segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

CD

Segundo capítulo da história, já começa a dar indicações do que está por vir. Se preparem.

Thiago estava andando de volta para casa, já havia passado das três da tarde.
Ele estava completamente desconcertado com o sonho da noite passada. Será que ele disse é verdade? Nunca vou saber só quando acontecer. Se acontecer.

No dia seguinte ele foi buscar sabonete no supermercado, já que na casa dele havia acabado e ele precisava tomar um banho, pois ele tinha que sair com os pais, no caminho de volta ele estava olhando para o chão distraidamente quando seus olhos se depararam com um cd jogado na rua e todo estraçalhado como se um carro tivesse passado por cima. Thiago não agüentou a curiosidade e pegou o cd do chão, olhou para os dois lados da rua então, depois de verificar se não tinha ninguém, se concentrou num poder de reparação.
Uma luz branca meio azulada envolveu os destroços do cd, e no seu lugar apareceu um cd novo em folha.
O CD estava em uma capinha verde-transparente, e não tinha nada escrito alem de uma etiqueta dizendo: “destruição-cidade”.
Deve ser um jogo, pensou.
Ele passou por um momento de indecisão, antes de o por no bolso.

Depois que ele chegou a casa, ele deixou o cd em cima da mesa do computador no seu quarto e foi fazer o que tinha de ser feito.
No dia seguinte, ele foi para o quarto, trancou a porta, e colocou o CD no computador.
Dentro do CD havia uma só pasta nomeada: planos, ele meio relutante a abriu – apesar de já tido verificado se tinha vírus – então na pasta tinha um documento nomeado: plano.
Um pouco antes de abrir o documento, sem saber o porquê, Thiago sentiu uma vontade de ligar o rádio.
Thiago ligou o rádio, e nesse momento passou a vinheta das noticias importantes.
“Bom dia” disse o locutor “Acabamos de receber a noticia que o prefeito da cidade acaba de ser assassinado, o corpo foi encontrado com os braços e pernas quebrados num conjunto de formar um triângulo, a polícia declarou que esse triângulo pode ser a marca do assassino ou o grupo, a polícia tem palpites que foi um acerto de contas”.
Ele desligou o rádio, imagina a repercussão disso!
Relutante mais uma vez, ele clicou no documento e então abriu.
Thiago de imediato viu uma página em branco. Ele viu embaixo que o documento tinha trinta e cinco paginas.
Antes de descer o documento o telefone tocou.
- Eu atendo! – gritou para a mãe dele, enquanto puxava o fone do telefone que tinha em seu quarto, uma das mudanças que o seu pai tinha trazido – Alô?
- Alô? É o Thiago?
- Matheus? É você? Sim, sou eu.
- O Thiago... Você pode vir aqui?
- Por quê?
- É que chegou o computador novo, super rápido, aí eu queria mostrar pra você...
- Mas Matheus, eu não tenho que ir aí daqui à meia hora pra gente ir à casa da Cíntia?
- Tem. – respondeu Matheus do outro lado.
- Então, daqui a quinze minutos eu passo aí. Quinze minutos são suficientes, não é? Mas o que eu odiei – cortou Thiago antes de Matheus responder – é a diretora passar aquele projeto da musica pras férias do começo de ano... Que raiva!
- Então ta combinado? – Matheus perguntou com cuidado
- Ta – respondeu voltando ao normal
- Até...
- Até – disse Thiago e desligou.
Ele desceu o documento e deparou com um triangulo. Ele olhou meio desconfiado e ligou a internet. Assim que a tela de busca apareceu, ele digitou “assassinato do prefeito-hoje” e apertou o enter. Varias opções apareceram inclusive jogos, mas ele procurou o nome do jornal de sua cidade e clicou no link dela.
Uma foto mostrou o corpo do prefeito em forma de triangulo e a legenda:
Esse provavelmente é o símbolo da organização ou do assassino, que quebrou os ossos da perna para fechar a base do triangulo.
Ele fechou a janela e desligou a internet. Estava respondida a questão: a etiqueta “destruição-cidade”, a pasta “planos” e o próprio nome do documento, seguido pela imagem diziam tudo. Ele estava com um CD com os planos da organização ou do assassino.
- Mas porque deixaram esse CD para trás? Ele é importante... – ele deu um tapa na própria cabeça – o CD tava destruído, anta!
Descendo mais o documento ele começou a ler o texto:

Parte 1

O prefeito Constante de Almeida está entre...

Thiago pulou essa parte, desceu os olhos pelo texto e achou uma palavra destacada: “morto”. Ele voltou um pouco antes e recomeçou a ler:

...ele deverá ser deixado a sós no dia 28 após uma reunião já marcada na casa dele com a diretoria de...e então infiltraremos um dos nossos como mordomo dele, que usa seu salário com muitos...e teremos outro infiltrado na cozinha...que preparará um ensopado contendo veneno...que se autodestrói no organismo dez minutos após a morte...não sobrando vestígios...o mordomo levará a comida...o prefeito irá comer...morrerá instantaneamente...o mordomo irá ajeitá-lo...limpará o prato, evitando que se suponha que foi envenenado...os dois irão sair...alertar a polícia...que está MORTO...

Thiago entendeu o plano. Dois caras infiltrados; um na cozinha e outro de livre acesso ao prefeito; um põe veneno na comida e o outro a leva até a “vitima”; depois de dez minutos morto o veneno some do organismo; eles avisam a polícia que ele está morto e ninguém na autópsia vai saber do que o prefeito morreu.
Ele desceu ate o plano Dois.

Parte 2

Na praça central da cidade há uma estátua de um dos desbravadores apontando para...é o símbolo máximo de “tudo-está-ok”...um míssil a atinge...simbolicamente significa...fim do “tudo-está-ok”...

O resto do texto tinha todas as implicações, acontecimentos e procedimentos, mas o que o deixava abismado era a proximidade com o seu aniversario, no dia seguinte ao mesmo.
Ele olhou o relógio e viu que os quinze minutos já se acabaram. Ele desligou tudo, tendo o cuidado de esconder o CD na caixa em baixo da cama em que tinha a essência e o poder-do-universo.
Ele avisou a mãe que já estava saindo, e então pegou a bicicleta nos fundos da casa, e atravessou a rua. Matheus o esperava na porta:
- Põe a bicicleta lá atrás e entra pela cozinha.
Thiago deu a volta, encostou a bicicleta na casa e entrou pela porta da cozinha.
Apesar das casas serem planejadas, a mãe do Matheus soube impor sua originalidade, tanto que a cozinha dela tinha mais rendas e babadinhos que a cozinha da mãe dele. Matheus já o esperava lá:
- Cadê a sua mãe?
- Entrevista de emprego.
- Legal... Para que?
- Hoteleira.
Matheus subiu na frente, e o quarto dele ficava no mesmo lugar de Thiago (motivo óbvio, uma vez que os pais dele jamais dariam a suíte pro filho).
Nos quinze minutos seguintes Thiago viu como o novo computador de Matheus era bom e rápido. Ficou sabendo o tanto de HD que tinha e a memória. Por Matheus ser seu amigo, Thiago se esforçou para prestar atenção. Dando quinze minutos, eles desceram e pegaram as bicicletas, rumando para a casa da Cíntia.
Como que no caminho que eles tinham que fazer era preciso atravessar a rua, eles começaram a travessia, e nesse exato instante, Mariana e Lívia imbicaram na esquina.
O efeito foi instantâneo. O tempo pareceu andar mais devagar para Thiago, enquanto ele admirava ela andar e dar risada.
Ao longe ele ouvia Matheus chamar seu nome, mas seus olhos não desgrudavam de Mariana. Matheus tentou novamente, gritando “olha a guia”. Coisa que ele percebeu tarde demais.
Como não estava prestando atenção, ele não viu que estava indo direto para a guia, provocando um impacto que parou abruptamente a roda dianteira. Por causa da velocidade, o assento onde ele estava continuou indo, jogando-o para cima. Ele sentiu próprio corpo dando um mortal, fazendo-o cair de costas num terreno de ninguém. Seus únicos reflexos foram gritar e posicionar a perna direita para amenizar o impacto.
Mas a sua perna foi com um mau jeito. E ele sentiu um estralo na panturrilha e uma onda de dor. Tinha quebrado o osso. Ele permaneceu imóvel no chão, esperando alguém para socorrê-lo.
Só então ele se lembrou que onde ele havia caído era cercado por um mato de mais de dois metros de altura, o que tinha escondido ele dos outros.
- Thiago! – gritou Mariana – você está bem?
- To – disse entre dentes.
- Nós ouvimos você gritar! – comentou Lívia.
-... Foi de susto... – inventou.
Não posso aparecer com a perna quebrada. Foi ficar parecendo um boboca.
Decidindo rápido, ele resolveu optar pelo poder. Estou fora da visão deles mesmo.
Ele pôs a mão em cima do ponto onde tinha se machucado, retraiu-se com uma fisgada de dor, e a luz cobriu a panturrilha.
- Você não vai sair – foi à vez do Matheus.
- Já to indo.
Ele se levantou com um pouco de dificuldade e saiu da mata. Os três estavam olhando para ele preocupados. Ele não fez caso deles e foi ver o que tinha parado a roda, por que normalmente as bicicletas sobem na calçada. O que tinha provocado a parada brusca da bicicleta foi uma rachadura na guia, em que a roda se encaixou nela e impediu dela rodar. Ele desprendeu a bicicleta da guia e comentou:
- Nós estamos indo fazer trabalho... – ele notou que não havia necessidade de ter falado isso, uma vez que os três olhavam para ele com cara de “você está bem?” – caso vocês duas queiram saber.
- Por falar em trabalho, nós acabamos de vir da escola... Sua escola. – disse Mariana.
- E aí? Vocês já não tinham sido matriculadas?
- Sim – respondeu Lívia – nós fomos lá para a diretora nos dizer que: “vocês irão pegar o ano pelo começo, em parte isso é bom. Mas pode ocorrer de vocês estarem atrasadas, mas parece que sua antiga escola era boa”. E já fomos remanejadas na nossa nova sala.
- Estamos juntas... De novo. – explicou Mariana.
- E vocês caíram em que sala? – perguntou Matheus, enquanto o Thiago recolhia a chave que tinha caído do seu bolso.
- 8° B. – disse Mariana.
Thiago parou com a mão a caminho do bolso. Será possível?
- Desculpe?
Mariana olhou para ele:
- 8° B.
- Sério?
- Sim, por quê?
- Sério, sério?
- Sim.
- Sério, sério, sério?
- Isso já ta enchendo.
- É verdade – confirmou Lívia – por que você perguntou?
- Porque nós – ele acenou para si e para Matheus – somos da 8° B esse ano.
- Sério? – perguntou Mariana.
- Agora você?! – brincou Lívia.
Thiago teve uma idéia:
- Se é assim, vocês não têm grupo.
- Para que? – perguntou Mariana.
- Para um trabalho que a diretora da nossa escola passou para todos os alunos.
- É ela comentou algo sobre um trabalho. – lembrou Lívia.
- Vocês podem entrar para o nosso grupo. – convidou Matheus.
- Por mim tudo bem, estou com a tarde inteira livre e não preciso avisar a minha mãe, e vai ser bom fazer trabalho com quem já conheço. – disse Lívia.
- E você? – perguntou Thiago para a Mariana.
- Não sei. Preciso avisar a minha mãe que eu estou indo.
- Liga da casa da Cíntia. – lembrou Matheus.
Thiago fez uma cara de pidão e se arrependeu logo. Mas a Mariana cedeu:
- Ta bom, eu vou!
Lívia foi até a bicicleta de Matheus:
- Eu não vou a pé! – explicou.
- É só sobrou eu – comentou Thiago para Mariana.
Ela corou com o comentário dele. E com a reação dela ele também corou.
- Descul...
- Vocês vão ficar namorando? – brincou Matheus.
Mariana se sentou na garupa de Thiago. Para manter-se ela segurou na cintura de Thiago, viu que só isso não bastava e passou o braço direito na sua barriga. Thiago se sentiu estranho com o contato, seu coração acelerou.
Quando eles chegaram lá, a Cíntia surpreendeu-se com a nova visita, mas não comentou nada. O tempo todo que eles ficaram lá foi usado para chegar ao um comum-acordo de com fazer o trabalho. Perto da hora de ir embora, a Cíntia pediu Matheus ir pegar um suco na geladeira, deixando o Thiago sozinho com as três meninas.
- Vou ajudá-lo. – anunciou, saindo quase correndo do quarto.
Elas mal esperaram ele sair para começar a fofocar. Quando ele chegou à cozinha foi recebido por Matheus, que estava de costas, mexendo na geladeira:
- E aí? Como é?
- Como é o que?
E ele pegou o suco e se virou, batendo a porta da geladeira às suas costas.
- Não se finja de bobo.
- Não estou fingindo.
- Ta – ele ironizou – deixe eu te explicar. Você está sob um teto, e sob esse mesmo teto está a Cíntia, a garota que você tentou pegar o ano inteiro – e ele pousou a vasilha de suco na mesa – não contente, nesse mesmo teto está Mariana, a garota com quem você tem uma queda. E para ficar melhor – sua voz tomou um tom de reprovação – nesse teto também está Lívia, que você olha com afeição demais.
- Por que, ta com ciúme?
Matheus ficou indignado:
- Eu não tenho uma queda por ela!
- E aquela cara de bobo quando ela te escolheu? Nós somos penas amigos – ele pensou um pouco – é que me parece que eu já a conheço há algum tempo.

Ele voltou para casa, feliz com ele mesmo. Um dos motivos para isso era a Mariana senta da na garupa, às suas costas. Matheus o tirou de seus devaneios:
- Thiago, sabia que tinha um pintinho que nunca ria. Aí teve um dia que ele tropeçou e caiu de cara no chão, e rachou o bico.
Thiago deu uma risada, e sentiu Mariana se inclinar para trás:
- Nossa, eu não ouvi isso!
- Matheus – chamou Thiago – você sabe o que aconteceu com o pintinho que só tinha uma pata?
- Essa eu sei – respondeu – foi ciscar e deu uma cambalhota!
As meninas deram uma risada. Thiago perguntou novamente:
- Você sabe por que as loiras têm três torneiras em casa? – Matheus acenou negativamente – uma para água quente, outra para água fria e uma terceira para água a oxigenada.
Lívia o fuzilou com o olhar e soltou:
- Mariana, você sabe o que acontece com o homem assim que a esposa dele morre? – Mariana respondeu que não – ele perde 90% da inteligência. – Mariana deu uma gargalhada – e você sabe o que acontece quando o cachorro dele morre? – ela respondeu que não de novo – ele perde os outros dez.
Era óbvio que aquilo era uma cutucada, pois ela tinha achado que a piada de loira fora para ela. Ele revidou:
- Matheus, você sabe por que o cérebro de uma loira fica do tamanho de uma ervilha quando ela morre.
- Não, por quê?
- Por que ele incha. – terminou ele olhando para Lívia.
- NOSSA! – gritou ela, mortificada – deixa você! Um loiro fazendo piadas de loiras.
- Eu não sou loiro, meu cabelo é castanho claro! Você quer que eu faça o que? Pinte de preto?
- Pinta não – ele estacionou a bicicleta na calçada em frente da casa dela – eu já imaginei...
- Mariana? – disse Lívia, claramente se fingindo de desentendida – você já imaginou o Thiago de todas as formas possíveis?
Thiago sentiu um calor vindo dela, provocado pela sua vergonha. Ela desmontou da bicicleta rapidamente e correu até em casa, batendo a porta. Lívia ficou sem graça.
- Pode deixar que eu vou a pé até em casa.

Ele foi dormir agitado. Amanhã eu irei fazer quatorze anos! Ele não terá uma festa porque decidiu assim, combinando dos pais em comemorar no cinema. Antes de dormir, como sempre que fazia quando estava sozinho, ele praticou um poder, para ele não se auto-extinguir.

Ele abriu os olhos. Estava fazendo aniversário.
Ele tomou um banho sem pressa, escovou os dentes, se trocou. Olhou no relógio: 09h30min. Desceu as escadas calmamente. Escutou os barulhos da casa: estavam na cozinha. Ele foi direto para lá.
Seu pai estava sentado na mesa, tomando café. Sua mãe estava arrumando a louça no escorredor:
- Filho! – anunciou Gabriel.
A mãe de Thiago se virou, com o rosto radiante, ela secou a mão enquanto corria para abraçá-lo:
- Parabéns! Meu filho!
Ela se afastou, e então o seu pai veio.
- Parabéns Thiago. – ele o abraçou.
Seu pai e sua mãe, de 33 e 32 anos respectivamente, pareciam jovens de dezoito anos. Estão felizes pelo filho – eu – que está fazendo quatorze, imagine a felicidade deles como ficaria se soubessem que seu filho salvou o país e ainda por cima os tirou da morte... Mas não posso revelar, por causa do choque temporal.
Sara o sentou:
- Coma meu filho – segunda vez que ela usava “meu filho”, exclusivo para momentos extremamente felizes – você precisa agora de mais comida.
- Estávamos indecisos com o que te dar – disse Gabriel, enquanto Thiago enchia o copo de leite e café e passava manteiga no pão.
- Não sabemos ao certo do que você gosta. – explicou Sara. Thiago mordeu o pão.
- Por isso decidimos comprar em conjunto. – anunciou Gabriel. Thiago engasgou.
Toda vez que eles decidiam comprar em conjunto, era um presente caro.
Sara veio correndo em seu auxílio. Entre uma tosse e outra, ele perguntou:
- O que... Cof, cof... Vocês... Cof, cof... Compraram?... Cof, cof...
Gabriel tirou uma caixa embrulhada em papel azul de debaixo da mesa.
- Veja você mesmo.
Thiago abriu o embrulho, e tomou um susto: ele tinha ganhado um celular! Ele era do modelo “abre-e-fecha”, era azul-escuro e era espelhado.
- Mas pai! Mãe!
- Nós achamos que já estava na hora. – explicou a mãe – sei que nós, apesar de morarmos num bairro de classe média, não temos tanto dinheiro. Mas vamos manter o seu celular – pré-pago – regularmente com créditos.
Thiago abraçou os seus pais.
- Muito obrigado.
- De nada. – respondeu Gabriel.
Thiago terminou o café e foi por quarto “atualizar a agenda do celular”.
Era o melhor aniversário de sua vida.
Depois do almoço ele saiu para a rua, receber os parabéns dos seus amigos.
Matheus o esperava na varanda, estava com um embrulho nas mãos, uma caixinha de cd.
- Acho que você conhece essas musicas. – explicou.
Thiago abriu o embrulho e agradeceu, nesse instante chegou Lívia.
- O que você ganhou – Thiago mostrou o Cd – legal. Aqui está o meu presente. O Matheus me contou que você tem o desenho de uma anja muito bonito. Eu achei legal te dar um porta-retrato.
Thiago pegou o porta-retrato nas mãos. Estava muito emocionado.
- E a Mariana, o que ela te deu? – perguntou Matheus.
- Boa pergunta. – respondeu Thiago – eu não a vi hoje.
- Deve estar em casa. – sugeriu Lívia.
- Então vamos até lá.
Chegando lá eles foram recebidos pela mãe dela:
- Não contem para ela que eu disse isso a vocês, mas ela não saiu do quarto hoje.
- Por quê? – perguntou Thiago.
- Está evitando ver você.
- Por quê? – repetiu.
Ela olhou para ele com cara de “você sabe que eu sei que você sabe”.

Eles foram ao cinema às duas da tarde, viram o filme, lancharam na praça de alimentação e então voltaram para casa.
- Filho – começou Sara – hoje, coincidentemente, vai ter uma convenção de bebidas na praça, e nós vamos até lá. Tem janta na geladeira, não durma até tarde e não temos horário para voltar, viu?
Eles saíram, o deixando sozinho dentro de casa. Ele aproveitou o dia inteiro para fazer o que quisesse sozinho. Ele foi dormir quase meia-noite, depois de ter ficado horas jogando no computador.
Tenho um celular! Pensou na cama, enquanto ouvia musicas. Agora tenho um celular novinho em folha. Isso significa: “confiamos em você, filho”. Celular!
Antes de pegar no sono ele se lembrou do cd. Aquele maldito! Amanhã vai ter o primeiro ataque, se for verdadeiro eu vou ver se entrego para a polícia... Ele caiu no sono, embalado por imagens dele e Mariana caminhando na praia.

Ele olhou para o relógio em seu pulso: meia-noite e dez.
O grupo de trinta homens estava em sua frente. Esse pessoal era o que fazia o trabalho sujo: assassinatos e sabotagem. O resto da equipe, os outros cinqüenta, ficavam com a burocracia.
Eles evitavam se encontrar de dia, pois mesmo a barreira eletro-magnético em volta do prédio para impedir que alguém detecte alguma movimentação num lugar “inabitado”, eles tinham que ter cuidado com o pessoal burocrático. Quanto menos pessoas souberem do próximo passo a ser dado, melhor.
- Rapazes – ele começou, já que todos a sua volta tinham a média de 25 anos de idade, incluindo ele mesmo – amanhã, às dez horas e quatorze minutos exatamente, o nosso míssil atingirá a estátua da praça. O nosso “agente” – ele apontou para um homem bem-vestido, acima de qualquer suspeita – fez o seu trabalho na convenção. Tudo está preparado. Só espero que não ajam muitos mortos...

NOVIDADES

Uma nova aventura se inicia. E se acham que é pouco, esperem para ver os próximos capítulos.


Thiago se apoiou no parapeito da janela, estava realmente revoltado pelo o que sua mãe acabara de dizer. Apesar de saber que ela estava certa, ele não podia deixar de sentir uma pontada de desgosto. Em meio de seus devaneios, ele ouviu um farfalhar, um farfalhar leve de quem não quer ser ouvido, que ele próprio só ouviu por causa do poder-do-universo que havia permanecido mesmo após ele ter provocado a morte de Baltazar. Com a raiva transparecendo por ter sido interrompido em seu “santuário”-quarto, ele se virou bruscamente e quase soltou um “quê?” quando viu Mariana.
Mariana havia chegado de mudança logo após a volta do futuro que agora não existe mais, dois meses atrás. Depois disso, ele só falou com elas duas vezes, trocando um singelo oi. Mesmo após tanto tempo depois que eles se viam, ele ainda ficava constrangido perto dela.
- É... Sua mãe falou que você estava no quarto! – se apresou para explicar a presença.
Um logo minuto de silencio se apossou do quarto, não agüentando mais, ele replicou:
- Estou, mas o que você gostaria?
-... Bem... É... Convidar você para... Bem...
- Já to achando que você logo vai me chamar de benzinho.
- Eu vim aqui te convidar para minha festa de quatorze anos! – disparou ela quase gritando
Thiago ficou mudo, e, reunindo forças para falar perguntou:
- Só eu?
- Sua família também
- Aonde?
- Aqui... Na minha casa – consertou.
- Quando?
- Depois de amanhã
Thiago não resistiu à piada
- Droga! Agora vou ter que te convidar para ir à minha festa de aniversario daqui a cinco dias!
- Sério? – ela não conseguiu esconder a cara de incrédula
- Sim, bem, se você me der licença eu preciso de me trancar no quarto...

Já era onze horas e Thiago ainda não havia conseguido dormir. Cara... Convidado para um aniversário!... Será que ela desconfia?Ou será que ela apenas convidou? Desde que ele tinha visto ela pela primeira vez, ele tinha gostado dela, e depois de dois meses passando na frente da casa dela e convivendo com ela – mesmo só de vista – o gostar dele para com ela havia se transformado em apaixonar, por ela.
Ele ainda estava meio confuso com relação aos seus sentimentos, mas tinha certeza que realmente era paixão; já que não tinha como explicar o fato de ter frios na barriga quando eles se encontram ou a confusão quando é ele que puxa assunto.
E ele também estava abismado por ela fazer aniversário tão próximo do seu, ela fazendo aniversário no dia treze e ele no dia dezesseis, num sábado. Que coincidência, ele respirou fundo e se virou na cama para ficar confortável, apesar de estar apaixonado, eu consegui – por dois longos meses – disfarçar o que eu sinto.
Ele estava feliz consigo mesmo, por ter disfarçado tudo com “indiferença amigável”, ele olhou para o radio relógio – eram mais de meia-noite – e respirou fundo. Mais longo que esses dois dias é impossível.

Ele se ajeitou na roupa, apesar de ele ter escolhido suas melhores roupas, ainda estava insatisfeito com a aparência. Não pareço que vou a um aniversário, isso por que a roupa era a critério dos convidados, eu vou assim por que ela conhece o meu estilo... Meus gostos... Minha vida – pela minha mãe, incompleto, porem minha vida – ela conhece ate demais sobre mim...
Tomando coragem desceu as escadas ate a porta para ir à festa, encontrar seus pais que tinha ido antes dele.
Ele se surpreendeu quando abriu a porta e viu Matheus, com o braço erguido para bater na porta, mas o estranho era que ele estava vestido para festa, aquela festa na casa ao lado.
- Matheus? Aonde você vai?
- Na festa
- Você a conhece?
- Estudei no presinho com ela
Thiago se sentiu traído.
- E você sabia?
- Até ontem não
- Como ela te reconheceu?
- Ela estava mexendo na comunidade da escola que tem no seu perfil, de lá ela me reconheceu, mas acho que ela não percebeu que somos amigos, ela também quase não sai de casa. Não deve ter olhado nos “amigos em comum”.
- Mas isso ainda não explica...
- A! – disse energicamente – ela viu uma comunidade minha escrita “Eu Estudei No Crescer Com Sabedoria”. Não ri do nome... – pediu.
- Vocês...?
Matheus riu assim que entendeu a frase
- Magina, somos só antigos amigos, mas fala, e qual é o seu interesse nela?
- Nada... Quer dizer, também somos amigos, mas nem tanto para...
- Namorar?
Thiago não respondeu antes de trancar a porta e começar a caminhar
- Ela com certeza não vai aceitar, ela é tão...
- Independente, eu me lembro.
- Então, com certeza ela não vai me querer.
- Você ainda esta traumatizado com a experiência passada?
Thiago engasgou para responder
- Sim... – por fim respondeu
- Com ela deve ser diferente...
- Vamos acabar com esse assunto por que já estamos chegando à festa e ela pode me ouvir.
A porta da casa estava aberta por causa da festa, então eles entraram na sala de estar toda decorada, tinha uns pequenos grupos de pessoas conversando no caminho pela casa ate o quintal, – como as casas da rua eram planejadas, todas tinham dois andares, um quintal à frente da casa, outro aos fundos (para aonde eles estavam indo), um salão independente (aonde o bolo será cortado), e um quintal em cima do salão que dá para ter varal (se armado) onde ela estava recebendo os convidados.
Eles começaram a subir as escadas e a dupla deu de cara com a Mariana e Lívia, que só Thiago intimamente conhecia como a anja que lhe estendera a mão no futuro. Ela tinha se mudado para o quarteirão vizinho junto de Mariana, as duas eram grandes amigas e uma vivia na casa da amiga. Mariana percebeu que os dois eram amigos e perguntou.
- Vocês se conhecem?
- Um pouco... – começou Thiago a falar a frase combinada
- Só desde a primeira série... – Matheus fez a segunda linha
- E esse ano vai chegar à oitava... – Thiago deu a deixa para a ultima
- Só oito anos de amizade – finalizou Matheus
Mariana teve um ataque de risos sobre uma piada que só ela sabia.
- Quase um noivado – retrucou depois do ataque de risos
A festa foi desde as três da tarde ate as onze, tudo deu como o planejado, como falou Mariana para os dois antes de eles irem embora.
Após saírem da festa, Thiago passou em casa e buscou sua mochila em casa e rumou junto com Matheus para a casa dele, já que eles haviam combinado de Thiago dormir lá aquela noite, coisa que só foi aceita por que ele morava na frente, o caminho podia ser feito a pé.
Caminhando o Thiago puxou assunto:
- Você acha que ela vai se importar se eu...
- Disser para ela o que você sente?
Thiago balançou a cabeça de concordância
- Bem... Não tenho certeza... Ela não respondeu bem, um dia quando nos estudávamos juntos, a um colega que falou que o cabelo dela era ruim.
Eles ficaram em silencio por mais alguns metros
- Você tem realmente certeza que não sabe da reação dela? – perguntou Thiago
Matheus refletiu um pouco
- Prever as reações dela é mais complicado do que ter que salvar um país de um tirano que mantém uma cidade sob o domínio de criaturas que tem aversão ao sol.
Thiago não conseguiu se conter:
- Vai por mim, não é não.

Thiago não conseguiu dormir imediatamente (como conseguia fazer normalmente), pois suas emoções estavam tão intensas quanto o possível, só lá para as duas da madrugada ele caiu no sono.
Ele olhou para abaixo e viu o chão – eu estou voando – pensou, antes de perceber uma coluna de ar de um quilometro de diâmetro se elevar no céu de dentro de um galpão, ate poucos metros abaixo dele, depois ele avistou o que queria – um ponto escuro do outro lado da coluna.
Então a imagem tremeu.
Ele se viu numa sala sem mobílias (apesar de estar vendo-as), do outro lado estava Baltazar velho e absurdamente calmo, ele abriu a boca.
- O que você esta fazendo aqui? – cortou Thiago
- Só vim para avisá-lo de que não sou o único que quer a sua destruição e é fruto de seu corpo...
Então a imagem tremeu.
O chão passava velozmente sobre seus pés, que na verdade eram pés e mãos, porem não era dele, pois eram peludos.
Então a imagem tremeu.
E Thiago não estava vendo nada, mas sentiu uma sensação gélida no peito.


Thiago acordou sobressaltado, ele olhou para os braços e viu que estava suando, ele também percebeu que o colchão estava molhado assim como seu cabelo estava grudado na cabeça, por causa do suor.
Matheus estava do lado dele arfando.
- Faz dez minutos que você está gritando “não, não” ai você diz “nããããããããããããão”.
- Eu... Tive um pesadelo.
- Você disse que não tinha mais pesadelos... O que aconteceu?
- Bem... – ele pensou bem antes de prosseguir, mas ele chegou à conclusão que nada aconteceria – um... Estranho... E ele falou algo, eu não me lembro.
- Você realmente está bem?
- To. – bufou e se virou de costas para Matheus.
Querendo meu mal... Fruto do meu corpo... Outro clone?
Meio impossível, pois as pesquisas estão estagnadas... A única pessoa capaz de fazer isso é o dono da empresa Corpus, que já produziu um clone de um ratinho. Mas um ser humano. Nem no futuro, que só tinha um.
E ele morreu com quatorze.
Ele fingiu que estava dormindo para Matheus. Estava agitado demais para dormir novamente.
Mas lentamente o sono embalou-o, e ele reviveu novamente imagens da Avenida Capitalismo, e a imagem Titã do Baltazar. A morte lhe sussurrou “você está na lista”.