Assim que seus olhos se acostumaram com a falta de claridade, eles puderam ver onde estavam.
O lugar em que chegaram era totalmente inesperado.
Eles estavam em um galpão enorme, de uns quarenta metros de comprimento por dez de largura. O teto estava a quinze metros acima. No galpão havia duas portas grandes o suficiente para entrarem dois caminhões de uma vez só e tinham quatro metros de altura.
O relógio de Thiago os tinha trazido em frente a uma das portas, dali dava para ver pelas janelas – nove metros acima do chão – pedaços de céu azul de uma bela tarde, com algumas nuvens carregadas. A luz lá de fora entrava diagonalmente em direção ao chão, levemente deslocado pela posição do sol, deixando colunas de pó amarelo dentro do galpão. O próprio chão estava pontilhado de varias janelas com o dobro do tamanho original.
E bem no centro do galpão, sob a luz de uma janela, estava Baltazar-jovem.
Em comparação com o adulto, eles eram completamente diferentes. O Baltazar de agora tinha cabelo, seu maxilar era menos largo e não era tão robusto quanto o adulto. E o mais intrigante era que essas duas características atuais do Baltazar eram próprias do Thiago. Ele deve ter nascido igual a mim, e conforme foi crescendo, foi mudando. Concluiu.
Depois de reparar no físico do Baltazar, ele percebeu o que ele estava fazendo.
O garoto estava de braços levantados diagonalmente em relação ao corpo, com as palmas voltadas para frente. Sua cabeça estava pendida para frente, fazendo seus cabelos cobrirem o rosto. Apesar da distancia, Thiago pôde ouvir claramente o que ele estava falando. O Baltazar estava cantando algo que Thiago não compreendia; uma língua enrolada e com cadências alternadas.
Ele subitamente se lembrou de um aviso de Diogo:
- Desde os treze anos e idade Baltazar teve poderes, pois o seu eu do futuro, sem se mostrar, havia deixado para ele um aviso e poderes-do-universo. É claro que o aviso estava assinado como anônimo. Eu sei disso, pois ele já tinha me contado em uma de nossas brigas. Considere-se sortudo Thiago. Eu fui o que mais recolhi informações do circulo.
Thiago obviamente na hora não tinha entendido o que ele queria dizer. Contando com o fato de Diogo ter ficado pálido ao ver o que tinha acabado de falar algo que desencadearia um choque-temporal.
Quando o Lucas demonstrou a intenção de ir à direção do outro garoto, uma coluna de ar, completamente uniforme em relação à largura que era de cinco metros (dois entre Baltazar e a camada de dentro da coluna, três entre a camada de dentro da coluna e a camada de fora), se ergueu em volta dele. A coluna, Thiago sabia, fazia parte de um ritual para duplicar o poder. Rituais como esses consumiam energia (os únicos), por isso Baltazar parou o canto e começou a respirar, visivelmente cansado. A coluna não se desfez.
Lucas deu intenção de se mover, porem Thiago deu um sinal silencioso para que não. Enquanto esperavam para ver o que aconteceria, sulcos enormes apareciam na coluna, para depois sumirem e aparecerem em outro lugar, igual a sulcos de um rio. A transparência da coluna podia-se igualar à água limpa, salvo algumas partes na base, que puxavam a poeira do chão para elevá-las coluna acima e joga-las no teto. Com esse ritmo logo se formou uma fina parede de poeira, que caía do teto para que de novo fossem tragadas e jogadas mais uma vez.
Sem aviso Baltazar ergueu a cabeça, revelando os olhos cheios de maldade a tanto conhecidos. Ele se surpreendeu com os visitantes:
- Me avisaram que você viria – ele apontou para Thiago – mas não que traria um amigo.
Ele ignorou os dois e continuou a olhá-los, mas com os olhos fora de foco. Ansioso do jeito que estava por causa da situação, Thiago levantou o braço direito acima da cabeça – cuja palma brilhava – e o baixou rapidamente, liberando o poder. Uma fina faixa de luz formou-se na mesma forma em que Thiago tinha direcionado o braço. A luz fincou-se no chão e avançou contra Baltazar quase que instantaneamente, deixando um rastro de destruição no caminho. Mas ao tocar a coluna, não provocou nada além de um sulco, que rapidamente se desfez.
Uma risada de desdém formou-se quando Baltazar ergueu a mão brilhante, enquanto gritava:
- Hemorragia!
Formou-se na coluna uma janela redonda de um metro de diâmetro, deixando a luz vermelho-sangue passar, indo direto ao Thiago. Fechando-se novamente após o uso, fazendo que a coluna ficasse tão imaculada quanto antes.
Sua única reação foi fechar os olhos, esperando sentir o calor no peito antes da hemorragia interna.
Porem aconteceu algo diferente. Ele sentiu, ao invés do ventinho produzido pelo poder, pesados 76 kg se chocarem contra ele, prensando-o contra a porta (dois metros atrás). Quando abriu os olhos para ver o que aconteceu, ficou chocado.
Deitado em seu colo estava Lucas, tremendo violentamente. Ele rasgava a camisa com dificuldade para expor sua barriga e seu tórax avermelhado, como se tivesse todo o sangue ido em direção àquele ponto. Thiago puxou a barra da calça dele até os joelhos, e viu que a panturrilha dele estava vermelha igual, assim como os braços e a cabeça.
- Por quê? – gritou. Uma lágrima caiu sem querer quando ele imaginou a dor do amigo.
- N-não s-sou e-eu qu-que t-tem q-ue m-matá-lo, e-e s-sim v-você!
Thiago ergueu o braço para cuidar dele. Assim que a luz cessou, a cor branca de Lucas havia voltado, para que então pontos vermelhos surgirem espalhados, e cresceram, fazendo a pele novamente ter a cor vermelha, tentou novamente, e, assim que a luz cessou, ele entrou em pânico: o corpo dele não tinha se curado. Depois de três tentativas sem sucesso Baltazar se pronunciou.
- Não tem como curá-lo. Eu fiz o poder especialmente para isso.
O rosto de Thiago tornou-se vermelho devido a tanta raiva. E a liberou em forma de poder.
A intensidade foi tanta que a bola formou-se com trinta centímetros, e enquanto ela voava em direção ao Baltazar, iluminou o galpão inteiro. Apesar da força do poder, a coluna manteve-se intacta.
- Hora do show – falou Baltazar – Duplicata Maximum.
A ventania aumentou, fazendo uma corrente de ar deslocar-se da coluna e expandir-se dentro do galpão. Tufos de cabelo do Baltazar desprendiam-se do couro cabeludo, deixando-o parcialmente careca.
Uma ondulação originou-se na base da coluna de ar, para então percorrer toda a extensão dela e bater no teto, quebrando-o o suficiente para passar. Pela janela Thiago pôde ver que a coluna se estendia para um quilometro em todas as direções, e quando chegou nesse limite, subiu na forma da coluna até alguns metros abaixo das nuvens, que foram puxadas pela corrente de ar e a tocou, formando um furacão. O furacão de um quilômetro.
Uma raiva crescente dominou Thiago. Por causa de Baltazar sua vida tinha saído dos eixos. Por sua causa sua mãe morrera. Por sua causa Lisa e os cinco garotos morreram. Por sua causa Lucas estava tendo uma hemorragia interna. E por sua causa Thiago teve que abandonar a casa para sair em luta.
Thiago tentou por duas vezes atingir Baltazar. Sem sucesso. A barreira de ar era impenetrável.
Uma outra ondulação na coluna aumentou a velocidade ao ponto da blusa de moletom de Thiago se debater alguns centímetros longe do corpo. A poeira do galpão formava ondas transparentes devido à força do vento. Pequenas faíscas de energia salpicavam a mão de Baltazar.
Um raio escapou dos dedos de Baltazar-jovem e chocou-se no chão a frente de Thiago, elevando uma densa nuvem de concreto desintegrado, parecendo um dedo. Rapidamente a poeira se dissolveu e continuou voando.
- Se você não tivesse vindo aqui para me matar – gritou Baltazar – eu até te ensinaria a fazer o Ritual Duplicante! E sensação de poder é maravilhosa!
- Que morra com ela! – gritou Thiago, tentando pensar em como poderia matá-lo.
- Idem! – então raios de energia voavam de sua mão, espatifando janelas e desintegrando o concreto.
A essa altura as nuvens já tinham entrado no galpão, apesar de avançarem lentamente. O chão em volta de Thiago havia sido totalmente esburacado, parecendo uma estrada para o interior, estrago provocado pelos raios que, para o desgosto de Baltazar, não o atingiam.
- Não era para você ter quatorze? – a curiosidade em sua voz era esquisita em comparação com a situação, mesmo assim tinha um tom de desdém em sua voz.
- Pra que a duvida? – perguntou Thiago, verdadeiramente intrigado.
- Por que eu atingi a sua idade, e agora eu estou com quatorze.
- Eu estava no futuro, e como no futuro eu não posso fazer aniversário, já que não é meu tempo natal... Eu estagnei no treze. – gritou em resposta, uma vez que os raios abafavam a sua voz.
Um desses raios atingiu Lucas, rachando a pele no antebraço. Com a pele ferida, o sangue brotava do pequeno corte como se fosse uma nascente de rio.
O pânico inicial deu lugar ao ódio profundo. Até mesmo o enjôo causado pelo sangue havia sumido, devido à raiva contra Baltazar. E um plano de ultima hora surgiu em sua mente, sem pensar se daria certo ou não, ele o pôs em pratica.
Inclinando o braço direito para baixo e para trás, Thiago evocou uma espada de energia. Enquanto ela surgia da mão dele até a ponta, ele ergueu o braço esquerdo e evocou um Escudo de Energia Modelável. Ele o fez ir até a coluna de ar e penetra-la em forma de agulha.
Isso provou ser extremamente fácil. Assim que tinha passado por toda extensão, mantendo-se no meio, ele a expandiu na largura, refazendo a janela que tinha estado lá.
- Pela cidade! Pela Resistência! Pelos meus pais! Por nós! – foi o único aviso.
Segurando a espada acima da cabeça com as duas mãos, ele inclinou-se para frente, um pouco antes de cair no chão, ele voou. Voou direto ao coração de Baltazar.
Seu vôo foi tão rápido que poderia ter cruzado a distancia que os separava em um segundo, mas Baltazar havia lançado um poder Extensivo, jogando o braço esquerdo da direita para o seu respectivo lado, fazendo que cada metro real percorrido por Thiago parecesse cem.
Nesse tempo extra garantido, Baltazar começou a entoar um cântico para que o processo duplicativo de poder andasse mais rápido.
Thiago estava a dois metros reais da coluna de ar, sua blusa de moletom chicoteava os lados do corpo. Ele esticou mais os braços. Baltazar hesitou. A famosa Curiosidade Adolescente. Era tudo que ele precisava. Thiago guinou para frente. Em direção ao peito de Baltazar.
Continua...
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