Assim que seus olhos se acostumaram com a falta de claridade, eles puderam ver onde estavam.
O lugar em que chegaram era totalmente inesperado.
Eles estavam em um galpão enorme, de uns quarenta metros de comprimento por dez de largura. O teto estava a quinze metros acima. No galpão havia duas portas grandes o suficiente para entrarem dois caminhões de uma vez só e tinham quatro metros de altura.
O relógio de Thiago os tinha trazido em frente a uma das portas, dali dava para ver pelas janelas – nove metros acima do chão – pedaços de céu azul de uma bela tarde, com algumas nuvens carregadas. A luz lá de fora entrava diagonalmente em direção ao chão, levemente deslocado pela posição do sol, deixando colunas de pó amarelo dentro do galpão. O próprio chão estava pontilhado de varias janelas com o dobro do tamanho original.
E bem no centro do galpão, sob a luz de uma janela, estava Baltazar-jovem.
Em comparação com o adulto, eles eram completamente diferentes. O Baltazar de agora tinha cabelo, seu maxilar era menos largo e não era tão robusto quanto o adulto. E o mais intrigante era que essas duas características atuais do Baltazar eram próprias do Thiago. Ele deve ter nascido igual a mim, e conforme foi crescendo, foi mudando. Concluiu.
Depois de reparar no físico do Baltazar, ele percebeu o que ele estava fazendo.
O garoto estava de braços levantados diagonalmente em relação ao corpo, com as palmas voltadas para frente. Sua cabeça estava pendida para frente, fazendo seus cabelos cobrirem o rosto. Apesar da distancia, Thiago pôde ouvir claramente o que ele estava falando. O Baltazar estava cantando algo que Thiago não compreendia; uma língua enrolada e com cadências alternadas.
Ele subitamente se lembrou de um aviso de Diogo:
- Desde os treze anos e idade Baltazar teve poderes, pois o seu eu do futuro, sem se mostrar, havia deixado para ele um aviso e poderes-do-universo. É claro que o aviso estava assinado como anônimo. Eu sei disso, pois ele já tinha me contado em uma de nossas brigas. Considere-se sortudo Thiago. Eu fui o que mais recolhi informações do circulo.
Thiago obviamente na hora não tinha entendido o que ele queria dizer. Contando com o fato de Diogo ter ficado pálido ao ver o que tinha acabado de falar algo que desencadearia um choque-temporal.
Quando o Lucas demonstrou a intenção de ir à direção do outro garoto, uma coluna de ar, completamente uniforme em relação à largura que era de cinco metros (dois entre Baltazar e a camada de dentro da coluna, três entre a camada de dentro da coluna e a camada de fora), se ergueu em volta dele. A coluna, Thiago sabia, fazia parte de um ritual para duplicar o poder. Rituais como esses consumiam energia (os únicos), por isso Baltazar parou o canto e começou a respirar, visivelmente cansado. A coluna não se desfez.
Lucas deu intenção de se mover, porem Thiago deu um sinal silencioso para que não. Enquanto esperavam para ver o que aconteceria, sulcos enormes apareciam na coluna, para depois sumirem e aparecerem em outro lugar, igual a sulcos de um rio. A transparência da coluna podia-se igualar à água limpa, salvo algumas partes na base, que puxavam a poeira do chão para elevá-las coluna acima e joga-las no teto. Com esse ritmo logo se formou uma fina parede de poeira, que caía do teto para que de novo fossem tragadas e jogadas mais uma vez.
Sem aviso Baltazar ergueu a cabeça, revelando os olhos cheios de maldade a tanto conhecidos. Ele se surpreendeu com os visitantes:
- Me avisaram que você viria – ele apontou para Thiago – mas não que traria um amigo.
Ele ignorou os dois e continuou a olhá-los, mas com os olhos fora de foco. Ansioso do jeito que estava por causa da situação, Thiago levantou o braço direito acima da cabeça – cuja palma brilhava – e o baixou rapidamente, liberando o poder. Uma fina faixa de luz formou-se na mesma forma em que Thiago tinha direcionado o braço. A luz fincou-se no chão e avançou contra Baltazar quase que instantaneamente, deixando um rastro de destruição no caminho. Mas ao tocar a coluna, não provocou nada além de um sulco, que rapidamente se desfez.
Uma risada de desdém formou-se quando Baltazar ergueu a mão brilhante, enquanto gritava:
- Hemorragia!
Formou-se na coluna uma janela redonda de um metro de diâmetro, deixando a luz vermelho-sangue passar, indo direto ao Thiago. Fechando-se novamente após o uso, fazendo que a coluna ficasse tão imaculada quanto antes.
Sua única reação foi fechar os olhos, esperando sentir o calor no peito antes da hemorragia interna.
Porem aconteceu algo diferente. Ele sentiu, ao invés do ventinho produzido pelo poder, pesados 76 kg se chocarem contra ele, prensando-o contra a porta (dois metros atrás). Quando abriu os olhos para ver o que aconteceu, ficou chocado.
Deitado em seu colo estava Lucas, tremendo violentamente. Ele rasgava a camisa com dificuldade para expor sua barriga e seu tórax avermelhado, como se tivesse todo o sangue ido em direção àquele ponto. Thiago puxou a barra da calça dele até os joelhos, e viu que a panturrilha dele estava vermelha igual, assim como os braços e a cabeça.
- Por quê? – gritou. Uma lágrima caiu sem querer quando ele imaginou a dor do amigo.
- N-não s-sou e-eu qu-que t-tem q-ue m-matá-lo, e-e s-sim v-você!
Thiago ergueu o braço para cuidar dele. Assim que a luz cessou, a cor branca de Lucas havia voltado, para que então pontos vermelhos surgirem espalhados, e cresceram, fazendo a pele novamente ter a cor vermelha, tentou novamente, e, assim que a luz cessou, ele entrou em pânico: o corpo dele não tinha se curado. Depois de três tentativas sem sucesso Baltazar se pronunciou.
- Não tem como curá-lo. Eu fiz o poder especialmente para isso.
O rosto de Thiago tornou-se vermelho devido a tanta raiva. E a liberou em forma de poder.
A intensidade foi tanta que a bola formou-se com trinta centímetros, e enquanto ela voava em direção ao Baltazar, iluminou o galpão inteiro. Apesar da força do poder, a coluna manteve-se intacta.
- Hora do show – falou Baltazar – Duplicata Maximum.
A ventania aumentou, fazendo uma corrente de ar deslocar-se da coluna e expandir-se dentro do galpão. Tufos de cabelo do Baltazar desprendiam-se do couro cabeludo, deixando-o parcialmente careca.
Uma ondulação originou-se na base da coluna de ar, para então percorrer toda a extensão dela e bater no teto, quebrando-o o suficiente para passar. Pela janela Thiago pôde ver que a coluna se estendia para um quilometro em todas as direções, e quando chegou nesse limite, subiu na forma da coluna até alguns metros abaixo das nuvens, que foram puxadas pela corrente de ar e a tocou, formando um furacão. O furacão de um quilômetro.
Uma raiva crescente dominou Thiago. Por causa de Baltazar sua vida tinha saído dos eixos. Por sua causa sua mãe morrera. Por sua causa Lisa e os cinco garotos morreram. Por sua causa Lucas estava tendo uma hemorragia interna. E por sua causa Thiago teve que abandonar a casa para sair em luta.
Thiago tentou por duas vezes atingir Baltazar. Sem sucesso. A barreira de ar era impenetrável.
Uma outra ondulação na coluna aumentou a velocidade ao ponto da blusa de moletom de Thiago se debater alguns centímetros longe do corpo. A poeira do galpão formava ondas transparentes devido à força do vento. Pequenas faíscas de energia salpicavam a mão de Baltazar.
Um raio escapou dos dedos de Baltazar-jovem e chocou-se no chão a frente de Thiago, elevando uma densa nuvem de concreto desintegrado, parecendo um dedo. Rapidamente a poeira se dissolveu e continuou voando.
- Se você não tivesse vindo aqui para me matar – gritou Baltazar – eu até te ensinaria a fazer o Ritual Duplicante! E sensação de poder é maravilhosa!
- Que morra com ela! – gritou Thiago, tentando pensar em como poderia matá-lo.
- Idem! – então raios de energia voavam de sua mão, espatifando janelas e desintegrando o concreto.
A essa altura as nuvens já tinham entrado no galpão, apesar de avançarem lentamente. O chão em volta de Thiago havia sido totalmente esburacado, parecendo uma estrada para o interior, estrago provocado pelos raios que, para o desgosto de Baltazar, não o atingiam.
- Não era para você ter quatorze? – a curiosidade em sua voz era esquisita em comparação com a situação, mesmo assim tinha um tom de desdém em sua voz.
- Pra que a duvida? – perguntou Thiago, verdadeiramente intrigado.
- Por que eu atingi a sua idade, e agora eu estou com quatorze.
- Eu estava no futuro, e como no futuro eu não posso fazer aniversário, já que não é meu tempo natal... Eu estagnei no treze. – gritou em resposta, uma vez que os raios abafavam a sua voz.
Um desses raios atingiu Lucas, rachando a pele no antebraço. Com a pele ferida, o sangue brotava do pequeno corte como se fosse uma nascente de rio.
O pânico inicial deu lugar ao ódio profundo. Até mesmo o enjôo causado pelo sangue havia sumido, devido à raiva contra Baltazar. E um plano de ultima hora surgiu em sua mente, sem pensar se daria certo ou não, ele o pôs em pratica.
Inclinando o braço direito para baixo e para trás, Thiago evocou uma espada de energia. Enquanto ela surgia da mão dele até a ponta, ele ergueu o braço esquerdo e evocou um Escudo de Energia Modelável. Ele o fez ir até a coluna de ar e penetra-la em forma de agulha.
Isso provou ser extremamente fácil. Assim que tinha passado por toda extensão, mantendo-se no meio, ele a expandiu na largura, refazendo a janela que tinha estado lá.
- Pela cidade! Pela Resistência! Pelos meus pais! Por nós! – foi o único aviso.
Segurando a espada acima da cabeça com as duas mãos, ele inclinou-se para frente, um pouco antes de cair no chão, ele voou. Voou direto ao coração de Baltazar.
Seu vôo foi tão rápido que poderia ter cruzado a distancia que os separava em um segundo, mas Baltazar havia lançado um poder Extensivo, jogando o braço esquerdo da direita para o seu respectivo lado, fazendo que cada metro real percorrido por Thiago parecesse cem.
Nesse tempo extra garantido, Baltazar começou a entoar um cântico para que o processo duplicativo de poder andasse mais rápido.
Thiago estava a dois metros reais da coluna de ar, sua blusa de moletom chicoteava os lados do corpo. Ele esticou mais os braços. Baltazar hesitou. A famosa Curiosidade Adolescente. Era tudo que ele precisava. Thiago guinou para frente. Em direção ao peito de Baltazar.
Continua...
sábado, 19 de setembro de 2009
A BATALHA DO CAPITALISMO - VII
Continuação...
A cara de Baltazar havia se transformado num enorme ponto de interrogação, enquanto digeria a idéia de que fora enrolado até o final do eclipse. E ele, na raiva, apontou a espada de energia para o peito de Thiago, que com a grossura e largura da espada seria dividido em quatro com um só golpe no coração.
Lívia se contorceu e bateu com toda a força possível no pulso de Baltazar com o braço esquerdo. A espada de energia escapou de suas mãos e voou para longe.
Thiago reagiu imediatamente, dando vida a um plano de ultima hora. Ele estendeu o braço direito bem acima das costas de Lívia e emitiu uma combustão violenta contra Baltazar. Por causa da pressa, esqueceu de especificar mentalmente que ele e a Lívia não eram para ser afetados pela combustão.
Assim que a massa de ar se deslocou do seu punho cerrado, ela bateu em Baltazar, e o jogou direto para fora do prédio. Ela também o atingiu, jogando-o apenas a alguns metros para trás – apesar dele não ter especificado que era para ele não ser atingido, ele continuava a ser quem conjurou, diminuindo as conseqüências – e também atingiu Lívia nas costas, prensando-a no chão, que, por causa da briga, estava fraco e com a combustão desmoronou. Thiago sentiu-se ligeiramente em gravidade-zero, para logo depois se chocar com o chão cheio de escombros. Um pedaço de concreto continuou inteiro – rachado, mas inteiro – mas declinou-se, deixando uma rampa em direção ao beiral do prédio, no lado da avenida.
Romeu olhava preocupado para os corpos, que com poderes dos sobreviventes haviam sido transformados de volta ao normal e enfileirados lado a lado na calçada, que estava cheia de pó que caia do céu, como neve. Haviam morrido duzentas pessoas, metade da Resistência estava inconsciente no chão, e entre os sobreviventes ele não viu o rosto de Liza.
Mas sua preocupação foi desviada por um impacto gigantesco às suas costas, fazendo o chão vibrar discretamente sob os seus pés. Ele se virou para ver o que aconteceu e se deparou com uma enorme cratera que se elevava do chão. O que tinha caído formara um enorme “berço” de concreto. Ele correu até a cratera para ver o que tinha feito aquilo, mas sem sucesso. Para poder ver o que estava ali ele teve que escalar montes de concreto e terra para ver. Assim que conseguiu olhar para baixo ele perdeu o fôlego.
No meio da cratera estava um corpo enorme, de cinco metros de altura, todo vermelho e com asas (faltavam-lhe alguns pedaços) e um cotoco de um rabo fino, de uns dois centímetros de espessura.
O bicho olhou para ele e apontou o dedo indicador. Seu corpo começou a perder volume e tamanho, suas asas entraram de volta no corpo enquanto o cotoco sumia, uma roupa ia aparecendo gradualmente ao mesmo tempo em que sua pele adquiria tom branco. Assim que estava com tamanho de humano ele sussurrou:
- M-me ajude...
Romeu continuou calado. Baltazar não merecia ser socorrido.
- P-por f-favor... M-me ajude...
Romeu mexeu a cabeça negativamente, embora sua palma formigasse para que ajudasse.
- E-eu n-não v-ou so-sobreviver...
- Peça para quem você matou. – respondeu firme.
- V-você v-vai ne-negar a-a-ajuda pa-ra alguém ne-cessitado?
- Só estou fazendo algo que você faz há anos.
- E-então mo-rra! – seu grito não saiu mais que um sussurro.
A energia mal se formou em sua mão e tornou a desaparecer, deixando a mão cair bobamente no asfalto, sem vida.
Romeu mal acreditou em que via. Baltazar estava morto! Ele se virou alegremente para a Resistência e gritou:
- Está morto!
O grito que veio lá debaixo foi como musica aos seus ouvidos. Baltazar morrera finalmente. Thiago se moveu lentamente para uma massa de um metro de altura entre os escombros, e a cutucou:
- Lívia? Ainda está viva?
Ela se levantou, sua cabeça saiu do limite do teto, agora inexistente.
- Baltazar iria precisar de mais do que isso para me matar.
Seu corpo re-transmutou de volta à forma humana. Mas suas asas continuaram para fora.
- Vou descer lá, ver o estrago. Você quer vir?
Thiago não tinha certeza se queria ver quem tinha morrido, mas acenou positivamente.
- Então venha.
Ela o guiou rampa acima até o beiral.
- Me abrace na cintura bem forte.
- Que? – perguntou tão espontaneamente que saiu como se fosse um grito.
- Me abrace na cintura. Ou você quer ir de elevador até lá embaixo?
- Mas e o relógio e poderes? – para Lívia sua duvida estava na cara o que queria evitar. Por isso ela começou a rir, deixando-o vermelho.
- Não tem problema, pode me abraçar. Ou quer perder a chance de voar comigo?
Suas bochechas queimaram como fogo enquanto abraçava a cintura dela, deixando um vão entre eles.
- Desse jeito você vai cair. – aconselhou ela.
Suas bochechas queimavam ao equivalente a febre enquanto se encostava a ela. Suas asas elevaram-se e ela flexionou os joelhos. Deu um impulso, subindo dois metros e oitenta para cima.
Num lapso de loucura ele olhou para o chão. Quase vomitou quando viu a paisagem dezenas de metros para baixo. Numa tentativa de se acalmar, ele olhou para o rosto de Lívia. Ela estava sorrindo enquanto inclinava o corpo para o chão, recolhendo as asas juntou ao corpo. Logo eles estavam em queda-livre, abraçados.
Nos últimos dez metros antes de chegarem ao chão, Lívia abriu as asas, diminuindo a velocidade. Ela planou um pouco para pousar suavemente.
Thiago largou o abraço correu para vomitar na sarjeta (uma boa desculpa para poder se recompor e perder o rubor das bochechas). Assim que terminou, limpou a boca com as costas da mão:
- Você foi mais forte que eu. No meu primeiro vôo eu vomitei no ar.
- Por que agente vomita? – ele percebeu que sua pergunta podia ser mal interpretada – quer dizer... No ar?
- É que não estamos acostumados a voar, senão teríamos nascido com asas.
Thiago se lembrou de algo e rapidamente a pôs em pergunta.
- Mas quando eu tomei o poder-do-universo, eu voei para experimentar os meus novos poderes, e não vomitei.
- Por que você não estava preocupado com a altura, mas sim com o vôo em si. Estava mais excitado do que outra coisa, fazendo-o esquecer do medo.
- Quase um placebo.
- Quase um placebo – afirmou.
Eles caminharam para as pessoas mortas, e Thiago logo reconheceu os cinco garotos que tinha conversado logo de manhã. Também viu várias outras pessoas, dentre elas quem mais lhe trouxe pesar foi a Liza. Mas ficou contente internamente em não ver o corpo de Lucas.
Se essa briga idiota não tivesse ter que acontecer... Estariam todos vivos. Pensou amargamente. Estariam todos felizes. Ele repentinamente se lembrou do que Baltazar lhe contara: “E o Diogo veio me fazer uma visitinha; e, apesar da tentativa, não conseguiu me matar, isso ajudou a alimentar a minha ira contra ele.”.
Então significava que Diogo tentara matar Baltazar. Mas por quê? A reposta veio tão imediata que um sorriso bobo estampou-se em seu rosto. Se Baltazar morresse jovem, essa briga nunca ocorreria, eles e minha mãe continuariam vivos, e eu então poderia voltar para ficar com ela.
Ele localizou Lucas entre um bando de garotos sentados na calçada que divisava as pistas da avenida.
- Lucas! Vem aqui, por favor. – chamou-o a três metros longe dos garotos.
- Sim.
Thiago lhe contou sobre a sua dedução.
-... Seria ótimo que isso acontecesse, mas você quer vir comigo?
- Vamos! Mas como vai fazer para ir até ele?
- Vou me concentrar numa imagem dele e vou fazer uma “regressão” com poder, para ter o rosto dele com quatorze anos, depois é só colocar no relógio o ano de dois mil e dez.
- Então vai.
Thiago se concentrou numa imagem mental de Baltazar, então ele a “regressou” para quatorze anos, e quanto à imagem estava pronta, ele apertou o relógio para o ano de dois mil e dez.
Um medo rápido se apossou dele quando pensou na possibilidade de Baltazar-jovem estar usando o banheiro no momento. Mas esse medo sumiu assim que a fumaça cessou.
Chegou o fim do capitulo (Aleluia!) mas ainda temos dois capitulos pela frente e um Epilogo (se não sabe o que é preocure no dicionário, burro) antes que possamos ir até o livro II - Terrorismo. Aproveitem esse desfecho, pois promete tantas emoções quanto esse que acabou de acabar.
A cara de Baltazar havia se transformado num enorme ponto de interrogação, enquanto digeria a idéia de que fora enrolado até o final do eclipse. E ele, na raiva, apontou a espada de energia para o peito de Thiago, que com a grossura e largura da espada seria dividido em quatro com um só golpe no coração.
Lívia se contorceu e bateu com toda a força possível no pulso de Baltazar com o braço esquerdo. A espada de energia escapou de suas mãos e voou para longe.
Thiago reagiu imediatamente, dando vida a um plano de ultima hora. Ele estendeu o braço direito bem acima das costas de Lívia e emitiu uma combustão violenta contra Baltazar. Por causa da pressa, esqueceu de especificar mentalmente que ele e a Lívia não eram para ser afetados pela combustão.
Assim que a massa de ar se deslocou do seu punho cerrado, ela bateu em Baltazar, e o jogou direto para fora do prédio. Ela também o atingiu, jogando-o apenas a alguns metros para trás – apesar dele não ter especificado que era para ele não ser atingido, ele continuava a ser quem conjurou, diminuindo as conseqüências – e também atingiu Lívia nas costas, prensando-a no chão, que, por causa da briga, estava fraco e com a combustão desmoronou. Thiago sentiu-se ligeiramente em gravidade-zero, para logo depois se chocar com o chão cheio de escombros. Um pedaço de concreto continuou inteiro – rachado, mas inteiro – mas declinou-se, deixando uma rampa em direção ao beiral do prédio, no lado da avenida.
Romeu olhava preocupado para os corpos, que com poderes dos sobreviventes haviam sido transformados de volta ao normal e enfileirados lado a lado na calçada, que estava cheia de pó que caia do céu, como neve. Haviam morrido duzentas pessoas, metade da Resistência estava inconsciente no chão, e entre os sobreviventes ele não viu o rosto de Liza.
Mas sua preocupação foi desviada por um impacto gigantesco às suas costas, fazendo o chão vibrar discretamente sob os seus pés. Ele se virou para ver o que aconteceu e se deparou com uma enorme cratera que se elevava do chão. O que tinha caído formara um enorme “berço” de concreto. Ele correu até a cratera para ver o que tinha feito aquilo, mas sem sucesso. Para poder ver o que estava ali ele teve que escalar montes de concreto e terra para ver. Assim que conseguiu olhar para baixo ele perdeu o fôlego.
No meio da cratera estava um corpo enorme, de cinco metros de altura, todo vermelho e com asas (faltavam-lhe alguns pedaços) e um cotoco de um rabo fino, de uns dois centímetros de espessura.
O bicho olhou para ele e apontou o dedo indicador. Seu corpo começou a perder volume e tamanho, suas asas entraram de volta no corpo enquanto o cotoco sumia, uma roupa ia aparecendo gradualmente ao mesmo tempo em que sua pele adquiria tom branco. Assim que estava com tamanho de humano ele sussurrou:
- M-me ajude...
Romeu continuou calado. Baltazar não merecia ser socorrido.
- P-por f-favor... M-me ajude...
Romeu mexeu a cabeça negativamente, embora sua palma formigasse para que ajudasse.
- E-eu n-não v-ou so-sobreviver...
- Peça para quem você matou. – respondeu firme.
- V-você v-vai ne-negar a-a-ajuda pa-ra alguém ne-cessitado?
- Só estou fazendo algo que você faz há anos.
- E-então mo-rra! – seu grito não saiu mais que um sussurro.
A energia mal se formou em sua mão e tornou a desaparecer, deixando a mão cair bobamente no asfalto, sem vida.
Romeu mal acreditou em que via. Baltazar estava morto! Ele se virou alegremente para a Resistência e gritou:
- Está morto!
O grito que veio lá debaixo foi como musica aos seus ouvidos. Baltazar morrera finalmente. Thiago se moveu lentamente para uma massa de um metro de altura entre os escombros, e a cutucou:
- Lívia? Ainda está viva?
Ela se levantou, sua cabeça saiu do limite do teto, agora inexistente.
- Baltazar iria precisar de mais do que isso para me matar.
Seu corpo re-transmutou de volta à forma humana. Mas suas asas continuaram para fora.
- Vou descer lá, ver o estrago. Você quer vir?
Thiago não tinha certeza se queria ver quem tinha morrido, mas acenou positivamente.
- Então venha.
Ela o guiou rampa acima até o beiral.
- Me abrace na cintura bem forte.
- Que? – perguntou tão espontaneamente que saiu como se fosse um grito.
- Me abrace na cintura. Ou você quer ir de elevador até lá embaixo?
- Mas e o relógio e poderes? – para Lívia sua duvida estava na cara o que queria evitar. Por isso ela começou a rir, deixando-o vermelho.
- Não tem problema, pode me abraçar. Ou quer perder a chance de voar comigo?
Suas bochechas queimaram como fogo enquanto abraçava a cintura dela, deixando um vão entre eles.
- Desse jeito você vai cair. – aconselhou ela.
Suas bochechas queimavam ao equivalente a febre enquanto se encostava a ela. Suas asas elevaram-se e ela flexionou os joelhos. Deu um impulso, subindo dois metros e oitenta para cima.
Num lapso de loucura ele olhou para o chão. Quase vomitou quando viu a paisagem dezenas de metros para baixo. Numa tentativa de se acalmar, ele olhou para o rosto de Lívia. Ela estava sorrindo enquanto inclinava o corpo para o chão, recolhendo as asas juntou ao corpo. Logo eles estavam em queda-livre, abraçados.
Nos últimos dez metros antes de chegarem ao chão, Lívia abriu as asas, diminuindo a velocidade. Ela planou um pouco para pousar suavemente.
Thiago largou o abraço correu para vomitar na sarjeta (uma boa desculpa para poder se recompor e perder o rubor das bochechas). Assim que terminou, limpou a boca com as costas da mão:
- Você foi mais forte que eu. No meu primeiro vôo eu vomitei no ar.
- Por que agente vomita? – ele percebeu que sua pergunta podia ser mal interpretada – quer dizer... No ar?
- É que não estamos acostumados a voar, senão teríamos nascido com asas.
Thiago se lembrou de algo e rapidamente a pôs em pergunta.
- Mas quando eu tomei o poder-do-universo, eu voei para experimentar os meus novos poderes, e não vomitei.
- Por que você não estava preocupado com a altura, mas sim com o vôo em si. Estava mais excitado do que outra coisa, fazendo-o esquecer do medo.
- Quase um placebo.
- Quase um placebo – afirmou.
Eles caminharam para as pessoas mortas, e Thiago logo reconheceu os cinco garotos que tinha conversado logo de manhã. Também viu várias outras pessoas, dentre elas quem mais lhe trouxe pesar foi a Liza. Mas ficou contente internamente em não ver o corpo de Lucas.
Se essa briga idiota não tivesse ter que acontecer... Estariam todos vivos. Pensou amargamente. Estariam todos felizes. Ele repentinamente se lembrou do que Baltazar lhe contara: “E o Diogo veio me fazer uma visitinha; e, apesar da tentativa, não conseguiu me matar, isso ajudou a alimentar a minha ira contra ele.”.
Então significava que Diogo tentara matar Baltazar. Mas por quê? A reposta veio tão imediata que um sorriso bobo estampou-se em seu rosto. Se Baltazar morresse jovem, essa briga nunca ocorreria, eles e minha mãe continuariam vivos, e eu então poderia voltar para ficar com ela.
Ele localizou Lucas entre um bando de garotos sentados na calçada que divisava as pistas da avenida.
- Lucas! Vem aqui, por favor. – chamou-o a três metros longe dos garotos.
- Sim.
Thiago lhe contou sobre a sua dedução.
-... Seria ótimo que isso acontecesse, mas você quer vir comigo?
- Vamos! Mas como vai fazer para ir até ele?
- Vou me concentrar numa imagem dele e vou fazer uma “regressão” com poder, para ter o rosto dele com quatorze anos, depois é só colocar no relógio o ano de dois mil e dez.
- Então vai.
Thiago se concentrou numa imagem mental de Baltazar, então ele a “regressou” para quatorze anos, e quanto à imagem estava pronta, ele apertou o relógio para o ano de dois mil e dez.
Um medo rápido se apossou dele quando pensou na possibilidade de Baltazar-jovem estar usando o banheiro no momento. Mas esse medo sumiu assim que a fumaça cessou.
Chegou o fim do capitulo (Aleluia!) mas ainda temos dois capitulos pela frente e um Epilogo (se não sabe o que é preocure no dicionário, burro) antes que possamos ir até o livro II - Terrorismo. Aproveitem esse desfecho, pois promete tantas emoções quanto esse que acabou de acabar.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
A BATALHA DO CAPITALISMO - VI
Menos duas horas.
Menos uma hora e meia.
Menos uma hora.
Menos meia hora.
Lívia e Baltazar estavam visivelmente cansados, mas mesmo assim nenhum dos dois estava disposto a perder. Os Seres lá embaixo não se cansavam, pois eram substitutos dos mortos, a Resistência estava cansada e as munições estavam no fim.
Menos quinze minutos.
O braço de Lívia tremia enquanto aparava os golpes, resistindo até o ultimo.
Menos dez minutos.
Um dos mísseis da Resistência foi desviado com um poder, atravessou toda a avenida e se chocou com a barreira, produzindo um barulho descomunal que estilhaçou todas as janelas dos prédios vizinhos. Pelo menos estavam no lugar, e não caíram. A combustão do fogo fez o prédio tremer levemente. Intrigado, Thiago tentou ver o que pôde ter feito uma explosão tão descomunal, e viu que os Seres tinham colocado, às escondidas, combustível nas partes alcançáveis da barreira, que rachou perigosamente.
Um segundo míssil foi desviado, e antes que Thiago pudesse fazer algo, o míssil atingiu a barreira, com uma explosão bem menor.
A barreira desmoronou e os Seres Malignos, antes confinados, entraram no combate no exato instante em que as munições acabaram.
Menos cinco minutos.
A Resistência, desesperada, retrucou o ataque com poderes visíveis naquela noite. Pois o importante não era mais ficar invisível, mas sim sobreviver.
Menos um minuto.
Lívia agora se mexia com dificuldade, estava extremamente cansada, e Baltazar parecia ter tirado forças de algum lugar. Thiago lentamente e discretamente se postou para ficar à frente de Baltazar. Era agora ou nunca.
Por causa do cansaço e da lerdeza de Lívia, Baltazar logo tomou o comando da briga, e numa seqüência brilhante de espada, desarmou-a. Com uma batida da parte plana da espada de energia no lado de trás dos joelhos, ele fez com que Lívia caísse de mão e joelhos no chão. Ele se curvou para trás, rindo, segurando a espada de energia, pronto para decapitá-la.
- Hei! Baltazar! – gritou, desviando a atenção dele.
Baltazar olhou furioso para Thiago, que esticou o braço para o céu, apontando para algo. Ele seguiu como o olhar e seus olhos pararam direto no eclipse.
O relógio no pulso de Thiago apitou na hora marcada: meio-dia. A lua se deslocou mais rápido que a Terra, fazendo-a sair da frente do sol.
Agora que só lhe restava aguardar, Matheus estava jogando um joguinho de um dos computadores da empresa. Não podendo ir à batalha, para não se pôr em risco, ele estava entediado. O seu relógio disparou, dera meio-dia.
Ele correu para a janela para olhar o céu. A lua saiu lentamente da frente do sol, deixando cair uma estreita faixa de luz desceu céu abaixo em direção à avenida. Os Seres explodiram instantaneamente ao toque da luz. A faixa se alargou e cresceu a cada segundo, matando mais Seres do que qualquer coisa naquele dia.
Os Seres correram rapidamente em direção às vielas escuras entre os prédios, para se proteger. Sem sucesso. Quando os raios solares entraram em contato com os vidros dos prédios, os acenderam como se fossem faróis. E como numa reação em cadeia, um prédio foi ascendendo o outro, assim sucessivamente. A luz ofuscou Matheus assim como iluminou quaisquer canto da cidade, aniquilando os Seres.
–
- Querido, eu já falei! Estamos a sete quilômetros da Avenida Capitalismo! – explicou Clara.
Ela e o marido estavam de passeio na cidade, e ela insistira para ver a maior avenida do país. E ela estava como “navegadora”, com o mapa na mão enquanto o marido dirigia.
- Nós temos que pegar a próxima rua à direita, senão não chegamos lá hoje! Você devia ter...
Ela se calou assim que uma luz entrou pela sua janela. Só dera tempo de ver uma luz engolindo um pedaço da cidade – o mais cheio de prédios – e se estendendo para todos os lados.
–
Antes que Matheus ficasse cego, ele re-sujou os prédios com um aceno de mão. A luz diminuiu de intensidade até ficar igual à luz do meio-dia. Estava terminado. Pelo menos os Seres haviam morrido.
Menos uma hora e meia.
Menos uma hora.
Menos meia hora.
Lívia e Baltazar estavam visivelmente cansados, mas mesmo assim nenhum dos dois estava disposto a perder. Os Seres lá embaixo não se cansavam, pois eram substitutos dos mortos, a Resistência estava cansada e as munições estavam no fim.
Menos quinze minutos.
O braço de Lívia tremia enquanto aparava os golpes, resistindo até o ultimo.
Menos dez minutos.
Um dos mísseis da Resistência foi desviado com um poder, atravessou toda a avenida e se chocou com a barreira, produzindo um barulho descomunal que estilhaçou todas as janelas dos prédios vizinhos. Pelo menos estavam no lugar, e não caíram. A combustão do fogo fez o prédio tremer levemente. Intrigado, Thiago tentou ver o que pôde ter feito uma explosão tão descomunal, e viu que os Seres tinham colocado, às escondidas, combustível nas partes alcançáveis da barreira, que rachou perigosamente.
Um segundo míssil foi desviado, e antes que Thiago pudesse fazer algo, o míssil atingiu a barreira, com uma explosão bem menor.
A barreira desmoronou e os Seres Malignos, antes confinados, entraram no combate no exato instante em que as munições acabaram.
Menos cinco minutos.
A Resistência, desesperada, retrucou o ataque com poderes visíveis naquela noite. Pois o importante não era mais ficar invisível, mas sim sobreviver.
Menos um minuto.
Lívia agora se mexia com dificuldade, estava extremamente cansada, e Baltazar parecia ter tirado forças de algum lugar. Thiago lentamente e discretamente se postou para ficar à frente de Baltazar. Era agora ou nunca.
Por causa do cansaço e da lerdeza de Lívia, Baltazar logo tomou o comando da briga, e numa seqüência brilhante de espada, desarmou-a. Com uma batida da parte plana da espada de energia no lado de trás dos joelhos, ele fez com que Lívia caísse de mão e joelhos no chão. Ele se curvou para trás, rindo, segurando a espada de energia, pronto para decapitá-la.
- Hei! Baltazar! – gritou, desviando a atenção dele.
Baltazar olhou furioso para Thiago, que esticou o braço para o céu, apontando para algo. Ele seguiu como o olhar e seus olhos pararam direto no eclipse.
O relógio no pulso de Thiago apitou na hora marcada: meio-dia. A lua se deslocou mais rápido que a Terra, fazendo-a sair da frente do sol.
Agora que só lhe restava aguardar, Matheus estava jogando um joguinho de um dos computadores da empresa. Não podendo ir à batalha, para não se pôr em risco, ele estava entediado. O seu relógio disparou, dera meio-dia.
Ele correu para a janela para olhar o céu. A lua saiu lentamente da frente do sol, deixando cair uma estreita faixa de luz desceu céu abaixo em direção à avenida. Os Seres explodiram instantaneamente ao toque da luz. A faixa se alargou e cresceu a cada segundo, matando mais Seres do que qualquer coisa naquele dia.
Os Seres correram rapidamente em direção às vielas escuras entre os prédios, para se proteger. Sem sucesso. Quando os raios solares entraram em contato com os vidros dos prédios, os acenderam como se fossem faróis. E como numa reação em cadeia, um prédio foi ascendendo o outro, assim sucessivamente. A luz ofuscou Matheus assim como iluminou quaisquer canto da cidade, aniquilando os Seres.
–
- Querido, eu já falei! Estamos a sete quilômetros da Avenida Capitalismo! – explicou Clara.
Ela e o marido estavam de passeio na cidade, e ela insistira para ver a maior avenida do país. E ela estava como “navegadora”, com o mapa na mão enquanto o marido dirigia.
- Nós temos que pegar a próxima rua à direita, senão não chegamos lá hoje! Você devia ter...
Ela se calou assim que uma luz entrou pela sua janela. Só dera tempo de ver uma luz engolindo um pedaço da cidade – o mais cheio de prédios – e se estendendo para todos os lados.
–
Antes que Matheus ficasse cego, ele re-sujou os prédios com um aceno de mão. A luz diminuiu de intensidade até ficar igual à luz do meio-dia. Estava terminado. Pelo menos os Seres haviam morrido.
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