Era dia três de fevereiro. Há quinze dias Thiago recebera um olho roxo do seu melhor amigo. Agora já tinha desaparecido, e mesmo Thiago tinha se esquecido dela. Suas preocupações tinham sido outras (apesar de sua conta ter chegado a “Rá a vigésima nona”), dentre elas a mais importante foi como a Mariana estava se sentindo.
Ela estava sofrendo, com certeza; ninguém nunca ia sofrer ficar tanto tempo longe da família. E também deveria haver torturas, físicas e psicológicas. Toda vez que ele pensava nessa possibilidade, dava vontade de soltar um Poder da Morte às cegas em todos que tivessem participando da organização. Mas aí então vinha a voz da lógica: “a prisão parece muito pior do que a morte rápida e indolor”.
Nesse ponto a voz valia a pena ser ouvida. Uma morte rápida e indolor provocada pelo Poder não era um castigo o suficiente. Eles deveriam mofar na prisão, e ter uma morte longa e dolorosa. Também pelo motivo que, quem iria sofrer mais, era a família do integrante.
E quando ele chegava nessa questão, se angustiava.
A Mariana só fora seqüestrada por causa disso: iria machucar o Thiago, mantê-lo quieto.
Era para eles já estarem se preparando para as aulas, que teoricamente começariam na próxima segunda-feira. Se eu não tivesse pegado o cd; se eu não tivesse o concertado; se eu não tivesse visto, acreditado... Sou culpado de tudo...
Mas o que teria ocorrido nessas duas semanas com a Mariana? Ninguém estaria sofrendo, óbvio; será que ele teria coragem para chamá-la em namoro? Nisso uma cena veio à sua mente, a mesma que vinha lhe torturando havia meses: em que ele a pedia em namoro e ela, com cara de risada, dizia que não gostava dele, mas que estava apaixonada por Matheus. Essa cena era imaginação dele, mas mesmo assim ele se sentia mal só de pensá-la.
Ele se levantou da cama, sem um pingo de sono, e se sentou na escrivaninha. Pegou um papel do caderno e um lápis. Parou com o lápis no ar e, com um impulso, começou a redigir um bilhete:
Mariana.
Não há palavras para descrever o que venho a escrever aqui. No dia em que você se mudou para cá, 25 de novembro, eu estava realmente muito feliz, por motivos próprios, e, ao ver você, me senti muito mais radiante.
De tudo que eu senti na hora
A sua festa de aniversario foi à festa que eu mais gostei de ter participado.
Minha simpatia por você cresceu ao ponto de virar
Não sei exatamente como lidar com isso. Você parece ser realmente alg
Parte de mim quer,
Ele olhou o resultado final do bilhete e, sem hesitar, o amassou e tacou contra a parede oposta.
Ridículo. Absurdamente ridículo. Não me lembro de ter escrito algo tão digno de riso quanto isso!
Ele olhou para a janela. A chuva parou um pouco, novamente. Ela tinha chegado no domingo, e não dera uma trégua maior do que ligeiros 30 minutos. Raros carros que passavam na rua faziam o típico barulho que dava sono no Thiago. Mas toda vez que ele pensava no nome Mariana, seu sono fugia. A preocupação com o seu bem-estar era suficiente para deixá-lo angustiado.
Como ele não tinha mais nada para fazer, e não tinha sono o suficiente para voltar a dormir, ele lançou um Poder Lacrativo de Som na porta e ligou o computador. Vou ver até o final do documento. Vou me preparar desde já.
Havia, ao todo, trinta passos. Alguns eram maiores do que uma página. Um deles, o Passo 6, acontecera na segunda-feira, dia primeiro. Um grave acidente numa rodovia que corta a cidade. Uma das colunas que sustentavam um viaduto tinha ruído, levando abaixo parte da estrutura. O Passo levava desde acido sulfúrico a três caminhões de duas toneladas cada.
Os outros “Passos” também tinha acidentes e, como Thiago pôde perceber, sem muitas vítimas. Um vazamento de gás, um roubo valioso, um ou dois seqüestros importantes marcados futuramente.
Lá pelo final do documento, no passo de número trinta, a coisa começou a ficar interessante.
Passo 30
Ao chegar nesse passo, às realizações anteriores deverão estar quitadas. Provavelmente no dia 31 de março (poderá ocorrer dias antes ou dias depois) haverá uma assembléia que reunirá todas as autoridades para a verificação da situação.
A “Situação” será avaliada logo após a realização do Passo 29 (o descarrilamento do trem que conterá material para a modernização do hospital – evento já marcado e confirmado pelos contados da prefeitura), que provocará um estopim no caos. Tal fato irá forçá-los a promover a assembléia para decidir o que irá ser feito.
Em tal dia, abriremos o duto de gás inflamável (enriquecido para ficar mais denso) na cidade. O gás irá formar um “lençol” no chão, cobrindo-o.
Entrementes, será lançado um míssil, nomeado F3 – GH465, como alvo a empresa Corpus. O míssil (como demonstração de desempenho o vídeo Destruição de cidade cenográfica com o F3 – GH465) acionará a combustão do gás inflamável, destruindo, assim, todo e qualquer prédio ou vida presentes em um raio de 80 quilômetros.
Obs.: A qualquer sinal de que a operação será desmascarada, o Passo 30 será transporto para primeira estância imediatamente. Talvez não dê para ser liberto o gás, mas o nível de destruição será equivalente.
Thiago olhou para aquele pedaço de tela três vezes. Por pouco eu não adianto a destruição da cidade. Ele sentiu o estomago leve. Essa era a Observação de que ele tinha falado, duas semanas atrás.
Seus olhos bateram no título do vídeo “Destruição de cidade cenográfica com o F3 – GH465”. Então esse era o motivo do documento ser tão pesado só com trinta e quatro paginas; havia um vídeo. Agora, como ele foi posto lá sem estar visível no cd era um mistério para o Thiago.
Ele levou a setinha até em cima do atalho. Preciso ver do que isso é capaz.
O Media Player abriu assim que ele clicou. Pensou um pouco e então, após achar o vídeo, iniciou a demonstração. Primeiro, apareceu na tela de fundo preto o titulo do vídeo, depois, um pequeno texto:
Em um lugar deserto ao norte da cidade, foi construída uma cidade cenográfica. Ela foi montada a 1.000 metros abaixo do nível do solo e, instalada com quatro câmeras. A câmera A foi instalada quinhentos metros acima, tento então uma visão aérea da cidade.
A tela então exibiu uma imagem aérea de uma cidade completamente deserta, situada no fundo do que parecia ser uma grande vasilha retangular de pedra. A cidade possuía menos de um quarto do que prometia o míssil, e em compensação, tinha vários prédios, e um maior que todos, inteiramente de vidro exteriormente, imitando o prédio da empresa Corpus. A tela voltou a ficar preta.
A câmera B foi instalada no topo do prédio “empresa Corpus”, voltada para o chão. Essa câmera possui uma redoma de vidro blindado para protegê-lo do impacto da explosão, dando então maior tempo de visualização.
Uma imagem apareceu, mostrando uma das faces do prédio. A sessenta andares abaixo, estava o chão, onde estava localizado um carro. A tela tornou a ficar preta.
A câmera C foi instalada em um quintal de uma das casas perto da fronteira. Também foi instalada uma redoma de vidro blindado. O objetivo da câmera é mostrar a potência da explosão.
A imagem seguinte foi uma vista panorâmica da cidade de um só lado da tela, do outro, estava um grande paredão de pedra marrom-claro. A tela tornou a ficar preta.
Ainda foram instaladas mais duas câmeras adjacentes. Uma é a câmera D (ela pegará a imagem ao nível do solo) e a câmera E (que está em um helicóptero).
A seguir, terá a seqüência editada dos danos provocados pelo F3 – GH465.
A tela começou então a mostrar uma imagem do solo e no canto da imagem estava um grande e amarelo E. Um míssil vermelho passou voando direto para uma cratera aberta bem adiante. Lá perto ele se elevou um pouquinho e então mergulhou, sumindo. A imagem piscou e mostrou uma grande visão aérea a letra “D”. Incrivelmente, toda a cidade coube naquela tela. O ponto vermelho desceu pelo paredão, fazendo a tela piscar novamente. A visão aérea agora era diagonal e a letra era A, o míssil vermelho passou bem na sua frente e continuou a descida. A câmera C mostrou o míssil fazendo a curva para então planar em direção do prédio.
Thiago prendeu a respiração. Ele iria ver agora do quê aquele míssil era capaz. A imagem mudou para a câmera B, e no reflexo do prédio vinha vindo um pontinho. Esse ponto cresceu e então entrou no campo de visão da câmera, para então se chocar com prédio.
A explosão seria instantânea, a não ser o fato de que a imagem parou.
Quando ele foi verificar o que tinha acontecido com o computador, viu que ele não conseguia se mover. A explicação para esse fato demorou a vir à cabeça: Divagação Momentânea.
Era a segunda vez em sua vida que ele experimentava essa sensação. Uma sensação de que, apesar da posição do corpo, estava descansando. Porém, dessa vez, não tina movimento dos olhos. Na tela, estava o prédio (com os vidros estilhaçando) e o míssil.
A sua mente começou a ir para a Mariana. Seu sofrimento por estar longe da família... Quando o equivalente há cinco minutos passou tudo começou a ficar tedioso e, assim que se fecharam dez minutos, a tela do computador voltou a se mover em câmera lenta. Um segundo depois, o Tempo voltou a rodar.
Uma bola de fogo cresceu do prédio, enquanto uma onda de combustão subia prédio acima, estilhaçando o prédio, e por fim, reduziu a nada o vidro blindado.
A imagem mudou para a câmera A, mostrando o fogo descendo prédio abaixo para então entrar em contato com o gás... A imagem mudou para C, e um anel de combustão varreu a cidade, demolindo tudo e destruindo o vidro blindado. O fogo engoliu a câmera, e ela perdeu o sinal...
A imagem mudou para E, mostrando o anel de combustão se expandir para a borda da cidade, enquanto o prédio bambeava para frente... A câmera A mostrou o prédio, para então depois um forte impacto tremer a imagem e então o chão começar a se aproximar cada vez mais... Voltando ao ângulo E, uma enorme placa de pedra se desprendeu da parede, a placa onde estava a câmera A... A câmera A foi engolida pelas chamas, e saiu do ar.
O ângulo mudou para B, mostrando o prédio se precipitar para frente, caindo em direção ao solo, para então sair do ar... O vermelho vivo do fogo tomou toda a imagem da câmera E... E na câmera D umas labaredas pareciam sair do solo...
Tudo voltou a ficar preto:
A capacidade da bomba em estado bruto e sem nenhum aditivo é 10 quilotons.
Fim da demonstração do F3 – GH465.
Ele olhou para a tela, que iria recomeçar a demonstração. Matheus precisa ver isso.
Ele fechou a janela do Media Player. A tela voltou a mostrar o texto e Thiago percebeu algo que lhe tinha escapado da primeira vez: uma nota de rodapé no fim do texto. E o que estava escrito o deixou perplexo.
Sede da Organização: Rua das Caneletas, n° 1.824 – Centro.
Horário das reuniões: da 00h00min às 02h30min da madrugada. Segunda a Sábado. Aos domingos, até a 01h30min.
Agora entendia tudo. Por isso que ele não podia entregar o cd à polícia. Pois o cd tinha o endereço dos terroristas. Tendo o endereço, em dois palitos a polícia podia prendê-los. E então... E então, o míssil seria solto, com ou sem gás inflamável, e a cidade inteira iria ruir. O tempo começou a esfriar (Thiago estava só com uma calça de tecido fino que ele normalmente usava, e a camisa do pijama devia ter parado em baixo da cama, como ele fazia quando estava com calor durante a noite, tirava a camisa dormindo) agora que o calor dos cobertores sumiu, mas ele ainda estava absorto na tela do computador.
Eu tinha há tanto tempo. Eu tinha o endereço deles há tanto tempo. Podia ter acabado com isso antes mesmo de começar e não, fiquei de bobão que sou...
Eu estaria agora dormindo calmamente.
Ele olhou no relógio da tela, eram ainda meia-noite e meia. Se der, eu posso chamar o Matheus e nós juntos podemos ir até a reunião. Dá tempo de nós chegarmos lá para o fim e... Ele hesitou um pouco; será que ele vai querer ir?Será que ele vai me deixar ir? Às vezes parece que ele já é adulto.
Thiago começou a se despir. Que se dane. Eu vou e ponto final. É minha responsabilidade e eu preciso arcar com as conseqüências.
Ele desligou o computador, colocou o cd no bolso e retirou o poder da porta. Desceu cuidadosamente as escadas e saiu de casa.
O frio da madrugada o engolfou, gelando as partes expostas. Algumas gotas caiam continuamente do telhado. O chão brilhava amarelo com a luz dos postes. A imagem tornou-se para Thiago um espetáculo. Ele retirou o celular do bolso e tirou uma foto. Mostrarei para a Mariana quando ela voltar.
Ele sentiu uma pontada no coração. Se ela morrer... Agora ele entendia todo aquele respeito pela Morte que as pessoas tinham, que antes lhe parecera besteira. Mas ela é sádica. Ele, ela; não sei. Se houvesse algum jeito... Algum jeito de chamar a Morte que ele conhecera meses atrás... Chamar-lhe... Intimar para que mantivesse a Mariana viva...
Precisava agir... Não podia deixá-la assim, à mercê do Destino... Ele se lembrava das falas da Morte: “E nesse dia, junto à bancada do Juiz Supremo, estará o representante da Morte da época, e o representante do Destino da época, outro empregado divino...” o Destino... Um que não ajudara em nada nas últimas vezes...
Muito pelo ao contrario... Sussurrou uma voz em seus ouvidos; se não fosse assim, o Poder-do-Universo jamais teria ficado contigo. Pense em todas as aberrações da lógica em que você e seu povo se baseiam e verá as minhas ações...
Era óbvio que aquilo não vinha de sua cabeça, mas o sono o fez tirar isso do raciocínio, se eu for entender tudo o que me acontece, irei ficar louco.
Thiago atravessou a rua e chegou à casa de Matheus. Ao lado do quarto do amigo tinha uma grande árvore; velha e grossa o bastante para aquentá-lo.
Ele flexionou os joelhos, se preparou e então... A imagem se dissolveu, e então, quando tudo voltou ao normal, ele estava sentado num galho bem grosso da árvore. Ela é boa o suficiente como explicação de como cheguei aqui, mas demora muito até subir aqui em cima. E eu não quero me molhar.
Thiago estava de frente à janela de Matheus. O vidro e a madeira estavam fechados. Ele não sabia agora o que fazer.
Se chamasse pelo amigo, poderia acabar acordando os outros. Se tacasse uma pedra, também. Telefonar, idem. Um plano se formou em sua mente do nada e, sem saber direito o porquê, pensou: Queria poder não fazer isso.
Ele fechou os olhos, se concentrando ao máximo. E então, com um calor muito bem-vindo, ele entrou no Mundo dos Sonhos.
Ele agora se via num grande salão de mármore. Do outro lado do aposento tinha um balcão de madeira. Thiago se aproximou, com o máximo de cautela. O recepcionista não levantou a cabeça até Thiago ficar bem próximo.
- Quem você vai alertar em sonho, Destino? – ele levantou a cabeça.
A sombra do sorriso no rosto do recepcionista desapareceu. O recepcionista aparentava ter mais de setenta anos, mas seus olhos expressavam séculos e mais séculos naquele lugar. Esses mesmos olhos, brincalhões, tinham obvia surpresa.
- O seu quarto... – tentou contornar.
- Não tem quarto. – Thiago cortou. Não devia ser normal um humano entrar naquele salão, sem mais nem menos. E aquela devia ser uma desculpa básica. Se bem que tem cara mesmo de hotel luxuoso.
- É. Realmente não tem. – ele concordou. – mas o que o jovem faz aqui?
- Gostaria de uma informação e um pedido, se não te prejudicarem. – emendou, queria parecer gentil – arrancava mais favores.
- Dependendo do que estiver ao meu alcance...
- Queria saber se há chance de que eu interferir em um sonho e sono de uma pessoa, aqui, agora.
Os olhos do velho ainda o encararam curioso, pedindo mais explicações.
- Se dá para eu interferir nesse mundo no sonho de uma pessoa e acordá-la – explicou, com uma ponta de nervosismo.
O velho pesquisou entre os papéis em sua mesa, seus olhos um tanto arregalados. Thiago tentou puxar assunto depois de dois minutos parado olhando o velho remexendo os papéis.
- Por que a surpresa? – perguntou.
- Por que não é muito normal um, se me perdoa a palavra, adolescente saber fazer o Ritual do Mundo dos Sonhos.
- E eu não sei – respondeu automaticamente – vim aqui com um Poder.
O velho parou de remexer nos papéis por um instante.
- Pensei que os poderes seriam criados daqui algum tempo.
- E serão, mas eu fiz uma visi... Fizeram uma visita do futuro para cá, e eu acabei tomando.
- Por isso daqueles sonhos estranhos que fui incumbido de encomendar...
E voltou para os papéis. Uma idéia passou pela cabeça de Thiago.
- Como o senhor sabia sobre o Poder-do-Universo?
- O Destino me contou... Ele às vezes conta alguns de seus planos...
Como para completar seu discurso, a porta atrás de Thiago bateu ao se abrir. Ele se virou e viu um enorme vulto se aproximar do balcão. Agora que olhava, ele percebeu uma grande placa acima da porta: MUNDO DOS VIVOS.
O vulto se parecia com a Morte que Thiago conhecera; fora o fato que o de agora estava enrolado numa capa de lã branca, e não carregava espada. Assim que ele encostou-se ao balcão, retirou o capuz.
Uma cabeça de um rapaz de vinte e poucos anos apareceu. Tinha o cabelo meticulosamente arrumado, a barba toda tirada, e dentes brancos – Thiago sempre olhava para os dentes – como de um comercial de pasta de dentes, apesar de um pouco tortos.
- O Senhor já encomendou o Sonho Premonístico da Neve? Preciso passá-lo ao Bernardo de Souza o quanto antes, duvido que isso irá mudar sua decisão, mas pelo menos creio que irá fazê-lo refletir. Ele vai sofrer um bocado... – sua voz possuía um tom de pesar muito grande, voz essa que Thiago reconheceu por ter ouvido pouco antes. A sua prendida de respiração alertou o homem de sua presença. – temos uma visita hoje... O meu velho amigo já lhe deu a chave do seu quarto? – perguntou para o Thiago.
- Ele já sabe – alertou o velho, como se pedisse a ele para que não insultasse a inteligência de Thiago. O velho entregou ao homem um papel – aqui está. O Miguel irá trazê-lo, junto de outros sonhos um pouco mais comuns – disse ironicamente. – Daqui a pouco você terá que pedir desculpas a ele. – emendou.
- Por quê?
- Por que você está o fazendo ir muito para o futuro capturar imagens para os seus sonhos premonitórios. A freqüência com está fazendo isso pode tirar a paciência de até um anjo graduado como ele.
- O Arcanjo Miguel, você está querendo dizer? – perguntou Thiago incrédulo.
- Sim – respondeu o homem – mas não poderá vê-lo. Não creio que ele se deixará ser visto por um humano, sem ofensas. Os Arcanjos não são tão sociáveis quantos os outros Celestiais. Apesar de você já ter visto a Morte e uma Intermediária, conhecida por você como Lívia, não acho que o Arcanjo ache você muito digno. E deixe eu me apresentar – ele fez um floreio – eu sou o Destino.
- Você que falou comigo hoje, sobre o Poder-do-Universo?
Ele fez uma cara de criança pega em uma travessura.
- Desculpe, não quis parecer rude. Mas não agüentei ao ouvir suas injurias.
- Por que manteve os Poderes comigo?
- Por que você precisaria deles. Serão muito úteis no futuro.
- Mas foi por causa deles que eu meti a Mariana nessa enrascada!
- Quando eu digo futuro – ele continuou imperturbável – é futuro não tão próximo, mas não muito longe. Bom, a conversa esteve boa, mas eu preciso ir. O Arcanjo não vai querer entrar contigo aqui, e sei que vai demorar um pouco para você sair.
Então o Destino rumou para a porta intitulada MUNDO DOS MORTOS I: CELESTES, e sumiu. Thiago ficou um bom tempo olhando para a porta antes de se virar para o Velho.
- Que sonho era aquele que ele se referia?
- Acho que não preciso falar, parece-me que você ganhará um igualzinho em breve – seu tom de voz lembrava papai-noel – respondendo à sua pergunta, sim você pode interferir... E olha o que eu achei.
Ele lhe passou um bilhete. Thiago o pegou e tentou decifrar as pequenas letras organizadas na mais pura caligrafia:
Velho Ezequiel,
Devo pedir-lhe que conceda permissão a um viajante para que utilize de nossos recursos do Sonho.
Do seu amigo,
Destino.
- Nome completo da pessoa?
- Amigo – respondeu Thiago roucamente, afetado pelo quão o Destino podia saber sobre os humanos.
- Amigo. – repetiu o velho, encorajando-o.
- Matheus Marques da Costa.
