segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A ESTRANHA OBSERVAÇÃO

Era dia três de fevereiro. Há quinze dias Thiago recebera um olho roxo do seu melhor amigo. Agora já tinha desaparecido, e mesmo Thiago tinha se esquecido dela. Suas preocupações tinham sido outras (apesar de sua conta ter chegado a “Rá a vigésima nona”), dentre elas a mais importante foi como a Mariana estava se sentindo.
Ela estava sofrendo, com certeza; ninguém nunca ia sofrer ficar tanto tempo longe da família. E também deveria haver torturas, físicas e psicológicas. Toda vez que ele pensava nessa possibilidade, dava vontade de soltar um Poder da Morte às cegas em todos que tivessem participando da organização. Mas aí então vinha a voz da lógica: “a prisão parece muito pior do que a morte rápida e indolor”.
Nesse ponto a voz valia a pena ser ouvida. Uma morte rápida e indolor provocada pelo Poder não era um castigo o suficiente. Eles deveriam mofar na prisão, e ter uma morte longa e dolorosa. Também pelo motivo que, quem iria sofrer mais, era a família do integrante.
E quando ele chegava nessa questão, se angustiava.
A Mariana só fora seqüestrada por causa disso: iria machucar o Thiago, mantê-lo quieto.
Era para eles já estarem se preparando para as aulas, que teoricamente começariam na próxima segunda-feira. Se eu não tivesse pegado o cd; se eu não tivesse o concertado; se eu não tivesse visto, acreditado... Sou culpado de tudo...
Mas o que teria ocorrido nessas duas semanas com a Mariana? Ninguém estaria sofrendo, óbvio; será que ele teria coragem para chamá-la em namoro? Nisso uma cena veio à sua mente, a mesma que vinha lhe torturando havia meses: em que ele a pedia em namoro e ela, com cara de risada, dizia que não gostava dele, mas que estava apaixonada por Matheus. Essa cena era imaginação dele, mas mesmo assim ele se sentia mal só de pensá-la.
Ele se levantou da cama, sem um pingo de sono, e se sentou na escrivaninha. Pegou um papel do caderno e um lápis. Parou com o lápis no ar e, com um impulso, começou a redigir um bilhete:

Mariana.

Não há palavras para descrever o que venho a escrever aqui. No dia em que você se mudou para cá, 25 de novembro, eu estava realmente muito feliz, por motivos próprios, e, ao ver você, me senti muito mais radiante.
De tudo que eu senti na hora (admito que foi um bambear de pernas), teve algo meio que sombrio, quase um mau pressentimento, do que viria depois. Passei os dois meses seguintes atento a qualquer coisa fora do normal que viesse a seguir.
A sua festa de aniversario foi à festa que eu mais gostei de ter participado. Mesmo sendo 10° e ao receber o bolo (sim, eu me lembro) senti que era privilegiado. E quando você foi seqüestrada, senti que era meu dever salva-la. Para ser sincero, quis mesmo ir até onde fosse possível para te salvar, mas não foi possível.
Minha simpatia por você cresceu ao ponto de virar amor paixão.
Tanto que eu gostaria que você namorasse comigo.
Não sei exatamente como lidar com isso. Você parece ser realmente algouém bom demais para mim, bom para se amar, mas não sei, bom demais para se ter como companhia, e não sei se sou merecedor disso.
Parte de mim quer, não, exige que você esteja ao meu lado, mas outra quer que você seja feliz, e os fatos dizem que você não será ao meu lado.

Ele olhou o resultado final do bilhete e, sem hesitar, o amassou e tacou contra a parede oposta.
Ridículo. Absurdamente ridículo. Não me lembro de ter escrito algo tão digno de riso quanto isso!
Ele olhou para a janela. A chuva parou um pouco, novamente. Ela tinha chegado no domingo, e não dera uma trégua maior do que ligeiros 30 minutos. Raros carros que passavam na rua faziam o típico barulho que dava sono no Thiago. Mas toda vez que ele pensava no nome Mariana, seu sono fugia. A preocupação com o seu bem-estar era suficiente para deixá-lo angustiado.
Como ele não tinha mais nada para fazer, e não tinha sono o suficiente para voltar a dormir, ele lançou um Poder Lacrativo de Som na porta e ligou o computador. Vou ver até o final do documento. Vou me preparar desde já.
Havia, ao todo, trinta passos. Alguns eram maiores do que uma página. Um deles, o Passo 6, acontecera na segunda-feira, dia primeiro. Um grave acidente numa rodovia que corta a cidade. Uma das colunas que sustentavam um viaduto tinha ruído, levando abaixo parte da estrutura. O Passo levava desde acido sulfúrico a três caminhões de duas toneladas cada.
Os outros “Passos” também tinha acidentes e, como Thiago pôde perceber, sem muitas vítimas. Um vazamento de gás, um roubo valioso, um ou dois seqüestros importantes marcados futuramente.
Lá pelo final do documento, no passo de número trinta, a coisa começou a ficar interessante.

Passo 30

Ao chegar nesse passo, às realizações anteriores deverão estar quitadas. Provavelmente no dia 31 de março (poderá ocorrer dias antes ou dias depois) haverá uma assembléia que reunirá todas as autoridades para a verificação da situação.
A “Situação” será avaliada logo após a realização do Passo 29 (o descarrilamento do trem que conterá material para a modernização do hospital – evento já marcado e confirmado pelos contados da prefeitura), que provocará um estopim no caos. Tal fato irá forçá-los a promover a assembléia para decidir o que irá ser feito.
Em tal dia, abriremos o duto de gás inflamável (enriquecido para ficar mais denso) na cidade. O gás irá formar um “lençol” no chão, cobrindo-o.
Entrementes, será lançado um míssil, nomeado F3 – GH465, como alvo a empresa Corpus. O míssil (como demonstração de desempenho o vídeo Destruição de cidade cenográfica com o F3 – GH465) acionará a combustão do gás inflamável, destruindo, assim, todo e qualquer prédio ou vida presentes em um raio de 80 quilômetros.

Obs.: A qualquer sinal de que a operação será desmascarada, o Passo 30 será transporto para primeira estância imediatamente. Talvez não dê para ser liberto o gás, mas o nível de destruição será equivalente.

Thiago olhou para aquele pedaço de tela três vezes. Por pouco eu não adianto a destruição da cidade. Ele sentiu o estomago leve. Essa era a Observação de que ele tinha falado, duas semanas atrás.
Seus olhos bateram no título do vídeo “Destruição de cidade cenográfica com o F3 – GH465”. Então esse era o motivo do documento ser tão pesado só com trinta e quatro paginas; havia um vídeo. Agora, como ele foi posto lá sem estar visível no cd era um mistério para o Thiago.
Ele levou a setinha até em cima do atalho. Preciso ver do que isso é capaz.
O Media Player abriu assim que ele clicou. Pensou um pouco e então, após achar o vídeo, iniciou a demonstração. Primeiro, apareceu na tela de fundo preto o titulo do vídeo, depois, um pequeno texto:

Em um lugar deserto ao norte da cidade, foi construída uma cidade cenográfica. Ela foi montada a 1.000 metros abaixo do nível do solo e, instalada com quatro câmeras. A câmera A foi instalada quinhentos metros acima, tento então uma visão aérea da cidade.

A tela então exibiu uma imagem aérea de uma cidade completamente deserta, situada no fundo do que parecia ser uma grande vasilha retangular de pedra. A cidade possuía menos de um quarto do que prometia o míssil, e em compensação, tinha vários prédios, e um maior que todos, inteiramente de vidro exteriormente, imitando o prédio da empresa Corpus. A tela voltou a ficar preta.

A câmera B foi instalada no topo do prédio “empresa Corpus”, voltada para o chão. Essa câmera possui uma redoma de vidro blindado para protegê-lo do impacto da explosão, dando então maior tempo de visualização.

Uma imagem apareceu, mostrando uma das faces do prédio. A sessenta andares abaixo, estava o chão, onde estava localizado um carro. A tela tornou a ficar preta.

A câmera C foi instalada em um quintal de uma das casas perto da fronteira. Também foi instalada uma redoma de vidro blindado. O objetivo da câmera é mostrar a potência da explosão.

A imagem seguinte foi uma vista panorâmica da cidade de um só lado da tela, do outro, estava um grande paredão de pedra marrom-claro. A tela tornou a ficar preta.

Ainda foram instaladas mais duas câmeras adjacentes. Uma é a câmera D (ela pegará a imagem ao nível do solo) e a câmera E (que está em um helicóptero).

A seguir, terá a seqüência editada dos danos provocados pelo F3 – GH465.

A tela começou então a mostrar uma imagem do solo e no canto da imagem estava um grande e amarelo E. Um míssil vermelho passou voando direto para uma cratera aberta bem adiante. Lá perto ele se elevou um pouquinho e então mergulhou, sumindo. A imagem piscou e mostrou uma grande visão aérea a letra “D”. Incrivelmente, toda a cidade coube naquela tela. O ponto vermelho desceu pelo paredão, fazendo a tela piscar novamente. A visão aérea agora era diagonal e a letra era A, o míssil vermelho passou bem na sua frente e continuou a descida. A câmera C mostrou o míssil fazendo a curva para então planar em direção do prédio.
Thiago prendeu a respiração. Ele iria ver agora do quê aquele míssil era capaz. A imagem mudou para a câmera B, e no reflexo do prédio vinha vindo um pontinho. Esse ponto cresceu e então entrou no campo de visão da câmera, para então se chocar com prédio.
A explosão seria instantânea, a não ser o fato de que a imagem parou.
Quando ele foi verificar o que tinha acontecido com o computador, viu que ele não conseguia se mover. A explicação para esse fato demorou a vir à cabeça: Divagação Momentânea.
Era a segunda vez em sua vida que ele experimentava essa sensação. Uma sensação de que, apesar da posição do corpo, estava descansando. Porém, dessa vez, não tina movimento dos olhos. Na tela, estava o prédio (com os vidros estilhaçando) e o míssil.
A sua mente começou a ir para a Mariana. Seu sofrimento por estar longe da família... Quando o equivalente há cinco minutos passou tudo começou a ficar tedioso e, assim que se fecharam dez minutos, a tela do computador voltou a se mover em câmera lenta. Um segundo depois, o Tempo voltou a rodar.
Uma bola de fogo cresceu do prédio, enquanto uma onda de combustão subia prédio acima, estilhaçando o prédio, e por fim, reduziu a nada o vidro blindado.
A imagem mudou para a câmera A, mostrando o fogo descendo prédio abaixo para então entrar em contato com o gás... A imagem mudou para C, e um anel de combustão varreu a cidade, demolindo tudo e destruindo o vidro blindado. O fogo engoliu a câmera, e ela perdeu o sinal...
A imagem mudou para E, mostrando o anel de combustão se expandir para a borda da cidade, enquanto o prédio bambeava para frente... A câmera A mostrou o prédio, para então depois um forte impacto tremer a imagem e então o chão começar a se aproximar cada vez mais... Voltando ao ângulo E, uma enorme placa de pedra se desprendeu da parede, a placa onde estava a câmera A... A câmera A foi engolida pelas chamas, e saiu do ar.
O ângulo mudou para B, mostrando o prédio se precipitar para frente, caindo em direção ao solo, para então sair do ar... O vermelho vivo do fogo tomou toda a imagem da câmera E... E na câmera D umas labaredas pareciam sair do solo...
Tudo voltou a ficar preto:

A capacidade da bomba em estado bruto e sem nenhum aditivo é 10 quilotons.

Fim da demonstração do F3 – GH465.

Ele olhou para a tela, que iria recomeçar a demonstração. Matheus precisa ver isso.
Ele fechou a janela do Media Player. A tela voltou a mostrar o texto e Thiago percebeu algo que lhe tinha escapado da primeira vez: uma nota de rodapé no fim do texto. E o que estava escrito o deixou perplexo.

Sede da Organização: Rua das Caneletas, n° 1.824 – Centro.
Horário das reuniões: da 00h00min às 02h30min da madrugada. Segunda a Sábado. Aos domingos, até a 01h30min.

Agora entendia tudo. Por isso que ele não podia entregar o cd à polícia. Pois o cd tinha o endereço dos terroristas. Tendo o endereço, em dois palitos a polícia podia prendê-los. E então... E então, o míssil seria solto, com ou sem gás inflamável, e a cidade inteira iria ruir. O tempo começou a esfriar (Thiago estava só com uma calça de tecido fino que ele normalmente usava, e a camisa do pijama devia ter parado em baixo da cama, como ele fazia quando estava com calor durante a noite, tirava a camisa dormindo) agora que o calor dos cobertores sumiu, mas ele ainda estava absorto na tela do computador.
Eu tinha há tanto tempo. Eu tinha o endereço deles há tanto tempo. Podia ter acabado com isso antes mesmo de começar e não, fiquei de bobão que sou...
Eu estaria agora dormindo calmamente.
Ele olhou no relógio da tela, eram ainda meia-noite e meia. Se der, eu posso chamar o Matheus e nós juntos podemos ir até a reunião. Dá tempo de nós chegarmos lá para o fim e... Ele hesitou um pouco; será que ele vai querer ir?Será que ele vai me deixar ir? Às vezes parece que ele já é adulto.
Thiago começou a se despir. Que se dane. Eu vou e ponto final. É minha responsabilidade e eu preciso arcar com as conseqüências.
Ele desligou o computador, colocou o cd no bolso e retirou o poder da porta. Desceu cuidadosamente as escadas e saiu de casa.
O frio da madrugada o engolfou, gelando as partes expostas. Algumas gotas caiam continuamente do telhado. O chão brilhava amarelo com a luz dos postes. A imagem tornou-se para Thiago um espetáculo. Ele retirou o celular do bolso e tirou uma foto. Mostrarei para a Mariana quando ela voltar.
Ele sentiu uma pontada no coração. Se ela morrer... Agora ele entendia todo aquele respeito pela Morte que as pessoas tinham, que antes lhe parecera besteira. Mas ela é sádica. Ele, ela; não sei. Se houvesse algum jeito... Algum jeito de chamar a Morte que ele conhecera meses atrás... Chamar-lhe... Intimar para que mantivesse a Mariana viva...
Precisava agir... Não podia deixá-la assim, à mercê do Destino... Ele se lembrava das falas da Morte: “E nesse dia, junto à bancada do Juiz Supremo, estará o representante da Morte da época, e o representante do Destino da época, outro empregado divino...” o Destino... Um que não ajudara em nada nas últimas vezes...
Muito pelo ao contrario... Sussurrou uma voz em seus ouvidos; se não fosse assim, o Poder-do-Universo jamais teria ficado contigo. Pense em todas as aberrações da lógica em que você e seu povo se baseiam e verá as minhas ações...
Era óbvio que aquilo não vinha de sua cabeça, mas o sono o fez tirar isso do raciocínio, se eu for entender tudo o que me acontece, irei ficar louco.
Thiago atravessou a rua e chegou à casa de Matheus. Ao lado do quarto do amigo tinha uma grande árvore; velha e grossa o bastante para aquentá-lo.
Ele flexionou os joelhos, se preparou e então... A imagem se dissolveu, e então, quando tudo voltou ao normal, ele estava sentado num galho bem grosso da árvore. Ela é boa o suficiente como explicação de como cheguei aqui, mas demora muito até subir aqui em cima. E eu não quero me molhar.
Thiago estava de frente à janela de Matheus. O vidro e a madeira estavam fechados. Ele não sabia agora o que fazer.
Se chamasse pelo amigo, poderia acabar acordando os outros. Se tacasse uma pedra, também. Telefonar, idem. Um plano se formou em sua mente do nada e, sem saber direito o porquê, pensou: Queria poder não fazer isso.
Ele fechou os olhos, se concentrando ao máximo. E então, com um calor muito bem-vindo, ele entrou no Mundo dos Sonhos.
Ele agora se via num grande salão de mármore. Do outro lado do aposento tinha um balcão de madeira. Thiago se aproximou, com o máximo de cautela. O recepcionista não levantou a cabeça até Thiago ficar bem próximo.
- Quem você vai alertar em sonho, Destino? – ele levantou a cabeça.
A sombra do sorriso no rosto do recepcionista desapareceu. O recepcionista aparentava ter mais de setenta anos, mas seus olhos expressavam séculos e mais séculos naquele lugar. Esses mesmos olhos, brincalhões, tinham obvia surpresa.
- O seu quarto... – tentou contornar.
- Não tem quarto. – Thiago cortou. Não devia ser normal um humano entrar naquele salão, sem mais nem menos. E aquela devia ser uma desculpa básica. Se bem que tem cara mesmo de hotel luxuoso.
- É. Realmente não tem. – ele concordou. – mas o que o jovem faz aqui?
- Gostaria de uma informação e um pedido, se não te prejudicarem. – emendou, queria parecer gentil – arrancava mais favores.
- Dependendo do que estiver ao meu alcance...
- Queria saber se há chance de que eu interferir em um sonho e sono de uma pessoa, aqui, agora.
Os olhos do velho ainda o encararam curioso, pedindo mais explicações.
- Se dá para eu interferir nesse mundo no sonho de uma pessoa e acordá-la – explicou, com uma ponta de nervosismo.
O velho pesquisou entre os papéis em sua mesa, seus olhos um tanto arregalados. Thiago tentou puxar assunto depois de dois minutos parado olhando o velho remexendo os papéis.
- Por que a surpresa? – perguntou.
- Por que não é muito normal um, se me perdoa a palavra, adolescente saber fazer o Ritual do Mundo dos Sonhos.
- E eu não sei – respondeu automaticamente – vim aqui com um Poder.
O velho parou de remexer nos papéis por um instante.
- Pensei que os poderes seriam criados daqui algum tempo.
- E serão, mas eu fiz uma visi... Fizeram uma visita do futuro para cá, e eu acabei tomando.
- Por isso daqueles sonhos estranhos que fui incumbido de encomendar...
E voltou para os papéis. Uma idéia passou pela cabeça de Thiago.
- Como o senhor sabia sobre o Poder-do-Universo?
- O Destino me contou... Ele às vezes conta alguns de seus planos...
Como para completar seu discurso, a porta atrás de Thiago bateu ao se abrir. Ele se virou e viu um enorme vulto se aproximar do balcão. Agora que olhava, ele percebeu uma grande placa acima da porta: MUNDO DOS VIVOS.
O vulto se parecia com a Morte que Thiago conhecera; fora o fato que o de agora estava enrolado numa capa de lã branca, e não carregava espada. Assim que ele encostou-se ao balcão, retirou o capuz.
Uma cabeça de um rapaz de vinte e poucos anos apareceu. Tinha o cabelo meticulosamente arrumado, a barba toda tirada, e dentes brancos – Thiago sempre olhava para os dentes – como de um comercial de pasta de dentes, apesar de um pouco tortos.
- O Senhor já encomendou o Sonho Premonístico da Neve? Preciso passá-lo ao Bernardo de Souza o quanto antes, duvido que isso irá mudar sua decisão, mas pelo menos creio que irá fazê-lo refletir. Ele vai sofrer um bocado... – sua voz possuía um tom de pesar muito grande, voz essa que Thiago reconheceu por ter ouvido pouco antes. A sua prendida de respiração alertou o homem de sua presença. – temos uma visita hoje... O meu velho amigo já lhe deu a chave do seu quarto? – perguntou para o Thiago.
- Ele já sabe – alertou o velho, como se pedisse a ele para que não insultasse a inteligência de Thiago. O velho entregou ao homem um papel – aqui está. O Miguel irá trazê-lo, junto de outros sonhos um pouco mais comuns – disse ironicamente. – Daqui a pouco você terá que pedir desculpas a ele. – emendou.
- Por quê?
- Por que você está o fazendo ir muito para o futuro capturar imagens para os seus sonhos premonitórios. A freqüência com está fazendo isso pode tirar a paciência de até um anjo graduado como ele.
- O Arcanjo Miguel, você está querendo dizer? – perguntou Thiago incrédulo.
- Sim – respondeu o homem – mas não poderá vê-lo. Não creio que ele se deixará ser visto por um humano, sem ofensas. Os Arcanjos não são tão sociáveis quantos os outros Celestiais. Apesar de você já ter visto a Morte e uma Intermediária, conhecida por você como Lívia, não acho que o Arcanjo ache você muito digno. E deixe eu me apresentar – ele fez um floreio – eu sou o Destino.
- Você que falou comigo hoje, sobre o Poder-do-Universo?
Ele fez uma cara de criança pega em uma travessura.
- Desculpe, não quis parecer rude. Mas não agüentei ao ouvir suas injurias.
- Por que manteve os Poderes comigo?
- Por que você precisaria deles. Serão muito úteis no futuro.
- Mas foi por causa deles que eu meti a Mariana nessa enrascada!
- Quando eu digo futuro – ele continuou imperturbável – é futuro não tão próximo, mas não muito longe. Bom, a conversa esteve boa, mas eu preciso ir. O Arcanjo não vai querer entrar contigo aqui, e sei que vai demorar um pouco para você sair.
Então o Destino rumou para a porta intitulada MUNDO DOS MORTOS I: CELESTES, e sumiu. Thiago ficou um bom tempo olhando para a porta antes de se virar para o Velho.
- Que sonho era aquele que ele se referia?
- Acho que não preciso falar, parece-me que você ganhará um igualzinho em breve – seu tom de voz lembrava papai-noel – respondendo à sua pergunta, sim você pode interferir... E olha o que eu achei.
Ele lhe passou um bilhete. Thiago o pegou e tentou decifrar as pequenas letras organizadas na mais pura caligrafia:

Velho Ezequiel,

Devo pedir-lhe que conceda permissão a um viajante para que utilize de nossos recursos do Sonho.

Do seu amigo,
Destino.

- Nome completo da pessoa?
- Amigo – respondeu Thiago roucamente, afetado pelo quão o Destino podia saber sobre os humanos.
- Amigo. – repetiu o velho, encorajando-o.
- Matheus Marques da Costa.

UNIDOS PELA DOR

O caminho de volta foi silencioso. Ninguém queria falar, os três mantiveram-se de cabeça baixa. Thiago manteve-se quieto, como Matheus, por que sabia o que aquilo significava. Ou há alguém muito influente. Essas palavras vieram a sua cabeça.
Sou influente por que estou com o cd. Não foi pura coincidência.
Os seus olhos bateram em uma carta no chão. Seu aspecto não era de uma carta que tinha caído acidentalmente. Ele a pegou e sentiu meio atônito; ela estava endereçada a: Lívia Souza de Melo, Matheus Marques da Costa e Thiago Vinicius Rodrigues.
Thiago a virou para ver quem mandara: Invisível. Mas o que os chocou foi a letra de quem tinha mandado, a Mariana. Ele abriu a carta, que continha só uma folha sulfite dobrada em quatro. Ele a desdobrou tremulamente, prevendo o que veria.
Ocupando quase toda a folha se encontrava uma imagem de Mariana, presa em uma cadeira. Lívia abafou um gritinho. Matheus o fitava, mas não o culpava.
Estivera tão certo que o amigo o reprovava que ele se surpreendeu quando viu que a reação de Matheus foi um “tudo bem, estou com você”.
Lívia olhou chocada para os dois pela falta de reação.
- Nós já sabíamos – explicou Thiago.
Lívia olhou de Thiago para Matheus, ligando dois mais dois. Ela apontou para o olho roxo de Thiago, com a boca aberta.
A falta de voz da amiga não provocou nenhuma surpresa em Thiago. Mas quando ela durou mais de um minuto ele se mexeu para a direita, impaciente. Apesar de seu movimento brusco, os olhos dela não se mexeram, assim como suas mãos, e nem parecia que ela respirava.
Ele andou até ela, curioso, mas ela manteve-se estática, sem mover um músculo. Ele pegou na mão dela, que estava quente. Matheus também estava estático, olhando a reação da Lívia. E, Thiago só percebera agora, tudo mantinha-se quieto. Não pode ser uma Divagação Momentânea. As Divagações que têm movimento são muito raras e essa seria a minha segunda. Mas o que seria então?
Ele se virou para ver o fim da rua. Os pássaros estavam parados no ar, no meio de um vôo. Caminhando lentamente, ele foi até o meio da rua. Enquanto olhava para o fim da rua, um pedaço do ar no meio da rua tremeluziu como se visto através do calor e então viu um vulto surgir do nada. O vulto estava agasalhado como se tivesse saído em uma nevasca. Estava de jaquetão (que parecia cobrir três ou quatro blusas de lã), uma calça térmica e toca. Assim que o “tremor de calor” parou, vários flocos de neve se desprenderam dele, para depois parar flutuando no ar, seguindo a influência do Tempo.
Agora Thiago sabia o que estava fazendo aquilo; era um Poder de Tempo. O garoto sob as várias camadas de roupas se aproximou, apontando para Thiago. Ele próprio se aproximou, curioso, e olhou para o rosto familiar dele. Por um lapso primitivo, ele tentou reconhecer o garoto, e, relacionando-o ao rosto que ele via todo dia no espelho, reconheceu a si mesmo. Mas isso não pode acontecer! A não ser...
- Não! – gritou o outro Thiago, três ou quatro anos mais velho.
Tarde demais. Assim que chegou à conclusão que estava olhando para si mesmo do futuro, uma imensa luz desceu dos céus, em direção aos dois eu do Thiago.
Ele sentiu uma dor cruciante na coluna, vergando-o para trás. O grito saiu silencioso, pois ele estava com a garganta travada. Os dois caíram, de joelhos no chão. O clarão amarelo se manteve por mais dois segundos antes de desvanecer, deixando o dia novamente azul, com algumas nuvens que rumavam para o sul.
- Sorte nossa que eu tive tempo de amenizar o Choque-Temporal. – comentou o Thiago do futuro.
- Por que está aqui? – perguntou Thiago do presente, entre lágrimas.
- Por que preciso entregar algo para você.
- Não posso recebê-lo na hora certa?
- Como você acha que eu o recebi? – seus olhos expressavam “te peguei” – é só uma pulseira.
- Pra quê preciso dela?
- Na hora você saberá. Mais do que isso não posso revelar.– ele estendeu uma pulseira de prata, que Thiago colocou no pulso direito.
- Onde eu estou? Quer dizer, no seu tempo?
- Aqui mesmo.
- Mas aqui não neva!
- Eu sei. E por esse motivo você vai precisar dessa pulseira – ele colocou a mão no relógio – só não se esqueça de passar essa pulseira para si mesmo, como eu fiz. Grandes conseqüências aconteceram se você esquecer.
- Animador. – murmurou ironicamente o Thiago do presente.
- E não se preocupe, a vai tudo acabar bem.
- Como posso salva-la? – assaltou para o Thiago do futuro, cogitando perguntar como tudo aconteceu – como posso tentar salva-la sem que eles a matem?
- Não posso contar, outro Choque-Temporal pode acontecer... – ele pensou um pouco – apenas diga: Ferrari formus espontanae. Dará certo. – sussurrou – acho melhor voltar para a Lívia – ela não vai virar mais uma anja – que vai ser melhor.
Thiago correu para ficar de volta à frente da Lívia, como antes. O Thiago do futuro acionou o relógio, e o calor o fez desapareceu. Da forma que, há muito e muito tempo atrás, o Diogo tinha lhe falado que acontecia para uma terceira pessoa.
Uma pulseira e uma fórmula. Acho que não me lembrei como odeio enigmas.
O tempo voltou, trazendo-o de volta para a realidade.

Thiago deu uma olhada no pequeno grupo à sua frente.
Seu pai, mediano e forte – com músculos mesmo – sentado no sofá, abraçado a mãe de Thiago, Sara, a quem Thiago tinha herdado à pele branca e o cabelos meio loiros, que conversava com Maria, a mãe de Mariana, que tinha os cabelos volumosos e ondulados como os da filha, ela estava calma agora, mas ainda era possível ver as lágrimas em seu rosto. O seu marido, o Silas, estava encostado na batente da porta da sala. Ele estava em estado de choque, e estava sendo acalmado pelo Alberto e pelo Carlos, o pai da Lívia. A Miriam e a Juliana voltavam da cozinha, trazendo um lanchinho para todos. O Thiago via tudo isso sentado na escada, ele estava ao lado de Matheus, que fora expulso do seu lugar ao lado da Lívia por Hugo, o irmão mais velho dela – e futuro presidente – que tinha um ciúme enorme dela. Thiago via tudo isso através do olho esquerdo, por que o direito estava tampado com um bife. Quando todos viram o olho dele, sua conta chegou a “Rá à décima sexta”, pois o Hugo o chateou cinco vezes.
Os adultos conversavam em grupinhos, excluindo os mais jovens. O Hugo tentou por três vezes se interar na conversa, mas era sempre escorraçado pela mãe. Ele agora conversava com o Thiago, pelo motivo que evitava conversar com o Matheus e, da posição em que estavam à conversa dos dois cortava qualquer tentativa de aproximação de Matheus à Lívia.
- Que sorte a de vocês, não terem aula por um mês a mais.
- Detalhe que depois nós vamos ter que repô-las. E adivinha o horário? Sábados. – disse desgostosamente.
Era estranho estar sentado ao lado do futuro presidente. Segundo as lembranças de Thiago, Hugo assumiria a presidência dali a seis anos. O pior é que ele nem tinha jeito de que iria assumir um cargo daqueles.
- Do que você está trabalhando? – perguntou, puxando assunto.
- Auxiliar de Mecânica – disse orgulhoso.
- É um bico de mecânico que ele conseguiu – corrigiu a irmã – nada tão surpreendente.
Matheus deu uma risadinha, mas foi fuzilado pelo olhar do Hugo. Ele podia não dar medo, mas ainda sim era mais forte e mais velho.
- Pode ser um bico sim – respondeu ao Thiago, decidindo não discutir com a irmã – mas é para juntar dinheiro para a minha faculdade.
- E vai ser de...?
- Direito.
Thiago mordeu a língua com força para não rir. A imagem do Hugo com terno e gravata e seus cabelos, que desconheciam um pente, arrumados de gel num estilo formal era o suficiente para arrancar gargalhadas. Ele não riu para não ferir os sentimentos do amigo e também por que a situação não era nem um pouco engraçada. O estranho era que ele não estava sentindo um pingo de apreensão. Seu subconsciente lhe dizia que tudo ia dar certo e, quando seu subconsciente falava, era tiro e queda.
Mas até quando eu estarei certo? Às vezes também erro. Será que eu estou errado agora?
A voz da Lívia o trouxe de volta à realidade:
- E como anda o nosso trabalho?
- Já comecei a desenvolver a música – mentiu – vocês acham que vão fazer mal a Mariana?
- Talvez – respondeu Hugo e, ao ver a cara de todos, ele se apressou a acrescentar – mas nada muito grave.
Thiago abocanhou sem pressa o seu lanche. Será que o Hugo desconfiava de algo? Não haveria como, o único que conhecia o cd além dele era o Matheus. Será que ele deveria contar a todo mundo? Sua mãe ligou a televisão, em que passava a mulher do tempo. Todos olharam desanimados para a TV. Seguiu-se uma noticia sobre a escola, e então uma chamada puxou a atenção de Thiago: a Avenida Capitalismo estava começando a ser construída. O repórter informou que a avenida, quando finalizada, seria a maior avenida do país.
Ele se levantou pesado pelas responsabilidades, e gesticulou um “vou pro meu quarto”. Não tava a fim de puxar um papo longo. O dia em si fora longo. Nem parecia que tinha sido hoje que todo mundo soube da Mariana. Que ele contara ao Matheus. Que ele tinha levado um soco. Reencontrado a Júlia. Descoberto a escola do jeito que estava...
Ele andava pelo corredor da escola, atônito. A parede detrás dele explodiu, revelando o chefe do Invisível. Mariana vinha na frente. Ela apontou o dedo para ele:
- Você é o culpado...
- Eu gosto de você! – ele gritou.
- Se gostasse não teria feito isso comigo!
- Não foi de propósito. Eu te amo!
Mas Matheus se aproximou e, no instante seguinte, ele abraçou a Mariana e os dois se beijaram na frente de Thiago.
Ele acordou sobressaltado. Precisava salva-la, mas será que ele conseguiria dessa vez bancar o herói?

A MINHA ESCOLA

Marcos deu um bocejo bem grande enquanto se esticava, espreguiçando-se. O café-da-manhã o tinha deixado sonolento.
No dia anterior, quase doze horas atrás, ele fora chamado antes do almoço por um problema no Sistema. Ele, juntamente de Constante, tinham ido verificar o problema, e descobriram algo extremamente assombrante. Como conseqüência, eles passaram o dia inteiro pesquisando e, de pesquisa em pesquisa, eles acabaram ficando sem almoço e sem janta, só sustentados por bolachinhas e alguns salgados. Isso combinado com o fato de ter dormido duas horas naquela noite, resultou nesse bocejo.
Ele abriu a caixa de mensagens do seu e-mail, e seus olhos percorreram a longa lista de “TESTE DE LÓGICA”, “NOVOS RESULTADOS DAS CIRURGIAS”, “GANHE PONTOS COM AS MULHERES”. Ele parou para refletir o porquê de tantos spams no seu e-mail quando percebeu que tinha entrado no endereço pessoal. Ele já ia mudar de endereço quando seus olhos perceberam um e-mail diferente: Invisível.
O assunto chamou sua atenção e ele abriu o e-mail. Ele procurou o endereço de quem havia mandado e ficou pasmo: terroristasinvisivel@hotmail.com.

Bom dia Chefe de Segurança.
Venho por esse e-mail expressar o meu espanto ao ver a sua coragem ao se expor no jornal. Não pense que venho até aqui dizer que vou parar ou que me vendo através de suborno para parar. Não, definitivamente não.
O motivo de eu ter o trabalho de criar uma conta para mandar uma mensagem ao senhor foi algo bem diferente. Eu mandei essa mensagem para deixar registrado que nós seqüestramos uma garota de quatorze, quinze anos e que a devolveremos assim que nosso objetivo estiver concluído. E que se ela por “acaso” morrer no meio de uma invasão, se vocês chegarem a nos encontrar, tem provas para conseguir a sua demissão. Que se dará, coincidentemente, com o fim do nosso objetivo, coisa que não vai ser muito boa, para vocês.
E peço para que você não gaste esforços em tentar hackear esse endereço, pois se vocês tentarem vão receber outra dose de vírus. E que qualquer palavra que sair daqui, é a sentença de morte da garota.
Atenciosamente.

Ele terminou de ler a mensagem de queixo caído. Precisava agir rápido, era sua responsabilidade, antes que a cidade virasse cinza.

Thiago tinha levado para o quarto o jornal para lê-lo no quarto. Não queria ser interrompido enquanto lia sobre o ataque. O clima na cozinha não era um dos melhores, seria até suportável, se Thiago não fosse o culpado e não conseguisse fingir o contrario por muito mais tempo. Agora ele estava sentado na cama, lendo-o:

O grupo terrorista Invisível tem dado muito mais dor de cabeça às autoridades do que o normal. Após terem atacado a praça central e o parque, o grupo agora atacou o Sistema da prefeitura.
Contando com mais de um Terabyte de informações sobre os moradores de nossa cidade, o Sistema continha desde informações de assembléias a informações individuais de cada morador que nasceu e morreu aqui.
O ataque ocorreu diretamente ao computador, em que se foi instalado um vírus conhecido com “Delta”, um símbolo matemático que é representado pelo símbolo ∆.
“Estamos realmente muito apreensivos” comenta o prefeito Umberto, vice antes da morte do Roberto Inácio “é quase certeza de que esse vírus foi implantado por um integrante do grupo terrorista Invisível. O nome é sugestivo demais para ser somente coincidência. Vírus Delta. Ao passo que delta é um triângulo. Sem contar que quem implantou o vírus passou pela segurança.”
Matéria completa na página 07.

Thiago ficou perplexo. Delta. Um triângulo. Ele realmente tinha que tirar o chapéu para o chefe do grupo. Agora ele via que tinha o dever de falar com o Matheus, contar a verdade a ele.
Mas como? O seu telefone estava grampeado; os celulares também deveriam estar então como falar com o Matheus sem que o Invisível soubesse?
A campainha tocou, despertando-o do sonho. Ele correu até a escada:
- Eu atendo! – gritou para os pais.
Ele abriu a porta, dando de cara com o Matheus e seus pais.
- Oi Matheus, oi Sra. Miriam, oi Sr. Alberto. – cumprimentou.
- Olá. – cumprimentaram em uníssono – e não precisa nos chamar de Senhor e Senhora. Nós já falamos que dispensamos isso – disse Miriam. Ela sempre ficava nervosa quando ele a chamava de senhora. Apesar de ela ter 39 anos, ela dizia que a “senhora” a envelhecia.
- Meus pais estão na cozinha. – informou ele quando o trio entrou.
- Você já recebeu a noticia? – ela perguntou em um tom maternal.
- Sim – ele respondeu – o Matheus pode ir para o meu quarto?
- Claro – respondeu Alberto, sua voz (que era mais grave de todo mundo que Thiago conhecia) enchendo a casa.
- Alberto? Você está aí? – gritou o pai de Thiago, lá da cozinha, fazendo uma pausa para esperar o rouco “sim” em resposta – vem aqui.
Thiago bateu no ombro do Matheus, indicando para eles subirem. Enquanto subiam as escadas, Thiago escutou a Miriam sussurrar para o marido: “ele está em choque”.
Quando chegaram ao quarto, Thiago fechou a porta.
- Como foi com você? – perguntou Matheus, se sentando na cama.
- Que?
- Como foi que você recebeu a noticia? Hoje – começou, cortando Thiago – eu acordei, me arrumei e quando chequei na sala... Bem... Meu pai me contou que ela tinha sido seqüestrada e... Bem... Eu nunca fui tão interessado nela como você, mas... Sabe, ela era minha amiga e... Ela foi seqüestrada aqui, na porta de casa... – Thiago se espantou, seus pais não tinham lhe contado isso por quê? – podia ter sido eu, né?
- Não muito...
- Por quê? – ele perguntou desconfiado.
- Deixe eu te mostrar algo. – ele então se virou para ligar o computador. Não suportaria olhar nos olhos do amigo.
Enquanto o computador ligava, Thiago começou a brincar com o celular, jogando-o para o alto e recuperando-o, para de volta jogá-lo. Ele se lembrou que precisaria do cd para mostrar as coisas para Matheus. Quando o recuperou de trás da cama, onde tinha o deixado de “castigo”, o Matheus tentou puxar assunto:
- O quê que tem no cd? – perguntou descontraído.
- Você vai ver. – disse apenas.
O computador terminou de ligar e Thiago colocou o cd, já pronto para ser julgado.
Thiago deixou Matheus se sentar na cadeira do computador, deixando-o mais à vontade, enquanto se sentava na cama. Matheus leu o passo um, e seu rosto começou a mudar, leu o dois, e sua cara se contraiu num “o que?”, leu o passo três, e seu rosto expressava assombro e no passo quatro ele olhou intrigado para o amigo:
- Desde quando você tem esse cd?
- Eu o achei no dia em que o prefeito morreu...
- Você sabia... Você sabia o tempo todo e não contou!
Sua reação tirou o chão de Thiago. Achara que o amigo seria compreensivo.
- Você podia ter entregado a polícia, e eles já teriam preso os caras. Mas não, o guardou...
- Eu tava vendo se era compatível...
- Com a morte do prefeito você ainda tinha duvidas?
- Mas eu fui entregar o cd... – se defendeu.
- E por que ta com ele?
- Por que... O chefão do grupo me viu... Falou comigo.
A raiva de Matheus foi substituída por um “Meu Deus!”.
- O que ele disse? – perguntou, preocupado.
- Disse que... Que tinha me visto nas duas vezes em que eu fui verificar o cd e... E que tinha seqüestrado a Mariana... E que a mataria se eu entregasse o cd...
Matheus se levantou e, um segundo depois, Thiago levou uma de direita.
A força do soco jogou Thiago para trás, fazendo ele, que estava na beirada da cama, cair no chão. Reprimindo em grito de dor, ele tampou o olho direito com as mãos, desejando Matheus sair do quarto e evitar falar com ele por umas duas semanas, por causa do ego e também pelo fato de ele poder curar o olho, que ficaria roxo.
Porém nenhum dos dois se moveu. Thiago permaneceu deitado no chão, de bruços, pressionando o olho com as mãos, se segurando para não chorar, com os olhos marejados. E Matheus continuou em pé, respirando forte, não acreditando no que tinha acabado de fazer.
- Thiago... Me desculpe... Eu não...
- Silêncio. – pediu.
Matheus se calou, respeitando o amigo. Afinal, não devia ser fácil levar um soco. De vez em quando ele olhava para a própria mão direita, pensando no o que levou a fazer aquilo.
Thiago permaneceu no chão, quieto. Ele já tinha apanhado muito do Juca na escola, como todo mundo, mas nunca tinha levado um soco do seu melhor amigo. Lentamente ele se sentou, evitando olhar para o Matheus, pois o seu ego ainda estava muito ferido.
O Matheus se agachou, tentando falar com o Thiago.
- Desculpe... Eu não queria ter te batido...
Thiago queria tanto quanto o amigo que a amizade não acabasse, mas o seu orgulho ainda gritava “não ouça nada!”. Ele sabia que o amigo agiu por impulso, e que também Thiago não estava certo, mas partir para um soco?
Thiago olhou para ele, tentando formular uma resposta à altura. Mas a única coisa que saiu dos seus lábios foi:
- Por que um soco?
Matheus escondeu que estava aliviado pela reação não violenta do amigo, mas Thiago a notou pela sua voz:
- Eu agi sem pensar, sabe. Quando você falou que tinha em mãos o cd e não o entregou; que os caras te viram e que foi por isso que seqüestraram a Mariana... – ele cerrou os pulsos, evitando dar outro soco em Thiago – perdi o controle.
Thiago manteve-se calado. Não devia julgar mal o Matheus, mas soco? Por que não tapa?
- Por que não me xingou? Era mais fácil. Agente não se falava durante um ano e depois voltaríamos a conversar como se nada tivesse acontecido. Mas soco deixa marcas. Literalmente falando.
Matheus se segurou para não dar uma risada, era falta de bom-senso naquela hora.
- Desculpe...
- Tudo bem – cortou – foi só um soco e, cá entre nós, eu merecia. Não que eu pediria conscientemente, mas merecia. Mas eu precisava de alguém que me apoiasse e foi por isso que eu te escolhi para contar... Se fosse para apanhar, eu contaria para a Lívia.
- Tudo bem, de reações negativas minhas você já recebeu tudo. Agora vamos levantar – ele se levantou, estendendo a mão para ajudar o Thiago, que a pegou e ficou de pé – e me deixe ver o estrago.
Thiago tirou a mão do olho, e Matheus deu um assobio.
- É, parece que eu sou forte...
Thiago deu um empurrão nele.
- E muito convencido.
- Acho que a sua mãe vai me proibir de falar com você. – Matheus comentou – não depois de ela ver o seu olho.
- Para todos os efeitos, eu tropecei e ganhei esse olho roxo.
- Você sabe que é muito azar cair e ficar só com o olho roxo?
Thiago afirmou.
- Mas você tem outra desculpa?
- Você pode mudar para: “caí e meu olho foi direto para a mão dele”.
- Rá – riu ironicamente – to me matando de dar risada.
- Vamos andar um pouco? – sugeriu Matheus, depois de alguns minutos silenciosos.
- Ta, eu vou sair na rua parecendo uma panda. – Thiago respondeu.
- Não – corrigiu – para tanto o outro tem que estar roxo também.
- Rá ao quadrado. – ele tirou o Matheus da cadeira e se sentou.
Aproveitando que o computador estava ligado, ele olhou o próximo atentado:

Passo 5

Escolher uma escola da região para instalar uma bomba...

Thiago avançou um pouco mais a página. A descrição do passo só falava em como proceder e, o máximo que ele citava da escola escolhida era: “essa escola será escolhida de última hora. Os fatores relacionados à sua escolha serão diversificados em vários pontos e, provavelmente, algo que dê a oportunidade de instalar o caos a uma grande massa de pessoas e/ou há alguém muito influente”.
Thiago parou para refletir o passo cinco. Referências a datas também eram escassas. Deixavam a crer que seria escolhido também de ultima hora.
- Vamos lá então. – disse depois de refletir um pouco. Precisava espairecer um pouco. Isso não aconteceria dentro do seu quarto.
Os dois desceram as escadas e anunciaram aos pais que eles iam dar uma saída, sem que Thiago fosse visto.
- Pra onde nós vamos? – perguntou assim que trancaram a porta.
- A praça da cidade.
Saiu tão quase que automaticamente que Thiago se conteve para não mostrar surpresa. Não sabia dizer por que escolhera aquele lugar.
Quando deram menos de dez passos em direção à praça, eles avistaram uma garota. Ela devia ter quinze anos, e estava parada, olhando para os dois com cara de “Não acredito!”.
Crendo que eles se conheciam, ele correu para se lembrar quem era ela. Ela estava vestindo, de baixo para cima, um tênis esportivo (quem eu conhecia que usava esportivo?), um short jeans grudado que ia até o joelho (já elimina cinco), uma blusinha regata branca com um “I ♥ NY” (volta cinco). Os cabelos, de um preto intenso, iam até abaixo da orelha. Seus olhos eram cinza e iam de Thiago até o Matheus e vice-versa. Sua pele era meio bronzeada, sugerindo poucas horas do dia no sol. Seu rosto indicava “sou inocente... mas diga a coisa certa para ver o que acontece”.
A única pessoa que ele conhecia que era assim era...
- Júlia! – gritou ele, a reconhecendo de longa data. Matheus se surpreendeu:
- Ela é a Júlia?
Júlia fora sua vizinha antes de Elza, morara lá por dois anos antes de se mudar após um incidente.
Eles se aproximaram dela (correram é o termo certo) e ela abraçou Thiago:
- Que bom ver você! – exclamou – Quanto tempo! Faz o quê? Cinco anos? Cinco anos! – ela o soltou – como você mudou Garotinho. Ta mais alto, mais escuro e... Mais forte?
Thiago não sabia mais o quê estava o fazendo ficar vermelho. Se era os elogios ou o seu antigo apelido. Ela o chamava de Garotinho mesmo ele tendo só um ano a menos.
Agora Matheus o olhava:
- Ela tem razão. Você está mais forte.
Thiago sempre agradecera o fato de que o treinamento que o Diogo lhe dera fora só para flexibilidade, gerando poucos músculos. Mas o que acontecera depois, seu alojamento no futuro, tinha lhe proporcionado alguns músculos a mais que, coincidentemente, tinham ficado com os poderes. Só que eles tinham passado despercebidos, até agora.
- Quantas pessoas ficaram depois de mim? – perguntou ela, desinteressada.
- Uma, bem encrenqueira, e depois veio uma família, e a filha foi seqüestrada. – respondeu Matheus.
O peso de tudo caiu de volta ao estômago de Thiago. Tudo o que tinha acontecido nas ultimas doze horas voltou à tona, e ele levou a mão automaticamente ao olho roxo.
Júlia seguiu sua mão, mas manteve quieta, por enquanto:
- Que triste – disse ela, sentida – mas que olho de panda é esse?
- Rá ao cubo.
- Ele caiu – cortou Matheus – o que te trás aqui?
- Rever velhos amigos.
- Thiago! – gritou alguém atrás de Júlia.
Thiago olhou atrás dela e viu Lívia vindo em sua direção, correndo feito louca.
Ela parou ao lado de Júlia, murmurando um “oi” geral.
- Você não sabe o que aconteceu... Que olho de panda é esse?
- Rá elevado à quarta.
- Ele caiu – respondeu Matheus, sentindo que já falara a mesma frase.
- Ah – suspirou Lívia – mas você não sabe o que aconteceu!
- O que? – ele perguntou.
- Fui passar na escola para falar sobre o ocorrido com a Mariana e tinha um cartaz no portão da escola dizendo: “As aulas foram suspensas devido a um acidente. As aulas retornarão no dia 1° de março”. E eu dei uma olhada na escola e sabe o que eu vi – Thiago respondeu que não – as salas do meio do bloco um caíram.
- Mas como você sabe que bloco é o quê? – perguntou Matheus.
- A diretora nos mostrou – ela respondeu rispidamente – tanto que eu sei que o bloco um é da quinta a oitava, o dois é da primeira a quarta e o três é do primeiro ao terceiro grau. Ordem de motivos de construção – explicou para Júlia.
Antes que Thiago a alertasse que ela já tinha estudado lá, a Júlia se encarregou disso.
- Eu sei. Estudei lá da primeira à terceira série... – as duas se encararam por um momento.
- Lívia! Você aqui? – a indignação de Júlia surpreendeu Thiago.
- Sim.
- Você e a Mariana não tinham se mudado?
- Sim. Ela mora ali – ela apontou para a casa vizinha a Thiago – e eu moro na outra rua. E você? – havia um tom maligno em sua voz.
- Me mudei para um prédio na Rua dos Mercados.
A rua lhe parecia bastante familiar, então escapou da boca de Thiago o numero que lhe lembrava o endereço:
- 223.
- Isso mesmo... – afirmou Júlia – como você sabe?
Os três olharam para Thiago, o culpando de alguma coisa. Algo identificado de Lívia foi “como você sabe? Cachorro”.
Depois de um minuto constrangedor Thiago tentou mudar de assunto:
- Vamos até a escola ver o que aconteceu? – perguntou ao Matheus e a Lívia.
- Vamos – ela respondeu ainda brava – quer ir? – perguntou para Júlia, mais por ocasião do que por outra coisa.
- Não – ela respondeu no mesmo tom raivoso – eu vou voltar à minha casa.
A Júlia se afastou e sumiu na esquina. Assim que ela estava longe o suficiente a Lívia deu um tapa no ombro de Thiago:
- Seu bobo! – não – devia – ficar – babando – por – ela! – gritou ela, pontuando cada palavra com um tapa.
- Ai, ai, ai, ai, ai, ai, aiiii. Para! Que coisa! Eu não tava babando por ela!
- Tava sim – disse Matheus. Thiago lhe lançou um olhar “mas que amigo, hein”.
- Bobão. – continuou Lívia – a Mariana desaparecida e você babando pela Júlia...
- E qual é o problema com ela, hein? O quê que ela fez?
- ELA – explicou Lívia, irritada – é uma patricinha esnobe que fica se jogando nos garotos!
- Quê? – exclamaram Thiago e Matheus.
- Eu e a Mariana não gostávamos muito da Júlia. Ela tinha sido transferida na terceira e logo de cara nós duas não gostamos dela.
- Por quê? – perguntou Thiago.
- Por que ela era muito oferecida. – disse simplesmente.
- Deixa ver se eu entendi. – começou Matheus – ela começou a chamar mais atenção do que vocês e então vocês não simpatizaram com ela.
Essa era, basicamente, a mesma teoria que Thiago tinha pensado, mas não tinha recolhido coragem suficiente para perguntar. Pela cara dela, eles estavam certos.
- O quê você quer dizer com “começou a chamar mais atenção”?
- Mais bonita – logo depois que ele acabou de falar, Thiago percebeu que deveria ter ficado quieto.
- O QUÊ?!?!?!?! – berrou – você quer dizer que ela é mais bonita do que eu ou a Mariana?
- Não – Thiago se apressou – ele só quis dizer que vocês sentiram in...
- Inveja? – sua voz caiu num sussurro.
Ela parecia bem magoada. Começou a caminhar sozinha, na frente dos dois. Eles começaram a segui-la.
- Não foi bem inveja – ela começou a falar em tom de voz normal – eu nunca iria desejar algo ruim. Mas sabe, ela chegou à nossa escola e do dia para noite virou popular.
- É que, em minha opinião – Thiago começou – ela é bem...
- Atraente. – ela completou.
-... Chamativa. – ele corrigiu – mas agente só se reencontrou hoje, depois de cinco anos que ela tinha se mudado.
- Mas você conhecia bem o endereço dela – lembrou Matheus, antes de fazer uma careta “eu não devia ter falado isso, eu não devia ter falado isso”.
- É verdade Thiago, você conhece muito bem o endereço dela.
Enquanto ele pensava numa resposta, eles chegaram à escola.
A escola ocupava um quarteirão inteiro e era dividido em três blocos. Agora Thiago estudava no prédio principal, mas ao fim do ano ele passaria para o bloco três, o mais recente. Eles estavam na frente da entrada da secretaria, que era uma escada que ziguezagueava até o segundo andar, para ter acesso a um hall, que tinha acesso a tudo.
O cartaz que a Lívia tinha falado estava no portão ao fim da escada. Nele estava escrito: As aulas foram suspensas devido a um acidente. Todas as informações recorrentes à re-matrícula, históricos e matrículas estarão disponibilizadas no site da escola: WWW.martinsdafonsecajr.gov/informacoes/alunos. As aulas retornarão no dia 1° de março.
Thiago olhou para a sala do meio do segundo andar, não havia nenhuma. Ele sentiu desapontamento em não poder ver o resto da destruição.
Uma luz fez-se em Thiago. Parecia não haver ninguém na escola e Matheus e Lívia – ele com a mão por cima do ombro dela, coisa que quase tirou uma risada de Thiago – estavam prestando atenção na escola e não nele. Com isso ele resolveu usar poder. Ele iria usar um poder Elétrico, bom para situação.
O portão que barrava a entrada dele era elétrico. Thiago encostou a mão na fechadura da porta e descarregou um choque de freqüência baixa.
A única coisa que ele conseguiu com isso foi que Matheus e Lívia levassem um choque, e para disfarçar, ele fingiu que levara um também.
- Ai! – gritou Lívia – o que foi isso?
Thiago indicou que não sabia. Eles voltaram a sua atenção para a escola. Thiago se concentrou em um choque muito mais potente e o direcionou para o dispositivo para abrir o portão. O choque dessa vez funcionou, e a porta abriu com um solavanco seguido de um barulho que ecoou na escola inteira. Thiago, que estava apoiado na porta, a fez abrir, derrubando-o no chão.
Ele se levantou do chão ao som de gargalhadas dois outros dois.
- Do nada eu escuto um plec – começou o Matheus – depois um cataplof, e o quê que eu vejo? O Thiago estirado no chão.
- Vá se catar. – respondeu.
Os três se aproximaram da mureta:
- O que será que abriu a porta? – perguntou Lívia
- Não sei – respondeu Matheus – será que foi uma queda na energia?
- É – concordou Thiago – pode ter sido. Ou uma sobrecarga.
Ele olhou para a sala do segundo andar, havia um vazio em seu lugar. Em compensação havia um monte de escombros no primeiro andar. Os escombros escorriam até o pátio, e nele tinha marcas de fuligem.
O seu cérebro demorou dez segundos para associar a marca no chão com uma figura geométrica e então associá-la ao cd. No pátio, a fuligem marcava um triângulo.
Seus olhos procuraram os de Matheus, que o encarava, do outro lado de Lívia. Dava para ver sua expressão desejando deixar o outro olho dele roxo. Lívia mantinha seu olhar hipnotizado com a figura.
- Invisível! ¬– saiu de sua boca.

REPERCUSSÕES

Thiago voltou para casa sendo escoltado pelo Logan preto, que o seguia para certificar-se que ele não ia tentar nenhuma graça. Ele entrou em casa e ficou espiando pela janela da sala por dez minutos, e o carro não saiu do lugar, estacionado no fim da rua. E Thiago desconfiava que ele não ia sair tão cedo. Ele foi para o quarto, esperar o carro sair para falar com o Matheus.
Sua mãe o chamou à cozinha:
- Sim mãe. – disse desanimado.
- Você sabe onde está a Mariana? Ela sumiu.
- Não... – Thiago notou que estava se incriminando – Eu passei na casa dela para chamá-la para ir fazer o trabalho, mas ela não estava.
O olhar desconfiado de Sara sumiu.
- Obrigado. Pode ir e... – ela interrompeu a saída do filho – Pro almoço nós vamos ter macarrão viu?
- Ta – respondeu e foi para o quarto.
Revoltado, quando fechou a porta atrás de si ele tacou o cd na parede, que bateu e caiu atrás da cama. Ele se jogou em cima da cama, sentindo-se pesado.
Fui um idiota. Eu devia ter quebrado o cd assim que o peguei na mão. Mas a criança aqui foi burra o suficiente para guardá-lo e comparecer nos dois atentados.
E agora, ela está seqüestrada. E não pude fazer nada para evitar. Sou um imbecil. A culpa é toda minha. E o pior, nem posso tentar ir salva-la, pois vou ter que usar os meus poderes, e ela vai sofrer do Choque-Temporal.
Sou um super-herói, ironizou só que eu protejo meus amigos, ao não os contar os meus poderes, não de vilões e de suas ações, mas sim de um Choque-Temporal. Que pobre.
Preciso contar a alguém, mas quem? Ele refletiu para quem ele podia mostrar o cd. De sua lista mental, seus pais foram excluídos. Eles podem não me culpar, mas vão me condenar. Sua lista foi se enxugando até que sobraram a Lívia e o Matheus. A Lívia nunca mais vai querer me ver. Concluiu, já que os anos que elas passaram juntas as tinham tornado unha e carne. Vou contar ao Matheus... Mas vai ter que ser amanhã, senão eles vão saber que eu estou contando. Ele se levantou e foi à janela. O carro havia sumido, e não tinha ninguém suspeito na rua. Ele decidiu rapidamente o que fazer.
Tirando o telefone do gancho, e digitou o numero do Matheus.
- Alô, Matheus?
- Não, é a mãe dele Thiago.
- Posso falar com ele?
- Pode – ela chamou pelo filho e, enquanto esperava, puxou uma conversa – você está bem?
- Estou por quê?
- Sua voz... Ele está vindo.
Ele escutou o fone ser passado adiante, e Matheus atendendo.
- Thiago? O que foi?
- Você pode passar aqui?
O Matheus perguntou para a mãe.
- Sim – tornou a responder – já, já eu to aí.
E desligou.
Thiago ligou o computador, iria mostrar ao Matheus tudo o que sabia, mas manteria em segredo sobre a Mariana. Ele não sabia como contar.
O celular vibrou em seu bolso. Ele o retirou e viu que recebera uma mensagem. Quem mandou: Mariana. Thiago abriu a mensagem.

Cuidado com o que você vai falar, moleque. Sua amiguinha tem cabelos lindos demais para ficar sem eles.

Ele olhou para a mensagem, relendo-a várias vezes. Mas como...? Eles grampearam a minha casa!
A verdade chegava a ser incômoda. O grupo terrorista tinha tanta tecnologia às mãos que chegava a ser inimaginável. Estou brincado com fogo. A campainha tocou. Ele foi atender o Matheus, decidido. Já protegi essa cidade, irei proteger novamente.

Ele puxou os cabelos, nervoso com o homem à sua frente.
- Não foi isso que eu quis dizer! – gritou, nervoso.
Dez minutos atrás, o antigo Chefe de Segurança, Constante Barbosa, tinha entrado em sua antiga sala, agora sala do Marcos, com um jornal à mão. Estava vermelho como pimentão de tão nervoso, e perguntou em um discurso o quê que Marcos tinha na cabeça, o que ele achava que estava fazendo, e se ele queria ser estrangulado agora ou depois do almoço.
- Não mesmo? – ironizou o homem, pegando o jornal, com a manchete falando de Marcos – não parece: “o nosso Chefe de Segurança, Marcos Frattini Guerra, declarou ontem à imprensa que ‘esse grupo terrorista, o Invisível, é um grande conhecido nosso’. Segundo ele, a polícia conhece esse grupo terrorista que, alias, ninguém sabia ao certo se era um grupo. Por que a polícia não toma providências então?” como você pôde ter dito algo assim! – ele terminou gritando.
- Eles interpretaram errado! E só publicaram por que não têm nenhuma gravação, por que eu disse: “esse tipo de grupo terrorista, do estilo do Invisível, é um grande conhecido de nós, que estamos em contato com filmes do gênero”. Eles distorceram tudo.
- Não se pronuncia a imprensa, pensei que tivesse me ouvido.
- E ouvi. Mas não me deixariam sair de lá sem que eu tivesse falado algo. Escolhi algo bem óbvio, e distorceram.
Constante deu um sorriso presunçoso.
- O povo precisa de sensacionalismo. Ninguém acha que a notícia está contada direito sem que o repórter exagere um pouco. Esses ataques... Eles são um prato cheio para as pessoas. É uma minoria quem acha irritante o repórter que fique inconformado com tudo – sua voz abrandou – também aprendi do seu jeito. Foi um escândalo em 2001, quando um depósito de fogos explodiu. Disse a eles que iríamos verificar se o dono tinha documentação, e no dia seguinte saiu à manchete: “o nosso Chefe de Segurança deixa escapar depósito clandestino de fogos”. Acabou que o cara tinha licença, e eles engoliram um sapo desse tamanho. Quer um conselho? Fique na sua. Quando você fizer a coisa certa e desmenti-los, nunca mais eles vão falar de você.
Marcos sentou-se.
- Por onde começo? – perguntou desesperado.
- Siga a linha de raciocínio deles. – aconselhou Constante, feliz por ser chamado de volta à ativa – Primeiro: desordem. Segundo: simbolicamente falta de segurança. Terceiro: alta destruição – disse enumerando com os dedos, ele levantou o mindinho – o Quarto passo, em minha opinião, é algo para nos desorientar...
Ele foi interrompido por uma batida frenética na porta.
- Entre – anunciou Marcos.
Um homem baixo entrou na sala, estava expressando nervosismo.
- Temos um problema, chefe.
- Onde?
- No Sistema.

Matheus o encarava seriamente.
- Ela sumiu? – perguntou ele.
Thiago, no último instante, desistiu de contar ao amigo do cd. Mudara a conversa sobre o desaparecimento de Mariana.
- Parece que sim.
Matheus o fitou durante um minuto.
Thiago, curioso, estendeu a sua mente com um poder de Consciência. Ele tocou levemente a mente de Matheus, só o suficiente para escutar os pensamentos do amigo. A primeira impressão foi desconfiança.
... E como ele pôde saber assim, tão rápido. Nem a minha mãe sequer sabia. Será uma pegadinha? Mas ele está serio demais. E ultimamente ele tem andado esquisito demais e... Peraí!
Na mente de Matheus se formou a imagem de Thiago, olhando para ele com a cara emburrada.
Thiago, de reação não-pensada, ficara bravo por que o amigo tinha falado mal dele, e tinha fechado a cara. Para disfarçar, ele levou a mão às costas e começou a coçar.
- Coceira – explicou.
A desconfiança diminuiu, mas permaneceu na mente de Matheus, quieta, à espreita.

Thiago abriu os olhos. Tinha acordado sozinho. O quarto estava estranhamente escuro. O rádio-relógio marcava três e vinte e dois da manhã.
Ele se sentou na cama. Nada havia acordado ele. Nenhum sonho, que ele se lembrasse, até àquela hora. Apenas um pensamento tinha o despertado.
Culpa.
Culpa pelo o que Mariana estava sofrendo. Culpa pelo que os pais dela estavam sofrendo. Ele mesmo já tinha sentido o que é perder um familiar.
Mas agora era diferente. Agora ele era o responsável pelo desaparecimento dela. Agora, se ela morrer, todos sabiam que tiveram a chance de tê-la de volta.
O estomago dele prensou quando ele pensou na possibilidade deles matarem ela.
Calma. Você pode salva-la. Mantenha-se na sua, e bole um plano. Não corra. Tem de ser bem-feito. Sussurrou-lhe uma voz, vinda de sua consciência.
Thiago se deitou, não com a ambição de voltar a dormir. Preciso salva-la. Foi seu último pensamento antes de ser embalado no sono.

Joaquim olhou para o interior da escola.
Estava de caseiro naquela escola, o E.E. Martins da Fonseca Jr., há quarenta anos. A conhecia quase tão bem como a palma de sua mão, e eram fatos como o de hoje à noite que o faziam duvidar se conhecia a escola.
Ele estava dormindo com a sua mulher quando um barulho o acordou as 03h18min da manhã. Depois de se vestir ele saiu da casinha de quatro cômodos e subiu o pequeno morro em direção à entrada do caseiro. Essa entrada ficava no segundo e último andar e ficava ao lado da sala dos professores. Ele caminhou o mais silenciosamente do que seus setenta anos podiam permitir e verificou as portas do andar. A sala da diretoria; secretaria; banheiros; sala dos professores; sala da coordenação, todas fechadas. Das sete portas existentes daquele lado da escola naquele andar, quatro eram as que possuíam coisas de valor. Ele caminhou de volta a porta de entrada do caseiro, a ultima do corredor, talvez foi paranóia. Pensou.
Outro barulho chegou a seus ouvidos. O barulho de porta sendo aberta veio do andar de baixo. Ele se aproximou da mureta, que chegava aos seus ombros, e olhou para baixo. No instante que olhou, viu um vulto pular os muros da escola, fugindo. Seus olhos percorreram as portas das salas, procurando uma arrombada. Além dela, a única coisa diferente era uma trilha de água no pátio.
A porta em questão era a porta da sala do meio, sua fechadura estava arrombada (com certeza o barulho que o acordara). Mas o que o intrigava era o fato de não ter nada de valor naquela sala. Por que então arrombá-la?
A resposta veio quase que instantaneamente. Um barulho ensurdecedor se chocou contra ele logo após uma bola de fogo desmoronar a parede da sala, jogando a porta metros longe. A força da combustão empurrou Joaquim para trás, fazendo-o cair sentado.
Apesar do ocorrido, ele sentiu uma pontada de humilhação, pelo fato de não conseguir se levantar.
Mas um grito reverteu tudo isso:
- Quim! – gritou sua mulher – Quim! Você está aí!
Apesar dos 68 anos, ela ainda conseguia correr relativamente rápido.
Atrás dela vinha o seu filho, de trinta anos. Ele foi mais rápido que ela e o levantou. Seu rosto mal barbeado amarelado pela luz do fogo.
- Pai, o senhor está bem? – sua esposa, Maria acabara de chegar.
- Estou, mas... Explodiu! – explicou ele, bobamente. Ele se aproximou do muro, para poder se ver melhor.
No instante seguinte, a sala correspondente ao segundo andar cedeu , fazendo desmoronar também parte do corredor de acesso as portas do andar de cima. O desmoronamento provocou uma densa nuvem de fumaça.
Porém a nuvem de fumaça não conseguiu apagar uma marca. Maria e seu filho se aproximaram e também a viram. Os três emudeceram.
Queimando em óleo, estava um triângulo.

Thiago acordou novamente às nove horas, sem um pingo de sono.
Ele se vestiu e desceu as escadas, para tomar café. Assim que passou pela porta da sala, viu que lá tinha um jornal. A manchete chamou os olhos de Thiago: TERRORISTAS ATACAM NOVAMENTE.
Seu queixo caiu. Estivera tão irritado com o cd que nem olhara para ver onde seria o próximo ataque. Ele desviou da sala. Não queria se envolver mais. Queria jogar a responsabilidade para alguém, não tava mais no pique do futuro, em que se aventurava corajosamente e arriscava palpites de ultima hora.
Mas tudo mudou. Thiago voltara à realidade – ou assim raciocinava seu cérebro – e tudo perdera um quê de não é de verdade. E, alem disso, havia outro ponto. Como Thiago relutava em admitir, o que estava acontecendo era presente, não futuro. Suas decisões aqui e agora tinham também peso. Se Mariana morresse, fim. Não daria para ele voltar ao presente e deixar tudo acontecer e na hora H salva-la.
Era diferente de sair voando e carregá-la de volta. Ele precisa entrar no esconderijo, tirá-la de lá e ir direto a polícia. E para tanto, primeiro ele precisaria do endereço. Coisa até então inexistente.
Outro ponto era o fato de que se Thiago entregasse o cd, o “Invisível” poderia alterar um ataque ou a data. Não seguir necessariamente o cd como script total. Mas então, qual é a importância dele? Se eles podiam transformar ele em falso, por que ele queria evitar que chegasse até a polícia? Por que ele deveria lê-lo até o final?
Thiago balançou esses assuntos da cabeça. É de manhã e eu to com fome. E, além disso, tinha a tarde inteira livre.
Quando ele chegou à cozinha, viu que não tinha mais escapatória. O seu pai estava sentado à mesa, com o café intocado, com o telefone na mão e o caderno de telefones na outra; a sua mãe estava encostada na pia, segurando bem aflita o pano de prato. Os dois pareciam em choque, mas estavam controlados.
Sara o viu entrar na cozinha e correu para perto dele:
- Venha filho... Sente-se – pediu ela.
- O que foi que houve? – perguntou ele fingindo desconhecer.
Sara olhou para o marido, em busca de apoio. Seus olhos se encontraram e então, como a maioria dos pais fazia, conversaram por olhar. Depois de alguns segundos Sara olhou de volta para o Thiago.
- Acabamos de receber a noticia de que... Bem... – ela se calou procurando as palavras certas, mas incapaz de achá-las – lembra que você tinha ido fazer o trabalho e, bem, não achou a Mariana?
- Hum.
- Então... Ela foi... Seqüestrada.
Thiago manteve-se calado. Ele continuou a fitá-la como se esperasse que ela desmentisse. Por mais que tivesse ciência de tudo, a situação era pior do que ele tinha previsto. O silencio da agonia silenciosa dos seus pais era insuportável. Thiago preferia um escândalo à La novela-mexicana. Vendo que Thiago não respondia, ela continuou:
- Os seqüestradores mandaram contato hoje de manhã. Falaram para a Maria não entrar em pânico por que eles cuidariam dela, e que não entrassem em contato com a polícia, pois senão eles receberiam “o presunto mais bonitinho do mundo”. Os seqüestradores falaram também que, o culpado de ela ter sido seqüestrada, foi alguém aqui da região.
Thiago se sentiu sem chão. Era quase como se tivessem espancado ele à quase-morte.
Os terroristas tinham dedado ele. Não foi uma coisa direta como um “foi o Thiago”, mas tinham feito uma indicação de que morava na região. O que eles queriam? Dar um susto?
Thiago balbuciou as palavras “eu vou para o meu quarto” e saiu da cozinha.
Precisava pensar. E rápido.

DILEMA

Thiago sentou-se na cama, depois de acordar pela segunda vez. Eram nove e meia, e, apesar de saber que ainda era o mesmo dia, sua mente teimava que aquela explosão tinha ocorrido no dia anterior.
Sua mente estava tentando assimilar os fatos ocorridos. Aquela explosão, contando com a combustão que tinha o empurrado e as labaredas, não era coisas de um dia-a-dia normal do Thiago antes da carta. Todos os acontecimentos faziam parte do dia-a-dia do Thiago do futuro. Maldito poder, se não fosse você, eu não teria concertado o cd. Pensou, depois, deu uma risada. Nós, humanos, precisamos culpar alguém. Mesmo se ele decidisse destruir o cd, continuaria com a responsabilidade a martelar seu bom-senso. Entregando o cd, retirava – da forma mais primitiva possível – a responsabilidade de seus ombros.
Ele se arrumou com roupa de sair e, enquanto se trocava, pensava em uma desculpa para a saída. Não posso contar a verdade... Posso falar que vou fazer trabalho. Mas o Matheus não pode saber por que vou à delegacia... Esqueci, ele tem consulta hoje. A Mariana.
Ele desceu para o café, e foi recebido pela sua mãe, que estava sentada à mesa fazendo palavras cruzadas:
- Oi filho, bom dia. O seu pai foi buscar pão.
- Mãe, posso te pedir uma coisa? – perguntou, sentindo a costumeira dor de barriga que sentia toda vez que estava mentindo.
- Sim – ela tirou os olhos das palavras cruzadas.
- Eu posso fazer trabalho na casa da Cíntia hoje?
- E você pede isso agora? – sua voz tinha um tom de bronca.
- É que eu esqueci. – disse simplesmente. A porta da sala abriu.
- Tente não se esquecer. Pode sim. Agora vamos tomar café.
Eles tomaram café na sala, para poder ver TV e descobrir o que foi o barulho de manhã cedo. O jornal da manhã mostrou imagens do parque, que teve um quarto de sua área queimada e, se não fosse o barulho da explosão, o um quarto de área queimada não seria do parque, mas sim da cidade. O barulho foi proposital.
Quando deram onze horas Thiago saiu para fazer o “trabalho”. Mas primeiro, ele foi direto para a casa de Mariana.
- Ela não está aqui não. – Disse a mãe dela.
- Obrigado – respondeu Thiago, sem muita convicção.
O jeito foi ele caminhar sozinho, com o cd na mão.
Enquanto andava, Thiago ia pensando em vários assuntos. Por duas vezes imaginou situações diversas envolvendo a revelação de sua paixão por Mariana. Quase perto da delegacia, ele começou a pensar em alguns motivos para o documento ser tão pesado. Se, pelo que Thiago tinha visto, o documento só tinha trinta e três páginas. Mais uma vez, ele se odiou por não ter visto o documento inteiro, mas lembrou do motivo. Quanto menos eu me envolver, melhor. Posso tirar o meu corpo fora sem me prejudicar.
Thiago chegou ao centro da praça, e deu uma olhada em volta para reconhecê-la.
A praça onde estava não era a praça central, onde ocorrera o atentado, por isso era duas vezes menor. No centro dela havia uma “ilha de cimento”, rodeada pela grama, que só possuía quatro divisórias que serviam para ligar o centro da praça à calçada. A praça em si era mais que um ponto de encontro, mas servia também como retorno, tanto da Avenida da Fé, fazendo com que seu formato fosse um circulo. A avenida em si era reta a maior parte do caminho, exceto algumas curvas não muito acentuadas. Mas o que tornava aquele lugar excepcional era o fato que a avenida fazia uma curva acentuada para a direita, se abria por causa da praça e, logo após se juntar, fazia novamente a curva para a direita, fazendo a pessoa que estava utilizando a avenida, em direção para o interior (pois essa era a melhor entrada para a Estrada do Frei) fosse à mesma direção de que veio por uns vinte metros, para logo após fazer uma curva para esquerda, depois esquerda, esquerda novamente e por fim direita, voltando ao sentido original. Tudo isso pois o bairro local não quis que o campinho (instalado lá há mais de setenta e oito anos) fosse arrancado. Em virtude disso, vendo que a delegacia teria que ser destruída para a construção da estrada, a delegacia fora incluída na lista de patrimônios a serem preservados, juntamente da escola local, outro prejuízo iminente ao desvio da avenida. Justificando o desvio imenso da avenida e tantas viradas para a esquerda.
Voltados para o centro da praça havia bancos de concreto, que davam de cara para as mesinhas e cadeiras também de concreto, que serviam mais para jogos do que para conversas. À frente de Thiago, do outro lado da esquina, estava à delegacia, uma construção antiga (datada do começo do século dezoito) de dois andares. Essa delegacia servia mais para B.O.s e trinta prisioneiros no prédio inteiro. À sua esquerda estava o campinho, que despertava em Thiago, toda vez que o olhava, a lembrança de quando soltou o primeiro poder, um de Suspensão no Ar. Agora, que toda a verdade estava assentada e os fatos ocorridos a dois messes, a lembrança da morte de Diogo não o entristecia. Aquele devaneio trouxe, repentinamente, imagens dos seres malignos e da batalha que presenciara, e ele se obrigou a fechar os olhos e agradecer o sol que o banhava.
A loja APSE estava ao seu lado direito, e os seus quinze andares de loja ainda espantavam as pessoas que passavam ali perto. Da praça, Thiago localizou a janela do quarto em que tinha ficado no futuro, as condições agora eram bem melhores.
Uma coisa repentinamente intrigou Thiago. Ele olhou para a esquerda, para verificar onde o campinho estava situado. Então, atrás de seus olhos, ele formou uma imagem da vista da janela do seu quarto, no décimo quinto andar, do campinho. A única coisa que denunciava a existência do campinho era um desnível de alguns centímetros do tamanho do mato em comparação ao redor. Ele se lembrou de uma das aulas de Diogo:
- Alguns anos depois do seu tempo, em 2012, para ser exato, um abalo sísmico atingiu a cidade, o que transformou algumas das construções perigosas demais para moradia e/ou comercio. Como medida, as pessoas pegaram as roupas e documentos e se mudaram, deixando as casas para as reformas. Como medida preventiva, a prefeitura adiou por cinco meses o começo das reformas, para que alguma casa não matasse um funcionário. Quando o prazo acabou, todas as famílias já estavam se virando. A prefeitura, por comodidade, deixou de fazer as reformas. Por isso existem várias áreas urbanas abandonadas, como por exemplo, o campinho.
O mato devia ter crescido bastante, então. Pensou. Atrás dele haviam séries de lojas de todos os tipos. Agora vazias pela concorrência do prédio tão perto.
Vou lá, pensou, meu tempo livre à tarde vai ser muito bom.

Andrews dirigia o carro com muito cuidado.
Ele seguia pela Avenida da Fé com cautela. O seu disfarce com o Logan era muito pouco provável de ser furado. Apesar de ser um carro caro, o Logan era muito vendido, e ninguém estranharia um desses passeando na rua. E esse tipo de carro justificava a pouca visibilidade que as pessoas tinham de fora para dentro das janelas. Ao seu lado, estava Jorge. Ele olhava impaciente para o celular, à espera do telefonema. Andrews torcia para que tocasse logo, pois aí o trabalho seria rápido, prático. E ele não precisaria ficar dando voltas e mais voltas no mesmo trecho, evitando ser descoberto. No banco detrás estava sua convidada especial, para tornar o trabalho muito mais fácil...
Sua linha de raciocínio foi desviada pela música “American Boy”, e ele levou instantes para reconhecer como toque do celular.
- Desculpe – pediu Jorge sob o olhar de reprovação de Andrews. – Alô?
Depois que a pessoa do outro lado da linha disse sua identidade, Jorge colocou o celular na viva-voz.
- E aí? – Perguntou Andrews.
- Está aqui, faço algo?
- Não – respondeu para o Bruno – tenho algo para melhorar a barganha.
- O que é?¬
- Fique olhando para o Logan preto, você vai descobrir.
Andrews estacionou o carro na frente de uma loja de doces, abarrotada de crianças da escola. Ele pegou o celular da mão do Jorge e finalizou a ligação.
- Deixe que eu abro – foi sua ultima recomendação, antes de sair do carro.

Thiago se preparou para andar quando sua perna vibrou.
Depois de alguns segundos ele se lembrou que ele tinha um celular. Rapidamente ele o tirou do bolso, para então ver o nome da Mariana na tela. Ele atendeu.
- Alô Mariana.
- Não, não é ela – respondeu uma voz masculina.
Thiago se assustou.
- Quem é? – perguntando com o máximo de inocência possível.
- No momento não importa – respondeu a voz jovial – o que realmente importa é você.
- Do que está falando?
- Do cd. Sei o que ele contém.
Por um impulso obtido com anos de criança que apronta, ele tentou esconder o cd. “Não tente esconde-lo” aconselhou a voz “você vai preferir assim”.
- Como você tem tanta certeza que o cd está comigo? E que cd é esse? – acrescentou, tentando formar uma imagem de inocente.
- Vou responder a segunda primeiro: é o cd que contem todas as informações dos planos que a organização terrorista “Invisível” tem. E eu tenho certeza por que você fez a burrada de comparecer aos dois atentados públicos. Seria uma coincidência a não ser que você estava às sete horas da manhã no parque, uma vez que ele deveria estar deserto. – a voz perdeu o tom de explicação – você anda vendo muito filme de policial, garoto.
- Você quer o cd de volta? – Thiago abandonou o fingimento.
O homem visivelmente aprovou o jogo aberto.
- Não, não. Pode ficar. Temos vários dele.
- Então, o que você quer?
- Que você não o entregue. Qualquer tentativa de aviso a polícia e nós mudamos a grade, ou... Tem ainda a observação.
- Que observação? – perguntou Thiago, sem entender.
- Você não leu até o final? – voz estava visivelmente curiosa.
- Por que, deveria?
- Não muito. – a voz estava entre aliviada e contente – mas faz o seguinte, não entrega para a polícia.
- Por que eu te obedeceria?
- Por que você é inteligente e não faria isso.
- Tente – desafiou. Thiago tinha tido experiências suficientes no futuro para se defender e, caso precisasse, bastava algumas palavras para evocar um Choque-Temporal.
- Garoto, garoto... Isso não é um jogo de truco. – aconselhou – olhe para trás.
Thiago se virou, olhando para as lojas. Um carro preto, estacionado em frente à loja de doces, chamou sua atenção. Apoiado no carro estava um homem olhando para ele. O homem acenou e sua boca se mexeu, no mesmo instante a voz no celular voltou:
- Eu lhe apresento o chefe do “Invisível”. – ele fez um floreio com a mão livre – e, também te apresento o motivo do “bico-calado”.
Ele abriu a porta do passageiro, revelando um bolo que sugeria uma pessoa. Quando os seus olhos conseguiram discernir o que era o que, ele percebeu que essa pessoa estava amarrada, a juba de ondas castanhas caia da cabeça inclinada, sugerindo que essa garota (palpite de Thiago) tinha tido um ataque de choro.
- Levante a cabeça e olhe para fora. – falou o homem longe do celular.
A garota obedeceu, olhando em direção de Thiago. Os cabelos se afastaram, revelando Mariana. Ela estava com a boca amordaçada pela fita prateada. De súbito, após o susto inicial, ele imaginou onde que aquelas fitas eram vendidas, e imaginou uma loja chamada ELSI: Especialidades para Ladrões, Seqüestradores e Infratores. A simples imagem de um cara no balcão, entregando uma arma, munição, a fita e dois tíquetes para a retirada de bombas e perguntando: “mais alguma coisa, senhor? Não? Então pode ir ao caixa quatro, por favor.” Fez com que Thiago sentisse uma enorme vontade de rir, e ele se controlou o máximo para não gargalhar. É sério. Ela está seqüestrada... Ele se acalmou, mas a imagem voltou, trazendo consigo outro acesso de riso. Concentre-se, ela está em perigo. Disse a si mesmo enquanto mordia o lábio inferior. Ela precisa de sua ajuda, mas um poder não pode ser, tem muita gente olhando.
O homem fechou a porta do carro.
- Tenho a sua ajuda de boa vontade?
Thiago se conflitou por dois segundos. Vai isso mesmo. Decidiu.
- Tem.
- Que bom – ele abriu a porta do carro, no motorista – e lembre-se: entrega o cd, a matamos.
A chamada se encerrou, deixando Thiago com o celular colado no ouvido.

Marcos olhou para a sua escrivaninha, notando a bagunça.
Ele tinha sido promovido no dia primeiro para ser o Chefe de Segurança da cidade, um cargo que até então, na sua vida como delegado, só ouvira raramente. E, apesar de tão pouco tempo (dezoito dias) no trabalho, a cidade agora passava por dificuldades inimagináveis. O prefeito morto, a estátua e o parque destruídos e uma organização terrorista – isso não é trabalho de uma pessoa só – que atua bem debaixo do nosso nariz. Por que na minha gestão?
Se esses acontecimentos tivessem ocorrido vinte dias ou um mês antes, ele não seria culpado. Mas, por um capricho do destino, isso acontecia só com ele. O pior era os seus superiores o culpando pelos acontecimentos. “Falta de pulso firme” é o que diziam. “Você não sabe nada de segurança”. E ele não podia jogar tudo para o ar por que uma demissão nesse emprego significava suicídio na carreira.
Sua vida tinha virado um inferno, era fato. Mas agora ele temia era outra coisa: o próximo ataque. Onde seria? Seu alvo? Quando? Ele mergulhou o rosto nas mãos, se escondendo de tudo o mais. A prefeitura já não é problema meu, o vice subiu ao poder, a estátua está sendo reconstruída e o parque reflorestado, mas algo me diz que o próximo vai causar muito mais danos. Como ele adoraria se atirar em baixo das cobertas, afagado pela sua mãe. Mas não podia.
Ele aceitou o emprego. Não fora retirado de seu réveillon para nada. Era questão de honra. Aquele dia não seria em vão.
Marcos amaldiçoou aquele trinta de dezembro de dois mil e nove.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

DESAPARECIMENTO

Thiago foi dormir dez e meia, e assim que trancou o quarto, vedou-o com um poder Contra-Auditivo, para impedir que qualquer som saísse de lá. A finalidade disso é que agora ele iria ligar o computador, para ver onde será o próximo ataque, e os pais dele deixaram uma regra em casa: “nada de computador ligado depois das nove e meia”.

Parte 3

O parque da cidade é composto de Três mil metros quadrados de área arborizada...no meio do parque há um lago...7h30min da manhã...

Ele desligou tudo depois de ler essas informações. Preciso acordar as quinze para sete. Fico lá esperando... Mas os portões do parque só se abrem as oito... Dã, eles não querem publico.
Ele programou o despertador do celular para despertar quinze para sete e foi dormir, embalado pela expectativa.

Ele andava no corredor do prédio abandonado, em direção à Sala de Reuniões. Andrews repassava tudo o que teria que falar agora. Ele tinha adorado a repercussão que tinha tido o primeiro ataque, ainda mais a cara de bobo do apresentador do jornal quando viu a imagem aérea.
Andrews não gostava muito do que estava fazendo, atacar a própria cidade, mas era necessário. Ainda mais agora, que começaram. Tinha deixado de ser brincadeira quando os três rapazes tinham se unido naquele quarto, no dia 15 de agosto de 2008, uma sexta-feira. Ele se lembrava de tudo.
O local era um Centro de Tratamentos Psicológicos filiada à empresa de manipulações genéticas Corpus, apesar deles não terem nenhuma doença mental.
Na tarde daquele dia, 15 de agosto, ele e mais dois rapazes, Jorge e Bruno, de vinte um anos de idade cada, foram chamados à diretoria do Centro, e eles passaram vários minutos discutindo sobre medicina com o diretor. O que os mantiveram prestando atenção no diretor do Centro foi à primeira frase que ele disse: “Vocês vão descobrir o porquê de estarem aqui”.
No meio da conversa apareceu um homem esquisito de 36 anos, que pediu desculpas pelo atraso e perguntou se ele tinha contado.
- Não – respondeu o diretor.
Então quem tomou o rumo da conversa foi o outro, que se disse dono da empresa Corpus. Ele deu uma aula rápida de como é feito o corpo humano, e Andrews achou que era pelo mesmo motivo do diretor: não saber outro tipo de assunto, a não ser medicina. E depois de um pequeno discurso sobre um grupo de estudos, revelou a eles o verdadeiro motivo de estarem ali.
O choque inicial foi substituído por uma raiva imensa e, à noite, os três se reuniram, planejando destruir a cidade que tinha destruído o sentido da vida deles.
Eles fugiram na mesma noite e, depois que se instalaram naquele prédio abandonado, começaram a juntar pessoas à sua própria causa. Alguns eram mauricinhos endinheirados que patrocinaram a maior parte dos equipamentos (ilegais). Tanto que todos que estavam lá, com exceção dos três, era por motivos de revolta com o sistema político, e não vingança.
Ele abriu a porta do cômodo, e foi recebido por varias repetições do seu próprio nome. Ele localizou Bruno e Jorge na sala, e depois notou os outros trinta que levavam o terrorismo deles à sério.
- Está indo tudo de vento em polpa. Tanto que ganhamos um nome da polícia: Invisível. Sinceramente eu gostei do nome. Agora, falando dos ataques, a nossa idéia deu mais que certo. Todo mundo ta doidinho. Mas parece que temos um problema.

Thiago acordou com o segundo toque do celular, e se perguntou como os seus pais não acordaram com a barulheira. O poder Contra-Auditivo. Me esqueci de tirá-lo.
Ele se trocou correndo, já que faltavam cinco para as sete. Quando estava pronto, desceu silenciosamente as escadas e saiu de casa sem fazer nenhum barulho. Olhou para a rua com um momento de “o quê que eu faço” e lembrou para que direção era o parque.
Ele parou assim que deu o primeiro passo. Se eu for a pé só vou chegar lá umas oito horas. Ele pensou em uma alternativa e riu dela. Se eu pegar o carro do meu pai ele vai arrancar meu couro... Como eu chego lá? Ele olhou para as próprias mãos, Poder.
Ele fechou os olhos e quis estar no parque.
Depois de contar até cinco, abriu os olhos, relutando em voltar a dormir. Preciso voltar a acordar cedo, senão não vou acordar quando as aulas voltarem.
A ultima vez em que ele tinha estado no parque foi quando ele tinha nove anos, num passeio. Por isso ele mal se lembrava do parque. A uns três metros dele tinha um mapa do parque, com um ponto totalmente visível a Thiago escrito “você esta aqui!”. Ele se aproximou e gravou o melhor lugar para chegar mais rápido no lago. Vai ter que ser pela mata fechada.
Ele caminhou por cinco minutos entre as árvores, indo sempre em direção reta, para não se perder. Enquanto andava, ele viu um vulto passar entre duas árvores a uma distancia considerável:
- Quem está aí? – perguntou.
Um silêncio respondeu de volta. Foi uma ilusão. É de manhã, to com sono, e estou coberto por árvores, dá pra se confundir. Ele sentiu-se obrigado a segui-lo, mas olhou no relógio: 7h18min.
Mais um pouco de caminhada deu no lago de cem metros de distancia, de uma margem a outra. Ele estava numa depressão no solo, cercado por várias colinas que, em relação ao lago, chegavam a quarenta metros de altura. Onde estava Thiago era o final da área arborizada, e o começo da graminha que se estendia morro abaixo até as margens do lago. Pela hora da manhã, poucos raios de sol atingiam o lago, impedidos pelas arvores, deixando o lago preto-amarelado. Velejando nele ia um barquinho de um metro de comprimento, ele se mexia de acordo com o vento, que o levava para o meio do lago. Thiago pensou ter visto outra sombra, mas negou a si mesmo. To com sono.
Ele olhou no relógio: 7h22min. Ele se acomodou numa das raízes de uma das árvores da borda e fechou os olhos.

O bip do relógio o acordou. Ele olhou para o pulso: 7h29min15seg. Ele se desencostou do tronco e se manteve sentado na raiz, mas sem encosto.
Demorei só quinze segundo para acordar? Que milagre.
Ele olhou para o lago, depois que o relógio marcou 35 segundos. Ele se xingou baixinho por não ter lido o passo três até o final. Ele pensou que seria um míssil, já que o lago era raso o suficiente para a explosão. Mas por que o lago? E se não for explosão? E se for uma radioatividade?... To viajando. Mas se for algo não visível?
Sua conta mental chegou a 50.
Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois...
O barquinho que estava no meio do lago explodiu, e com a explosão uma onda de calor se chocou contra Thiago, o derrubando para trás, no mesmo instante que um som cem vezes mais forte de explosão comprimiu seus tímpanos.
Sentindo que seu corpo foi esfolado, ele abriu os olhos, para ver uma chuva de folhas caindo das copas das árvores, que voltavam à posição original, lembrando o final de uma ventania.
Ele se pôs de pé com um pouco de dificuldade, e olhou para o lago, para ver o que aconteceu. Assim que viu o lago, percebeu que o preto-amarelado da água não era cor original, mas era óleo. Gasolina.
O lago inteiro estava em chamas, com labaredas amarelo-ouro que ultrapassavam setenta metros. O calor lá estava insuportável, e as chamas começavam a avançar pela grama.
A consciência de Thiago o mandava apagar o fogo antes que ele incendiasse o parque inteiro, mas a razão o mandava voltar para casa. Não podia correr o risco de ser descoberto.
Desculpe-me mata, mas não dá.
Ele configurou o relógio dele para 7h28min naquele mesmo dia, e imaginou o próprio quarto. A fumaça o envolveu. Assim que ela cessou, ele estava novamente em casa. Thiago colocou o pijama novamente e deitou na cama.
Um som grave ecoou no quarto, vibrando as janelas. Era o som da explosão, pois o rádio-relógio marcava sete e meia. Mas não fazia lógica, uma vez que a casa deles ficava a dois quilômetros do parque.
A imagem das labaredas o lembrou que a explosão foi em nível do barulho.
- Thiago? Você está aí? – perguntou a mãe dele enquanto batia na porta.
- To. – respondeu.
- E você ouviu?
- Sim. – ele se levantou e abriu a porta.
- O que você acha que foi?
Ele balançou a cabeça negativamente.
- Tomara que não foi um posto de gasolina. – Thiago reprimiu uma risada. Mães tinham a mania de achar que tudo de ruim pode acontecer.
- Vou dormir. – ele respondeu.
- Você se revirou pouco essa noite, hein.
- Por quê?
- Ta todo descabelado.
Ele fechou a porta e, antes de voltar a dormiu, foi ao banheiro verificar o que sua mãe tinha dito. Mas eu penteei o cabelo antes de sair de casa e...
Thiago verificou que sua mãe não havia mentido: estava todo descabelado. A explosão deve ter me descabelado... Preciso cortar o cabelo, daqui a pouco o gel não vai dar conta.
Ele voltou para debaixo das cobertas.
Amanhã... Hoje, sem falta, eu entrego esse cd. Está tudo compatível.
Eu entrego, e me livro das responsabilidades.

ESTÁ TUDO MAL

Thiago acordou às oito da manhã, não podia se atrasar.
Sara e Gabriel estavam sentados na mesa, tomando café.
- Como é ter quatorze? – perguntou seu pai.
- Bom – respondeu simplesmente – e como foi à convenção.
- Pode conversar com a gente, mas não grite – pediu Sara.
- Desculpe – sussurrou – como foi?
- Foi bom. Bebemos a quantidade de cerveja de graça por um ano inteiro. Teve um cara que bebeu além da conta e destruiu o estoque de uma das barracas, inundou o chão de cerveja. O cara teve que pagar mais de dois mil pelo prejuízo e mil de fiança. Mas, além disso, tinha um cara lá muito suspeito.
Thiago tomou o café e saiu de casa, dando uma desculpa que ia andar com a Mariana. Ele foi até a casa dela e tocou a campainha, e enquanto esperava olhou no relógio: 09h15min.
A porta se abriu, e apareceu Mariana de regata e shorts de uma antiga calça jeans que fora cortada, a sua altura era o meio das coxas.
- Sim? – perguntou ela, meio constrangida.
- Oi Mariana, posso te pedir um favor?
- Claro – ela respondeu, abaixando inutilmente o short.
- Eu quero caminhar um pouco sozinho, mas eu falei para os meus pais que eu ia sair... Andar com você, e eu precisava que, caso meu pai ou minha mãe pergunte para seus pais eles confirmem.
- Pode deixar – Ela tentou abaixar o short novamente – mas para aonde você vai?
- Na praça.
- Ta bom. – ela bateu a porta, finalizando a conversa e o constrangimento.
Ele foi até a praça, confirmar se o cd era verdadeiro.

Dez horas. Praça central da cidade.
A praça era um monumento, para se falar a verdade. Bem no meio dela havia uma estátua de um Desbravador apontando para uma das direções cardeais, que Thiago não sabia especificar. Ela tinha cinco metros de altura. A uns quinze metros da estátua tinha uma fonte. O estrago da convenção de bebidas ainda era visível. As barraquinhas, agora evacuadas, se instalaram em volta da estátua, então tinha lixo para todo lado, junto de dezenas de litros de cerveja espalhados para todo lado. Tinha um homem da prefeitura jogando sabão liquido no chão, ele colocou a garrafa no carrinho ao seu lado e começou a esfregar. Parou um pouco e foi para o próximo metro quadrado. As marcas do pequeno ritual dele cobriam quase toda a cerveja. Um cheiro extremamente forte de álcool pairava no ar. O faxineiro olhou no relógio, olhou para os lados a procura de um superior e então guardou o esfregão e foi fazer uma boquinha num carrinho de cachorro-quente. Thiago olhou no relógio: dez e onze.
Ele bateu os pés na cerveja já impaciente, querendo que aquilo acabasse logo. Um cachorro parou para beber a cerveja e percebeu que ela estava indigesta, então voltou abanando o rabo para o dono. Dez e quatorze.
Ele esquadrinhou o horizonte a procura do míssil. O achou imediatamente em forma de um ponto. Esse mesmo ponto cresceu e tomou forma, voando em direção à estátua. Thiago se preparou para o barulho.
O míssil atingiu o braço da estátua, que se transformou em uma bola de fogo. O barulho veio instantaneamente, desnorteando Thiago, o calor o esfolou. O indicador da estátua pendeu para baixo, com o cotoco incandescente e a parte final do braço amputado, aparentemente só unidos por uma viga de metal. Ele se partiu com um estrondo, fazendo o braço cair apontando para baixo. O pedaço deslocado da estátua se chocou com o chão, parecendo uma tocha, se inclinou, fazendo as chamas tocarem a cerveja.
Uma explosão de calor irrompeu pela superfície da cerveja espalhada pelo chão. Thiago deixou o instinto reagir por si próprio, que ativou um poder Temporal, parando-o instantaneamente.
Depois de alguns segundos o Thiago abriu os olhos, para olhar em volta. Uma onda de chamas amareladas cobria boa parte da cerveja. As chamas estavam a apenas três metros de distancia dele, o fazendo agradecer por ter parado o tempo. As chamas lambiam o carrinho do faxineiro, que tinham provocado um buraco por onde todo o sabão líquido iria sair naquele exato instante. Thiago achou estranho o fato de haver uma bola de fogo no lugar da garrafa que estava sendo usada para jogar o sabão no chão, uma vez que, pelo que Thiago sabia, sabão não é tão inflamável assim.
Ele só entendeu o que estava acontecendo quando olhou para o funcionário do governo. O cara ostentava uma cara de satisfação, como o que estava acontecendo era o esperado, no lugar de uma cara normal de “o que está acontecendo? Meu carrinho”. E algo a mais veio à sua cabeça. O cara suspeito na festa do dia anterior nada tinha a ver. Pois os terroristas iriam precisar de um pretexto para o liquido inflamável. O verdadeiro culpado era o bêbado, não o suspeito. Ele olhou para os próprios pés, confirmando as suas suspeitas.
A cor da cerveja em que pisava era a mesma cor da cerveja em reação com o “sabão”. Ou seja, era inflamável. Seu cérebro trabalhou rapidamente para resolver a questão. As pessoas iriam achar estranho ele sair do fogo sem nenhuma queimadura. Também achariam estranho ele evaporar e aparecer do outro lado da praça, ou nem aparecer. Ele teria que se salvar e não ficar muito na cara como conseguiu aquilo. A solução veio rapidamente.
Ele secou o chão à sua volta com calor puro, e assim que estava a uma distancia boa, ele se agachou um pouco, simulando que já tinha se abaixado. Ele fez o tempo rodar.
O calor o envolveu como numa cúpula, enquanto ele se transformava numa bolinha no chão. Ele olhou em volta e viu o fogo o fechar, queimando com o calor a pele exposta. Uma voz gritou ao fundo:
- Meu Deus do Céu! Tinha um garoto lá no meio.
Alguém – uma velha – gritou:
- Tinha. – seu tom de sarcasmo irritou Thiago de tal forma que, assim que as chamas não ofereciam perigo de queimá-lo, ele se levantou.
- É o filho do demo! – Gritou a velha novamente.
- Cala a boca! – gritou o homem, que devia ter uns trinta anos. – você está bem? – gritou para o Thiago.
- Sim – gritou em resposta. Ele olhou para o carrinho, e viu que o fogo lutava para entrar, mas a corrente de água, por mais inflamável que fosse, impedia o acesso. Depois de duas tentativas o fogo entrou, explodindo o carrinho. Um fogo líquido se espalhou para todo lado.
- Fica calmo – continuou o homem – nós já chamamos os bombeiros e...
Uma sirene o interrompeu, vinda de longe. Em menos de um minuto depois o fogo já estava sendo apagado.
- Você teve muita sorte de estar justamente na parte seca da cerveja, - continuou o homem para Thiago, depois que ele foi para um lugar seguro – deixa só a TV te pegar...
- A TV está vindo? – interrompeu Thiago, se seus pais o vissem na praça sozinho, estava frito.
O homem acenou positivamente.
Thiago agradeceu às pressas e saiu correndo de volta para casa, assim que a equipe do jornal estacionava o furgão. O trajeto não demorou mais de cinco minutos.
Quando ele virou à esquina da própria rua, ele decidiu ir primeiro à casa de Mariana:
- Já? – ela perguntou, quando abriu a porta. Sua cara se contorceu na hora em que ela viu o estado dele – o que aconteceu?
Enquanto tomava fôlego ele a empurrou casa adentro, levando-a para a sala.
- A TV... Explica... Melhor.
Ela pegou o controle remoto e ligou a televisão e colocou no canal em que passava o jornalismo naquela hora. O apresentador encheu a sala com a sua voz:
-... Urgente. Fui informado nesse exato instante que aconteceu um atentado aqui na capital. Isso mesmo, atentado igual aos de filmes de ação. Vamos trazer as imagens do helicóptero que está sobrevoando a área. É com você Tales.

Tales estava com o microfone em uma das mãos e com a outra ele apertava o fone na orelha, tentando diminuir o barulho da hélice. O câmera-man que veio junto segurava uma daquelas câmeras-jumbo, que estava fixada em um tripé que estava fixado no chão do helicóptero. Plugado à câmera estava um cabo que a ligava a uma telinha de doze polegadas que exibia exatamente o que estava sendo gravado, auxiliando para que ele narrasse a noticia. No momento o que se via era uma vista panorâmica da cidade, tremeluzida pelo calor que emanava lá de baixo.
-... Que está sobrevoando a área. É com você Tales. – anunciou o fone. Ele respirou.
- É isso mesmo, um ataque aqui na cidade até então pacata. Testemunhas afirmam que o braço explodiu sozinho.
- Você esta com uma imagem do estrago?
- Sim. Pode mostrar – sussurrou longe do microfone para o câmera-man, mantendo o olhar fixo na telinha para poder narrar.
A câmera abaixou, mostrando uma visão aérea do estrago. Ele se calou, prendendo a respiração.
Santo Deus!

Thiago, Mariana e a mãe dela (que viera da cozinha para lá e agora estava encostada no batente da porta, com um pano de prato na mão) mantinham o olhar fixo na TV, acompanhando uma imagem aérea da cidade, e assim que a câmera apontou para baixo, eles prenderam a respiração, assim como o apresentador do jornal e todas as casas da cidade.
No meio da tela estava a estatua com o seu cotoco. E a sua volta estava um triangulo grosso de fuligem. Mas não era fuligem do fogo, pois a marca estava incrustada no concreto exatamente onde o “faxineiro” tinha esfregado. Na base do triangulo via-se uma bolinha branca, o exato lugar onde estava o Thiago.
A mente de Thiago foi direto à única linha de raciocínio que centenas de pessoas estavam fazendo: o grupo terrorista Invisível.
O nome Invisível era cortesia da polícia, uma vez que eles mataram o prefeito embaixo do nariz deles.

A noite, depois da janta, a família de Thiago se juntou na frente da TV para ver o jornal, que passou uma reportagem especial.
Nela todas as testemunhas narraram a própria versão da historia – todas com um garoto que por milagre se salvou – e todas eram falhas no mesmo ponto: a primeira Explosão. Todos afirmavam e juravam que a primeira explosão fora quase “espontânea”. E o jornalistas até defenderam isso. Mas num certo ponto um tape foi chamado.
O tape era uma gravação da câmera de segurança de um prédio vizinho. A gravação dava direto na estatua. Num certo ponto, um clarão branco – a imagem, como qualquer outra de segurança, era preto-e-branco – iluminava o canto da tela. O apresentador, em pé e em frente à tela de exibição, pediu para que inúmeras vezes o vídeo fosse reprisado. Depois da enésima vez – segundo as contas de Thiago – o apresentador notou um pontinho marrom que piscava na tela. Depois é que perceberam que o pontinho era um míssil. Coisa que não melhorou em nada o clima, que era só um.
Medo.
Medo do próximo ataque, aonde vai ser, quando.
E Thiago podia acabar com isso.
Só mais uma vez, jurou a si mesmo, se o próximo ataque for compatível, eu entrego o cd a polícia.
Só mais uma vez.