O refrão final da musica “When Love Takes Over” chegou aos seus ouvidos assim que sentiu uma leve pressão nos ouvidos. Seus olhos estavam fechados. Ele estava estranhamente descansado, comparando os fatos recentes.
Enquanto a musica tocava, ele sentiu a claridade diminuir sobre seus olhos, chegando ao ponto de uma luminosidade normal. Lentamente ele abriu os olhos, relutante para saber dos perigos que havia à espreita.
Não tinha nenhum.
Ele se encontrava num corredor bastante conhecido, mas não se lembrava da onde era. A pressão nos ouvidos eram os fones.
Ele reconheceu o corredor. Estava em casa.
Após ter matado Baltazar jovem, ele impediu que o mesmo crescesse e, por subseqüente, não cometesse os atos maléficos dele. Em resumo: não poderia tornar a vida de Thiago adulto num inferno, ao ponto de buscar ajuda ao Thiago jovem, portanto, esse não precisaria sair do conforto da sua casa, deixando uma brecha para a morte da própria mãe. Em mais resumo ainda: tudo estava em ordem.
Ele caminhou lentamente até o próprio quarto, saboreando cada pisada. Era um alivio estar de volta.
Desinteressado de ouvir rádio – começou a tocar uma musica que ele odiava – ele retirou os fones. Assim que ele foi desligar o aparelho teve uma surpresa: o seu mp3 não era mais um mp3, mas sim um mp4.
Devo ter ganhado, mas o que faria a minha mãe comprar um aparelho mais avançado?
Retirando essa questão da cabeça, ele abriu a porta do próprio quarto.
A primeira coisa que notou de novo era a cor das paredes. Ao invés daquele cinza que era antigamente, agora tinha uma coloração azul-escurecida. As paredes havia se estendido, deixando o quarto maior. Os moveis eram melhores e o ultimo adesivo que tinha colado sumira. Indo direto para a cama, ele conferiu a coxa branca, sem nenhuma marca de fuligem.
Meio camuflado com a cor da coxa, havia uma carta endereçada ao Thiago.
Ele a pegou, temendo que algo tivera acontecido de errado. A abriu lentamente e tirou de dentro uma folha de caderno dobrada quatro vezes. Ele a abriu para revelar uma única palavra:
Obrigado.
A carta se desfez em sua mão, virando pó, fazendo milhares de pedaços voarem até a janela. Ele os seguiu. Novamente ele percebeu outra mudança no quarto: a mesinha de estudos foi para baixo da janela. Lá estavam os cadernos, gibis, canetas e outras tralhas dele.
Se apoiando na mesinha, ele deu boas vindas ao dia.
Estou livre. Finalmente livre. Sem responsabilidades, sem pessoas a ajudar. Livre!
Um barulho o alertou que tinha alguém na porta. Um segundo depois uma voz chegou aos seus ouvidos, uma voz que ele não ouvia há dois anos.
- Filho?
Thiago se virou rapidamente, não acreditando em seus ouvidos. Porém eles estavam mais do que certos. Seu pai estava de volta.
Mas não era para ele ter vindo. Quer dizer... Ele tinha morrido muito antes dessa historia toda! A não ser que Baltazar tenha o matado.
- Pai?
- Achou que fosse quem? – ele riu devido à própria piada. Ele estava segurando um copo de água na mão esquerda e uma revista enrolada na direita. Estava de chinelos, algo que sugeria folga.
- Ninguém... Imagina. Cadê a mãe?
- Ela foi fazer compras, como tínhamos combinado ontem.
Assim que a última palavra foi proferida, uma torrente de memórias se relanceou em sua mente. Atualizações de todos os últimos dois anos. Todas as noites que a mãe dele passou chorando foram substituídas por noites de muitas risadas. Os aniversários foram incluídos o pai dele, passeios feitos, reforma da casa, uma viagem, o cemitério não visitado mais... Ele contando para Sara que ia estar de folga no dia 25, e ela se recusando que ele fosse ao mercado, que ela ia de qualquer jeito.
Mesmo assim, as lembranças de antes se mantiveram em sua mente, para lembrá-lo do que custou a briga com Baltazar. Agora ele tinha tanto as memórias do pai morto quanto dele vivo.
Um carro estacionou na garagem. Thiago se virou para ver quem era e se deparou com um Novo Ka, segundo suas memórias um presente de aniversário para Sara.
- Sua mãe chegou, vou ajudá-la com as compras. – dito isto ele se retirou.
Thiago se ajoelhou na frente da janela. Obrigado Deus, valeu mesmo. Rapidamente se levantando, ele olhou para baixo, para ver o seu pai chegar até sua mãe e se abraçarem, parecendo que não se viam há dois anos, mesmo sem entenderem o porquê de tanta saudade. Tecnicamente eles NÃO se vêem há dois anos, mas na pratica...
Repentinamente ele sentiu sede, desejando um copo de água loucamente, e se lembrou que não tomou nada desde as oito horas da manhã do dia do eclipse. De lá se passaram cinco horas, e mais meia ou uma hora da briga com o Baltazar jovem. Não contava o fato de ele ter tomado um copão de água há vinte minutos.
Seus olhos caíram repentinamente na mesinha de estudos, então ele notou um copo de água, que supostamente nunca estivera lá. Impossível... Isso é impossível!
Cogitando ainda menos a teoria que acabara de forjar, ele tocou a ponta do dedo no copo – cuja água estava fresca – e quis que a água gelasse.
Fios brancos saíram do ponto em que tocava, no lado de dentro do copo, em direção ao vidro do outro lado. Toda vez em que tocava o vidro, o fio branco se expandia, para então tocar em outra ramificação, congelando toda a água.
Estupefado, ele pegou o copo e virou o conteúdo na mão esquerda, soltando uma pedra de gelo com o formato do copo, ela deslizou, mas manteve-se equilibrada.
Devolvendo a peça ao copo e secando as mãos ele pensou. Isto é impossível. Era para os poderes se extinguirem assim que eu matei o Baltazar. Não era para eles terem vindo comigo...
Ele foi até a caixa de tranqueiras que ele mantinha embaixo da cama, retirou-a de lá e a colocou em cima da cama.
Ele revirou o conteúdo, retirando tudo aquilo que não o interessava, e em baixo das cartas que ele tinha recebido de aniversario, cursos e coisas do genero, estavam o poder-do-universo e a essência.
- Isso é impossível – exclamou – a não ser que tenha alguém tentando me ajudar! Mas quem... Não tem ninguém que eu conheça que tenha poderes o suficiente para tal façanha! E se existe, no momento não se lembra de nada!
Ele guardou tudo de volta na caixa e a alojou em baixo da cama. Preciso de um lugar melhor para guardar minhas coisas. Principalmente a essência. Mas ele logo retirou essas questões da cabeça. Afinal, ele tinha todo tempo do mundo.
Finalmente podia dormir sossegado! Baltazar não podendo crescer, ele estava sem problemas, e ainda, estava com um pai de novo! Chega de lembrar como era ter um pai, pois agora era só pensar em como é ter um pai.
Ele postou-se no seu lugar perto da janela. E ficou observando os seus pais descarregarem as compras do carro, eles pareciam excessivamente felizes.
Um barulho puxou a sua atenção, vindo do final da rua. Um caminhão virou na esquina e veio em sua direção, estacionando na casa da Elza.
Thiago se lembrou que a Elza tinha se mudado na semana retrasada, estressada por causa das brincadeiras de Thiago e de Matheus, e que tinham comprado a casa dela na quarta-feira, e iriam mudar-se hoje, sexta-feira.
O caminhão que estacionou era o da mudança, e atrás dele veio um carro preto, que o ultrapassou e estacionou na frente dele, perto dos pais de Thiago.
Do carro saiu um casal, eles conversaram com o motorista do caminhão, que desceu e foi direto para a traseira, onde estava a equipe de mudança. O casal então satisfeito foram até os pais de Thiago, receber as boas-vindas.
Tomara que esse casal seja legal, pensou Thiago, tomara que sejam diferentes da Elza. A porta de trás do carro se abriu, revelando um par de pernas. Eles têm um filho! Tomara que seja legal, senão eu e o Matheus faremos um inferno na vida dele! O garoto arrumou algumas malas dentro do carro, atrasando a sua saída de dentro dele.
O garoto que estava dentro do carro fez o movimento de levantar-se, revelando uma juba de cabelo em ondas castanho-claro até os ombros, que no momento cobria-lhe o rosto. O garoto jogou os cabelos para trás, revelando-se uma menina.
Thiago suspirou. Era a garota mais bonita que ele já havia visto na vida. Ela não possuía o “padrão de beleza” imposto todos os dias, mas ela possuía algo que encantava o Thiago. O coração dele bateu mais rápido. Sentiu-se estranhamente tolo, e excessivamente feliz. Era como se todo o sol tivesse se focado nele. O dia tinha ficado com uma beleza exótica.
Ela olhou para os adultos reunidos em casais, eles se cumprimentaram, e então, junto dos próprios pais, ela perguntou algo, e o pai de Thiago apontou para a janela dele. Ela o olhou.
Seus olhos se encontraram. Thiago se sentiu tão mexido por ela que suas pernas bambearam.
De súbito ele sentiu um calafrio, tão forte ao ponto de balançar os seus braços. Mas não era um simples calafrio. Era o calafrio provocado pelo poder-do-universo. Era aquele que indicava que algo realmente perigoso estava para acontecer. Acontecer com aquela garota. Acontecer com ele.
Mas ele não sabia o que era. Nem o que estava para acontecer. Estava tudo nas mãos do destino. Uma nova aventura.
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