dor nas costas – por causa do músculo doído pelos movimentos usados para matar Seres – e outro na coxa. Ele viu Baltazar longe curando os ferimentos, um por um. Thiago fez uma proteção, para evitar surpresas, e foi até o beiral do terraço. Ele assobiou assim que viu a luta a quarenta andares abaixo. A aproximadamente dez andares abaixo, estava o ponto mais alto da placa de avenida que ele desprendeu do chão. O prédio em que estava era um dos dois prédios que tinham recebido a “barreira” na frente. De um lado estava a briga, do outro, os Seres desesperados para saber o que estava acontecendo, sem conseguir escalar. Thiago não sabia se era por medo ou coragem, mas nenhum deles fugiu. Thiago enviou uma mensagem mental para Lívia avisando onde eles estavam.
- Não vai curar os seus ferimentos?
Thiago se virou e deu de cara com Baltazar, do outro lado da proteção, tudo curado.
- É claro! – disse contrariado por ter que concordar com ele
A luz habitual cobriu o seu corpo enquanto se curava, e logo um alívio anestésico tomou conta de seu corpo assim que o ferimento da perna se fechou.
- Sabia que ainda há uma surpresa? – o tom de desafio em sua voz era uma das coisas que Baltazar não esperava.
Lentamente e tirou o walk-tock do bolso e apertou o botão:
- Pode atacar!

A espera era quase que insuportável. Thiago não dava sinal de vida. Matheus agora estava em um escritório dos mais luxuosos da cidade, no décimo andar. As cadeiras estavam vazias, já que os Toques de Recolher eram para qualquer tipo de noite. Até Baltazar foi à televisão explicar ao povo que deviam se manter em casa.
O mais angustiante era não saber o que estava acontecendo, nem sabia se Thiago morrera. Perde-lo tão logo que ele voltou não vai ser fácil.
Ele levou um sustou quando uma voz o chamou:
- Pode atacar!
E rapidamente ele quebrou o vidro-janela-parede que dava acesso à avenida e mirou sua bazuca para os Seres, e outros cem tipos de armas fizeram o mesmo. Mas a única variação eram armas de fogo.
E ele disparou o primeiro tiro.

Era um saco trabalhar para o Baltazar, ainda mais agora, que ninguém sabia o que estava acontecendo. Nisso um dos vidros de um dos prédios quebrou os vidros nem chegaram ao chão quando uma bazuca se revelou. Outros tantos de janelas quebraram, revelando outras armas. Um tiro ecoou na avenida, que veio da primeira bazuca. O míssil foi direto ao chão, explodindo. Mas em vez da esperada chama vermelha, um brilho branco revelou um dos seus temores: Luminosfato. Os Seres foram engolidos pelas chamas, enquanto quem estava próximo ficava em coma, por ter sido ofuscado pela luz. Explosões como essa ocorreram ao longo da avenida, elevando rapidamente uma fumaça resultante das mortes e do fogo. Acima desse barulho veio outro pior: tiros. Ele se virou a tempo de ver uma rajada vir em direção a ele, acertando outros Seres e o chão. Um tiro o acertou no ombro, mas não penetrou fundo na carne.
Ele tirou a bala cravada no ombro e viu que a ponta dele tinha um led vermelho que piscava constantemente, meio ofuscado pelo sangue. Assim que as piscadas ficaram mais rápidas ele viu flashes de luz em uma trilha, vindo em sua direção, semelhante aos tiros. Quando ele percebeu era tarde demais: a bala em seus dedos expandiu em luz, matando-o na mesma hora.

Depois de três mísseis lançados ele parou, pegou uma granada do seu estoque de dez e a lançou janela afora. Matheus a ficou espiando para vê-la em ação. No momento em que tocou o chão expandiu-se uma onda de combustão em meio aos flashes, amputando os Seres em um raio de dez metros, e um segundo depois, uma grande bola de luz engoliu os mesmo Seres amputados antes de sumir. Deixando uma enorme cratera no chão. Esse processo se repetiu na avenida. Outros seres avançavam. Era a melhor manhã de sua vida.

A cara de Baltazar se contorceu de raiva enquanto via as explosões de luminosfato, flashes de balas e bolas de fogo. Em sua súbita raiva ele desfez a proteção de Thiago em um só movimento, trazendo uma enorme agonia ao corpo de Thiago, uma dor de origem no meio da espinha que se espalhou por todo o corpo, que só foi superada pelo soco no estomago que levou logo depois, jogando-o dois metros para trás, chocando-o na porta da “casinha” que dava acesso às escadas do prédio, destruindo-a. Thiago por puro instinto tentou se agarrar à parede, porem a força do golpe e o estado de conservação dos tijolos tivessem provocado o desmoronamento total. Ganhando uma nova coleção de arranhões e cortes – principalmente na palma da mão direita e nas costas – ele caiu de para trás nos degraus logo abaixo e, com um escudo na forma de cone, fez com que os destroços não caíssem nele.

continua...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A BATALHA DO CAPITALISMO - II

Continuação

Os velhos e os aparentemente doentes ou incapacitados se aprumaram, as mulheres pararam de fingir, junto das crianças. Todos em posição de luta.
Baltazar recuou dois passos ao ver o montante de gente erguer o braço, não esperava que tivessem poderes, seu rosto expressava medo, medo que seu plano fosse por água abaixo. Mas parou para caçoá-los assim que formaram bolas de luz nas palmas. Numa “imitação” do supermercado.
- Bobões inúteis – disse às gargalhadas.
Logo após a ofensa de Baltazar, todos ergueram o braço para cima, numa inclinação clara que o alvo não era a linha de frente. Thiago percebera Baltazar provavelmente se xingando de burro, por não perceber que eles esperavam a ofensa e a usariam como sinal. Mas logo sua atenção foi puxada pelas bolas de luz, que voavam em direção aos Seres mais pro meio. Assim que elas tocavam o chão, se expandiam para mais de cinco metros de diâmetro, engolindo Seres Malignos e deixando mentalmente incapacitados aqueles que estavam perto demais da luz. E assim que elas chegavam ao seu máximo, se contraiam num pontinho de luz do tamanho de cabeça de alfinete e sumia.
Antes mesmo da ultima luz se extinguir, Thiago deu o próximo ataque:
- Agora! – Baltazar baixou o olhar para ele. Estava branco.
A segunda fileira da Resistência deu um passo à frente, passando pela primeira, empunhando arcos e flechas de luz. Dispararam uma saraivada de flechas horizontalmente, acertando os Seres à frente, explodindo-os como normalmente faziam, e uma segunda para cima, que descreveu um arco no céu. Enquanto os Seres eram pegos desprevenidos. A formação voltava a ser o que era antes e Thiago não pôde deixar de notar a fumaça de poeira que se elevava dos Seres atingidos. Baltazar parecia desnorteado.
Thiago conjurou uma bola de luz acima de sua própria cabeça, que foi alimentada por todos os outros, deixando-a com dez metros de diâmetro, e então ele a jogou para frente. A bola de luz girou verticalmente no próprio eixo no ar, e desceu em direção aos Seres, rolou enquanto os destruía, como se fosse uma bola de futebol rolando sobre varias peças de dominó posto em pé, e por fim impactou-se com o chão, produzindo um leve tremor. A luz tornou-se forte ao ponto de olhá-la ser insuportável e sumiu. Baltazar gritava ordens de costas a Thiago, mas não fora totalmente imprudente: tinha um escudo transparente protegendo-os.
Antes de dar o próximo passo o walk-tock de Thiago o chamou novamente:
- Thiago?
- Sim?
- Tenho algo horrível pra te contar.
- Então conta!
- Eles estão se matando! Os Seres Malignos estão matando os seus iguais, que estão incapacitados – Thiago se sentiu ligeiramente nauseado – podemos atacar?
- Não. Mantenha o plano. Ele estará preparado para ataques-surpresa. Deixe que eu te chame. Ele não esperara nenhum ataque surpresa depois que supostamente pararmos.
E Thiago tinha razão. O olhar de Baltazar estava esperando o próximo ataque. Um surpresa. Mas não do nível que Thiago providenciara. Ele elevou os braços acima da cabeça, e se concentrou o máximo que pôde.

Ele sabia o que estava acontecendo. Ele sabia que Thiago, o garoto desprezível a sua frente, estava fazendo. A cara de concentração o denunciava. Mas a questão era o que ele exatamente estava tentando fazer. Não havia nenhuma turbulência no ar, nada que indicasse que ele estava usando poder. A noite que se instalara momentaneamente dificultava sua visão, que só era auxiliada pelas lâmpadas que iluminavam a rua. Foi quando seus olhos se depararam com um vulto enorme se erguendo atrás da Resistência. Ele tinha que concordar. O garoto tinha uma inventibilidade que era admirável.

Seu próximo passo nasceu num momento de inspiração. O chão tremera rapidamente enquanto o pedaço da Avenida Capitalismo, atrás da Resistência, se desprendia da Terra. E ele ficou feliz de ver a cara de surpresa de Baltazar. Indicava que dera certo. Já que não tivera certeza que daria certo.
Thiago jogou os braços para frente, indicando o caminho a ser feito pelo pedaço de avenida que flutuava a suas costas. Ele sentiu uma lufada de ar e pingos de água quando o enorme pedaço, de uns trinta e três metros de comprimento, passou por cima de sua cabeça e se cravou alguns metros adiante, separando por volta de três mil Seres Malignos para lutarem com a Resistência. E ele tivera o maior cuidado de deixar o concreto do lado dos outros Seres, tornando mais difícil deles se juntarem aos companheiros escalando a barreira. Enquanto uma fumaça que juntava a da terra e os restos mortais dos Seres que foram esmagados se elevava, Thiago gritou:
- Acionem a Visão Diferenciadora de Personalidade! – e ele próprio o fez, e quando ele abriu os olhos, à sua frente havia vultos de um negrume que superava a noite, e os prédios estavam salpicados de estrelas negras e brancas; ele próprio olhou para as próprias mãos, com um temor infantil para saber aonde se encaixava, e se aliviou ao ver que ele desprendia uma luz branca, assim como os membros da Resistência. Mas os seus brilhos eram sujo, meio acinzentado, se comparado ao de Lívia, que ele viu quando olhou na direção que ela estava escondida – e agora... Transmutar!
Os membros da Resistência se contorceram, se transformando. Parecia uma cena de filme de lobisomem multiplicada varias vezes. Thiago não se transformara por que queria ser visível para Lívia, que achou que numa confusão de Seres Malignos duas pessoas seriam mais visíveis do que uma. Ao final da transformação Thiago gritara, mas fluentemente, uma vez que Baltazar e os Seres estavam paralisados, a ultima ordem da manhã:
- Armas e atacar!


continua...

A BATALHA DO CAPITALISMO

realmente esse capitulo ficou muito longo... por isso será dividido em algumas partes... coisa que tambem aumenta a ansiedade

Thiago acordou e o sol ainda estava pintando o quarto dele de vermelho. Ele olhou para o relógio e viu que ainda eram cinco e meia. Como ele já perdera totalmente o sono, ele se levantou. Uma pontada de dor na barriga o obrigou a ir à cozinha, e enquanto descia as escadas, via que mais ninguém tinha acordado. Ou pelo menos não levantara.
Assim que ele chegou à cozinha viu que tinha cinco garotos, com idades de quatorze a dezessete anos, conversando, cada um com um copo de leite com chocolate à mão. Ele foi até a geladeira, pegou um copo de leite, colocou duas colheres de chocolate, ferveu com um poder e se sentou na outra ponta da mesa, que geralmente é usada para cortar alimentos ou hora do almoço dos cozinheiros, que almoçam meia hora depois dos outros.
Os garotos ficaram em silencio até que o mais velho falou:
- Pode vir aqui... Se quiser.
Estava na cara que eles também estavam meio sem graça, tímidos. Thiago se levantou e se sentou no lado que só tinham dois, para fechar o grupo de seis.
- Nervosos? – perguntou, puxando assunto depois de cinco minutos de silencio.
- Um pouco – responderam ao mesmo tempo – nós dividimos o mesmo quarto – continuou o mais velho – e todos nós acordamos mais cedo do que o combinado, a propósito, meu nome é Jonathan. Esse é o Fábio e tem dezesseis, esse é o Silas e tem quinze, e esses dois são os gêmeos Gustavo e Carlo, de quatorze.
Thiago deu uma risada:
- Acho que todos vocês conhecem meu nome.
Pela primeira vez no dia ele e os garotos riram. E, em cinco minutos, todos estavam “amigos”. No que, de perto, parecia uns garotos nervosos e ansiosos com a batalha por perto, de longe pareciam garotos normais conversando sobre besteiras. E por uns minutos Thiago até se esqueceu que dia era aquele.
Duas cozinheiras passaram por eles levando bandejas de pão para os refeitórios. Thiago e os garotos mais novos olharam espantados já que ninguém tinha as visto entrando na cozinha:
- Elas passaram sim – respondeu o Jonathan, antes da pergunta – elas passaram há quinze minutos. Acho que já deu o horário combinado.
Eles rumaram para o refeitório, lá tiveram uma surpresa: todos já estavam vestidos, com exceção do Lucas, que veio ao encontro deles:
- To vendo que nós fomos os únicos que acordamos agora.
- Na verdade – Thiago o corrigiu – nós acordamos há algum tempo, e viemos direto para a cozinha passar um tempo. A única diferença é que eles se trocaram.
Em todo o café-da-manhã Thiago e os garotos se mantiveram em silencio, com o rosto ardendo de vergonha por estarem só de pijama.
Dando sete horas Thiago foi para o quarto se trocar. Ele pôs uma calça jeans, uma camiseta vermelha e uma blusa de moletom, que ele fez questão de deixar o zíper aberto, por questão de estilo. Ele se olhou no espelho, era agora ou nunca, era dessa vez que Baltazar ia pagar.
Ele deu uma ultima olhada no quarto, e seus olhos se deparou numa gaveta, a única, que ele nunca teve a mínima vontade de mexer. Ele a abriu, e lá dentro havia um envelope, endereçado a ele.
Thiago virou o envelope para ver de quem era, e tomou um susto ao ver o seu próprio nome de novo. Ele tirou a carta que tinha dentro e começou a ler:
Oi Thiago.

Se você achar essa carta antes do dia do eclipse, pare de lê-la, pois o poder que eu usei contra o choque-temporal só funciona nesse dia.
Mas se não, pode continuar a ler.
Eu escrevi essa carta para poder te contar algo que você precisará para a batalha da Avenida Capitalismo. Primeiro: não se deixe abalar com o que Baltazar irá te contar em cima do prédio; segundo: eu lancei em você, quando a gente se conheceu, um poder que você carrega até hoje. Esse poder só chegou e te envolveu quando você apareceu no meu quarto, e esse poder irá parar o tempo para que você possa fazer uma escolha. Pois essa escolha envolve um perigo. Não posso especificar por que comigo foi um perigo, e com o Diogo que eu conheci foi diferente. Resumindo: é um perigo diferente para cada Thiago.
Terceiro: você terá, uma hora, que fazer uma escolha. Essa escolha não é uma escolha qualquer, pois vai mexer com o que você acha que é certo e sua personalidade. E eu lhe peço, por favor, se mantenha firme. Não faça o que eu fiz. Não falhe. Foi por esse erro que eu tive que passar por tudo, foi por esse erro que você teve que passar por tudo.
Mais do que isso eu não posso lhe contar. Por tanto, eu termino fazendo uns pedidos a você: não se abale com o que Baltazar disser; faça a escolha certa, e, se optar por ela, vá com mais velocidade, e se mantenha na mesma opinião.
Não vou pedir para que entenda tudo isso agora, mas tudo irá se esclarecer na devida hora.
Cuidado. Algum Thiago tem que ter uma vida melhor.

Thiago Vinicius Ribeiro.

Thiago terminou de ler a carta com uma pontada de carinho, alem de um sentimento de “eu vou fazer o melhor”. Ele sentia como se aquele fosse um momento único da sua vida, um momento que iria definir sua vida. Um momento em que a musica que estava escutando na hora que ele achou a carta, “When Love Takes Over”, se encaixa perfeitamente.
Ele pegou a essência, que estava guardada numa das gavetas do armário e amarrou uma corrente nela e, certificando-se que não ia se soltar, a pendurou no pescoço, embaixo da camisa. Assim que terminou de se aprontar, ele desceu até a frente do prédio, esperou até a ultima pessoa chegar e então rumaram para a Avenida Capitalismo.
O sol da manhã banhou a todos, dando um ar de esperança à caminhada.
Baltazar ia pagar, com certeza.

Sete horas, cinqüenta e cinco minutos da manhã. Cinco minutos para o eclipse.
Todos os membros da Resistência empenhados na batalha estavam agora na Avenida Capitalismo, lotando-a em uma faixa de trinta metros. Thiago, na primeira linha, olhava ansioso do céu para a avenida e de volta ao céu. A lua estava bem próxima do sol e quase a tocava. Ele pensou pela ultima vez em seus pais e olhou para o relógio: sete e cinqüenta e nove.
Seus olhos subiram direto para o eclipse. Ele sabia muito bem que Baltazar não ousaria trazer à avenida os seus Seres Malignos antes que um último fiasco de sol sumisse. Com um poder ele tirou qualquer impureza dos vidros em um raio de seis quilômetros.
A lua tocou o sol. Uma onda de ansiedade passou por todos, tanto com relação a grande batalha que se aproximava e com o eclipse. O dia começou a escurecer, apesar de ser oito horas da manhã. Assim que o último raio de sol se escondeu, dando um ar de noite ao dia, instantaneamente um borrão cinza se materializou à sua frente. O walk-tock de longa distancia que tinha ficado com Thiago chamou pelo seu nome com o novo tom de voz de Matheus:
- Thiago?
Depois do susto inicial Thiago respondeu:
- Sim?
- Relatório, e dos mais alarmantes.
- O que aconteceu?
- Os Seres apareceram; só que eles lotaram a avenida até o seu final, que é muito longe, creio que assim que vocês mataram um, este vai ser logo substituído.
- Alguma estimativa de números?
- Alguma coisa entre dois milhões a dois milhões e meio. É difícil de saber.
- Muito obrigado – disse sem muita convicção – continue com o plano.
- O.k.
- O.k. – e desligou.
Baltazar se aproximou para começar a negociação. Coisa de praxe vindo dele. Romeu já tinha avisado que o melhor jeito de humilhar e pôr o corpo fora era esse: humilhava por que “mostrava” quem manda e punha o corpo fora pela desculpa “eu tentei negociar, mas ele não aceitou”.
- Típico – resmungou Romeu uns minutos antes – ele gosta de ser mal e deixar bem claro o fingimento de bonzinho, mas siga a carta, não se deixe abalar por nada que ele disser...
- Mas aqui ele só recomenda tomar cuidado em cima do prédio... – e apontou para a carta.
- Você não entendeu? Ele vai fazer chantagem emocional!
Então Thiago se preparara para qualquer chantagem envolvendo Resistência, família e amigos.
Baltazar parou dez metros à frente e falou com calma. Uma calma que alarmava.
- Está em tempo de desistir, assim ninguém irá morrer! – um sorriso desdenhoso se formou.
- Com receio que eu mate os seus servos? – repetiu no mesmo tom.
- Os meus Seres vão trucidar a Resistência. E você vai assistir isso tudo de camarote! Ou será que você acha, por algum acaso, que poderá me vencer sendo que eles – ele apontou para a Resistência – estão sem poder?
- AGORA! – todos da Resistência entenderam. Chegara à hora.

continua...

sábado, 8 de agosto de 2009

REENCONTRO

Mudando de assunto Romeu falou.
- Dá uma olhada nisso.
Ele esticou um jornal eletrônico para o Thiago. Ele o pegou e viu a pagina inicial do jornal.
- Coloca no caderno de astronomia.
Thiago pressionou o botão astronomia. Uma tela se abriu, no meio da pagina tinha um esquema do sistema solar, com a terra, a lua e o sol alinhados, e o titulo: eclipse de maior duração acontecera nesse milênio.

Na semana que vem acontecera um fato raro, um eclipse “demorado”. Nesse tipo de eclipse, que só acontece a cada dois mil e cem anos, a terra e a lua giraram juntos por cinco horas. Isso foi comprovado por estudos do solo, que encontraram uma parte correspondente a 65 a.C. com vestígios desse tempo sem sol.
“Nós teremos um grande privilégio” diz o astrólogo Renato de Assis “nunca que um ser humano que não acha que o sol é um de seus deuses viu esse fato. Em 65 a.C. as pessoas achavam que esse eclipse era mal, que eles tinham que oferecer sacrifícios aos deuses; já que em cinco horas dá pra perceber que tem algo “errado”. Nós agora que somos cientistas, vemos de outro ângulo, isso pode responder a várias perguntas”.

A reportagem continuava, mas a informação que ele precisava estava lá. Um eclipse de cinco horas! Um bom fato para os seres...
Thiago chamou Lívia, Liza, Lucas e Romeu para a sala no ultimo andar.
Ele os acomodou. Enquanto todos se sentavam, ele procurava as estimativas de horário.
- Tenho um plano melhor!
- Que tipo de plano? – perguntou Romeu.
- A tacada final em Baltazar. Eu tinha pensado num plano, que era bom, mas agora tenho um melhor.
- Do que você esta falando? – agora foi a Lívia.
- Estou falando que na semana que vem nós iremos acabar com o Baltazar.
- Como assim? – dessa vez foi Liza
- Semana que vem não vai ter o eclipse? – todos afirmaram – então, esse eclipse vai demorar cinco horas para passar, vai começar lá pelas oito da manhã e vai terminar ao meio-dia. Nesse meio tempo, os Seres poderão andar livremente pela rua.
- Ta, mas como fazer para nós nos encontrarmos?
- Nós vamos mandar um aviso para ele que nós vamos estar lá. Ele deve mandar todos os Seres Malignos existentes para lá, para agente acabar com eles de uma só vez.
- Como? – perguntaram em coro.
- Como vai estar escuro, todos os Seres vão poder andar livremente, e vamos usar isso contra eles. Na hora do ataque, nós, os membros da Resistência, vamos nos transmutar para ficarmos iguais aos seres, porém vamos deixar avisados a todos para ativarem a Visão Diferenciadora de Personalidade, para que nós, os membros da Resistência, não metemos nossos amigos. Isso os confundirá, por que eles não vão saber se o Ser Maligno da frente é um Ser de verdade ou um inimigo. Para piorar a situação nós vamos usar “espadas” de campo-de-força, que vai ser grossa o bastante para ferir os seres, e leve o bastante para todos a usarem, e caso você a deixe cair, pode produzir outra. No escuro ela vai ficar invisível para eles. Mas é claro que se alguém quiser fizer algo diferente, tipo bastão ou arco e flecha ou até armas pode, o importante é enrolar eles.
- Pra que? – Lucas foi mais rápido do que Romeu, todos estavam tentando absorver tudo, era muita coisa.
- Por que, quando terminar o eclipse, a luz... – ele refletiu um pouco – A, eu não contei a parte melhor! – e pulou da cadeira que estava sentado, estava tão ansioso que tremia – eu, um pouco antes do eclipse vou limpar todos os vidros do centro, já que no centro da cidade, envolta da Avenida Capitalismo, não há nada de diferente do que prédio. Todos eles são de vidro, não tem nenhum que tenha algo junto do vidro, exteriormente, assim que o eclipse acabar, a luz vai se refletir nos prédios, se espalhando para todos os cantos, acabando com todos os seres. Enquanto isso, eu e Lívia vamos tentar dar um cabo no Baltazar.

Depois de um tempo, Thiago escreveu todo o plano no computador e o pediu para o Romeu fazer uma copia para cada membro da Resistência. E pediu para que todos se encontrassem no salão principal.
Quando todos estavam lá, Thiago começou.
- Membros da Resistência, semana que vem nós vamos entrar em ação, e será tudo ou nada. Há uma hora eu bolei o plano que vocês tem em mãos, porem o que vocês tem ai é mais detalhado. Eu posso ter bolado o plano, mas depende de vocês a vitória. Durante o tempo que nós temos até o dia do eclipse, vou pedir a vocês que treinem suas habilidades, tanto físicas quanto poderisticas. Eu, com um poder, retirei o mato que tinha lá atrás no terreno e fiz um campo para vocês treinarem o uso das armas que vocês decidiram usar. Para vocês se treinarem, vocês poderão criar Seres Malignos de mentira para treinarem, quem escolher armas de fogo, de campo-de-força, é claro, fará os testes um pouco mais longe dos outros, para não machucar alguém. E a transformações em Seres Malignos também deverá ser treinada. Baltazar irá pagar por tudo!
Os membros gritaram. Thiago sentiu um entusiasmo tomar o seu corpo. O apoio deles era melhor do que qualquer remédio. Ele agora iria fazer Baltazar pagar.
Uma sirene tocou. Todos saíram correndo para o próprio quarto, menos Thiago, Lucas, Lívia, Liza e Romeu.
- O quê que é isso? – perguntou Thiago
- Lembra que nós temos a melhor tecnologia da região? – Thiago afirmou – então, essa sirene quer dizer que pessoas que não fazem parte da Resistência estão perto demais do prédio, perto o suficiente para ver que está habitado.
- Mas e eu e a Lívia? Nós entramos aqui e não teve sirene nenhuma.
- Mas você é o próprio Diogo, que criou esse sistema de segurança, e a Lívia foi a sua convidada, eu vi no sistema de segurança você dizendo: “vem fazer parte da Resistência” – tornou a responder Romeu
- E o...
- Gente! – interrompeu Lívia – depois você conversa sobre tecnologia de ponta, mas agora vamos impedir que invadam aqui, essa sirene ta me enchendo!
Thiago pareceu acordar para vida, tinha se esquecido completamente que estavam tentando invadir o prédio. Para compensar o fato ele saiu correndo na frente de todo mundo, os outros pegaram o pique dele.
Todos menos Thiago e Lívia tinham preparado uma bola de energia em cada uma das mãos, Lívia, por sua vez, emparelhou do lado de Thiago e abriu as suas asas.
Quando estavam todos no saguão principal, Thiago tirou a placa APSE da frente da porta, jogando-a para o lado. Todos saíram e ficaram um do lado do outro, quando deram de cara com por volta de cem pessoas.
Só que essas pessoas eram pessoas comuns, não eram soldados. Na frente delas tinha um homem da idade de Diogo, que Thiago jurava que conhecia. Esse homem deu um passo à frente e começou a falar:
- Nós viemos em paz. – sua voz também era familiar a Thiago – não queremos confusão, nós vimos o que fizeram com os Seres na avenida e queremos nos juntar à vocês e... – ele parou assim que notou o rosto de Thiago – não é possível... – sussurrou
O homem saiu correndo em direção a Thiago, o Romeu tentou impedi-lo porem foi jogado para o lado como se fosse três vezes mais leve do que parecia, Lívia tacou um poder no chão a frente do homem para tentar impedir dele continuar, porem ele pulou por cima e continuou. Assim que estava perto o suficiente deu um abraço bem apertado em Thiago e começou chorar num misto de alegria e mágoa profunda.
- Nem acredito que é você Thiago – falou o homem – nós achamos que você havia morrido! Sua mãe sofreu bastante, eu também sofri, nós éramos tão amigos, olha só pra você, não envelheceu nada desde o dia que sumiu e eu agora sou um adulto...
- Matheus! – Thiago agora o havia reconhecido o seu colega de infância – Romeu acomode todo mundo no salão, eu vou conversar um pouco com ele.
- Mas quem diria – exclamou Matheus – de um colega sumido para líder com uma amiga anja.
- De novo essa baboseira de anja – resmungou Lívia – to vendo que logo, logo vou ter que explicar mais uma vez.
- Vamos lá para cima. – Thiago se apressou em dizer, antes que rolasse um quebra-pau entre Matheus e Lívia.

- E aí? – perguntou Thiago
- Depois que você saiu? Sua mãe ficou muito aflita, mas nunca perdeu as esperanças, ela foi à televisão, nas rádios, jornais, sua mãe ficou conhecida no país inteiro. Aí, o seu corpo foi encontrado, nossa, como ela sof... – Matheus engoliu o comentário – eu mesmo não consegui acreditar, mas o enterro aconteceu, aí ela ficou abalada. Um dia minha mãe foi visitá-la, e, bem, acho que você sabe o que aconteceu.
Matheus podia ter crescido, mas ainda era o garoto que Thiago conhecia.
- Agora a minha versão dos fatos – Thiago repôs os fatos em ordem – eu sumi no dia para vir aqui me juntar a eles, eu queria voltar assim que possível, mas acho que não deu; o Baltazar, aproveitando que eu estava longe, usou um corpo qualquer e o modificou para que parecesse eu, provocando o suicídio da minha mãe...
- Mas logo você vai voltar para ela e vai viver feliz, não é?
Thiago agradeceu a intervenção do colega.
- Vocês querem entrar para a Resistência? – Romeu cortou o assunto
- Queremos – Matheus se virou para ele – vamos fazer o máximo que der para ajudar.
- Então – Thiago já se recompôs – Romeu, você vai ter que reimprimir mais cópias do manual.
- Que manual?
- É que nós da Resistência vamos atacar Baltazar na semana que vem, e vamos ter que seguir uma ordem de ataque, quase uma apresentação.
- Mas é que nós temos um trunfo nas mangas.
- Qual? – Thiago estava realmente interessado
- Um dos caras que veio com agente tem um estoque enorme de Luminosfato.
Thiago fez uma cara de interrogação.
- Luminosfato é uma substância encontrada recentemente, ela agora faz parte da construção de lâmpadas de baixo consumo elétrico. E adicionado a outras substancia combustíveis, como por exemplo, a pólvora, torna a chama branca. Coisa que seria bom...
- Contra os Seres Malignos – completou Thiago – vocês terão um manual diferente. Tenho um plano na minha cabeça, daqui a pouco eu chamo vocês para falar.
Thiago enxotou todo mundo da sala, trancou a porta e sentou na frente do computador.
- P l a n o d o s p r é d i o s, o s... – as idéias fervilhavam tanto na cabeça dele que ele não conseguia para de falar enquanto digitava.
Esse era o melhor plano de ataque que Thiago já fizera na vida, incluindo resgate de brinquedos confiscados até assinaturas para passeios.

Thiago abriu a porta trinta minutos depois, acomodou eles e então começou:
- Só para situar você – ele apontou para Matheus – nós... Você não vai querer que eu fale o plano inteiro, quer?
- Fala minha parte agora, depois eu leio o tal “manual”.
- É o seguinte: preciso que vocês fabriquem mísseis, e coloquem na composição o Luminosfato...
- Mas como que você quer que nós fabriquemos uma quantidade razoável de mísseis com Luminosfato em uma semana?
- Poder-do-universo. Tenho ainda um estoque para as cem pessoas. Aí vocês fabricam os mísseis, e na hora metade usa os mísseis e a outra metade usa armas.
- Então teremos que avisar ao Baltazar que nosso “contingente” aumentou? – Romeu perguntou tão ingenuamente que Thiago teve cuidado para responder.
- Na verdade, não. Porque Baltazar só vai se concentrar na gente. Por que ele acha que as únicas pessoas que tem peito para bater de frente com ele vão lutar. Assim que eu der o sinal e eles aparecerem explodindo tudo, ele vai hesitar, aí o esmagamos. – ele entoou o final da frase batendo a mão uma na outra.
A próxima hora foi de debates, discursos e preparativos. Essa rotina de preparos se estendeu para o dia seguinte, depois para o outro e logo menos faltavam dois dias para o eclipse.

Thiago estava separando as roupas que ele iria usar no dia do eclipse, quando o Matheus entrou no quarto.
- Oi Thiago! Pensei que eu não te acharia.
- Por quê?
- Ah... Por que você parece bem atarefado... – disse meio encabulado.
- Nem parece que você tem quase trinta anos, parece que você ainda tem treze anos.
- É por causa de você... – ele se calou.
Porem Thiago já tinha percebido. Ele devia ter feito uma falta quando “morreu”.
- Tudo bem.
- Como é que eles confiam tanto em você? – quando a resposta não veio ele tentou novamente – é que, tipo, eles confiam em você, sendo que tem gente com cinqüenta anos de idade, e você só treze.
- É que na verdade o meu eu cuidava daqui antes de mim; então eu só “herdei” o cargo. Eles confiavam em mim.
- Mas como você lida com tudo isso? – ele indicou com os braços o prédio – quer dizer, como você consegue liderar todos dessa sua forma? Contaram-me o que você fez. Parece até ficção.
- É por isso! – ele apontou para Matheus – na minha cabeça tudo tem um quê de absurdo, um quê de historia de livro. Ai os meus planos saem meio... Grandiosos. Se eu estivesse no nosso tempo, duvido que fosse sair desse jeito.
- Posso te falar uma coisa, mudando de pato pra ganso?
- Pode!
- É que eu vou te ensinar a história que só vai ser descoberta em 2022!
- Pode começar!
- Não tem os bruxos que eram queimados pela inquisição, na idade media?
- Sim – ele se interessou
- Eles tinham poderes de verdade!
- Como?
- É que a essência é natural. E tinha uma reserva logo abaixo de um lençol freático lá na Espanha. Essa reserva subiu e transformou um lago inteiro em essência. Só que esse lago era bem escondido, então só um grupo de pessoas conhecia ele, e só essas pessoas tomaram dela. Tornando-os bruxos. Ou melhor, “com poderes”. Por isso, adoravam a natureza, pois foi dela que ganharam poderes.
- Mas, e as varinhas?
- Quando o rio virou de água para essência, todas as árvores receberam na sua dose diária em vez de água, essência. E as pessoas achavam que ficava mais bonito agitarem varinhas em vez de usar a mão. E para ficar mais chique, diziam que tinha núcleo mágico.
“Acabou que, quando o grupo de pessoas tomou a essência, encheram o organismo de essência; de tanto passaram de geração a geração os poderes, e as varinhas.”
Thiago nem piscava.
- Mas, chegou uma geração que não queria uma varinha com poderes, ou elas quebravam, as fazendo sumirem do mapa. E conforme as gerações passavam, a concentração de essência sumia dos corpos, fazendo com que ninguém mais tivesse poder.
- Mas e o lago?
- Depois de tantas chuvas a essência acabou se diluindo, sumindo. E como as pessoas não acreditavam em “bruxaria”, as árvores foram derrubadas. Hoje podem existir casas com paredes com poderes; moveis com poderes; e ninguém para usá-los. Mas, teve um cara que achou prudente ter uma reserva.
- Reserva do que?
- O cara pegou uma garrafa e encheu de essência. Para guardar para ocasiões que necessitassem. Acabaram de sua família, os netos ou tataranetos, precisarem. Mas um garoto, de sete anos, achou legal guardar a essência num frasco. Um frasco que um oitavo de mundo quer durante oitocentos anos. E todo o mundo quer há vinte anos. E tem gente que mataria para consegui-lo
- Baltazar... – murmurou Thiago.
- E você, entre oito bilhões de pessoas no mundo, tem. Tome muito cuidado com ela.
- Por quê?
- Por que tem um boato que se ela cair no chão, pode acontecer uma mega-explosão. E eu não quero estar por perto para confirmar o fato.

O dia seguinte passou de grande emoção e ansiedade.
Todos estavam ansiosos para o eclipse, tanto de interesse acadêmico como por ansiedade de salvar o dia.
E Thiago percebia o primeiro, tanto que falou com Romeu.
- É uma pena que nós tenhamos que arrastar todos para isso. Perder o eclipse...
- Para salvar o dia! Alegre-se, é um momento único! Nem as cruzadas superam isso.
Todos já estavam com as habilidades ok. Mas no nervosismo Thiago mandou todos treinarem mais uma vez. Romeu, escondido, passou por cima e cancelou tudo. Depois teve uma conversa com Thiago, o fazendo decidir que para se desculpar dando um banquete na janta. Com tudo que se tem direito para se desculpar. (com as pessoas a mais, somou-se um andar aos outros três para as refeições, o que tornou o clima mais agradável, já que nesse andar as pessoas tiveram que comer em tapetes macios, pufes e almofadas, que junto de televisões transforma tudo em alegria).
E para finalizar o dia, Thiago mandou – com jeito – eles dormirem cedo. Apesar dele mesmo não conseguir dormir depois de meia hora.
Thiago estava sentado numa poltrona vermelha. O resto do lugar era um nada branco.
Thiago girou a poltrona e se deparou com Baltazar sentado numa cadeira.
- Pra que isso? – perguntou
- Para te dizer que você está dando muita dor de cabeça para o meu chefe.
- Pensei que você só obedecia a si mesmo.
- Mas eu tenho que obedecer ao meu criador – disse num tom calmo
- Seu pai?
- Amanhã você entenderá. Boa sorte – disse num tom amável.
- Espera um pouco! Você não é o Baltazar.
- Está na hora de você ir, e, a propósito, não, eu não sou.
Thiago nesse momento acordou. Tinha alguém tentando ajuda-lo. Alguém que queria sua vitória. Mas agora era hora de dormir. Meia-noite. Quem sabe daqui a doze horas o mundo esteja a salvo?