Thiago voltou para casa sendo escoltado pelo Logan preto, que o seguia para certificar-se que ele não ia tentar nenhuma graça. Ele entrou em casa e ficou espiando pela janela da sala por dez minutos, e o carro não saiu do lugar, estacionado no fim da rua. E Thiago desconfiava que ele não ia sair tão cedo. Ele foi para o quarto, esperar o carro sair para falar com o Matheus.
Sua mãe o chamou à cozinha:
- Sim mãe. – disse desanimado.
- Você sabe onde está a Mariana? Ela sumiu.
- Não... – Thiago notou que estava se incriminando – Eu passei na casa dela para chamá-la para ir fazer o trabalho, mas ela não estava.
O olhar desconfiado de Sara sumiu.
- Obrigado. Pode ir e... – ela interrompeu a saída do filho – Pro almoço nós vamos ter macarrão viu?
- Ta – respondeu e foi para o quarto.
Revoltado, quando fechou a porta atrás de si ele tacou o cd na parede, que bateu e caiu atrás da cama. Ele se jogou em cima da cama, sentindo-se pesado.
Fui um idiota. Eu devia ter quebrado o cd assim que o peguei na mão. Mas a criança aqui foi burra o suficiente para guardá-lo e comparecer nos dois atentados.
E agora, ela está seqüestrada. E não pude fazer nada para evitar. Sou um imbecil. A culpa é toda minha. E o pior, nem posso tentar ir salva-la, pois vou ter que usar os meus poderes, e ela vai sofrer do Choque-Temporal.
Sou um super-herói, ironizou só que eu protejo meus amigos, ao não os contar os meus poderes, não de vilões e de suas ações, mas sim de um Choque-Temporal. Que pobre.
Preciso contar a alguém, mas quem? Ele refletiu para quem ele podia mostrar o cd. De sua lista mental, seus pais foram excluídos. Eles podem não me culpar, mas vão me condenar. Sua lista foi se enxugando até que sobraram a Lívia e o Matheus. A Lívia nunca mais vai querer me ver. Concluiu, já que os anos que elas passaram juntas as tinham tornado unha e carne. Vou contar ao Matheus... Mas vai ter que ser amanhã, senão eles vão saber que eu estou contando. Ele se levantou e foi à janela. O carro havia sumido, e não tinha ninguém suspeito na rua. Ele decidiu rapidamente o que fazer.
Tirando o telefone do gancho, e digitou o numero do Matheus.
- Alô, Matheus?
- Não, é a mãe dele Thiago.
- Posso falar com ele?
- Pode – ela chamou pelo filho e, enquanto esperava, puxou uma conversa – você está bem?
- Estou por quê?
- Sua voz... Ele está vindo.
Ele escutou o fone ser passado adiante, e Matheus atendendo.
- Thiago? O que foi?
- Você pode passar aqui?
O Matheus perguntou para a mãe.
- Sim – tornou a responder – já, já eu to aí.
E desligou.
Thiago ligou o computador, iria mostrar ao Matheus tudo o que sabia, mas manteria em segredo sobre a Mariana. Ele não sabia como contar.
O celular vibrou em seu bolso. Ele o retirou e viu que recebera uma mensagem. Quem mandou: Mariana. Thiago abriu a mensagem.
Cuidado com o que você vai falar, moleque. Sua amiguinha tem cabelos lindos demais para ficar sem eles.
Ele olhou para a mensagem, relendo-a várias vezes. Mas como...? Eles grampearam a minha casa!
A verdade chegava a ser incômoda. O grupo terrorista tinha tanta tecnologia às mãos que chegava a ser inimaginável. Estou brincado com fogo. A campainha tocou. Ele foi atender o Matheus, decidido. Já protegi essa cidade, irei proteger novamente.
–
Ele puxou os cabelos, nervoso com o homem à sua frente.
- Não foi isso que eu quis dizer! – gritou, nervoso.
Dez minutos atrás, o antigo Chefe de Segurança, Constante Barbosa, tinha entrado em sua antiga sala, agora sala do Marcos, com um jornal à mão. Estava vermelho como pimentão de tão nervoso, e perguntou em um discurso o quê que Marcos tinha na cabeça, o que ele achava que estava fazendo, e se ele queria ser estrangulado agora ou depois do almoço.
- Não mesmo? – ironizou o homem, pegando o jornal, com a manchete falando de Marcos – não parece: “o nosso Chefe de Segurança, Marcos Frattini Guerra, declarou ontem à imprensa que ‘esse grupo terrorista, o Invisível, é um grande conhecido nosso’. Segundo ele, a polícia conhece esse grupo terrorista que, alias, ninguém sabia ao certo se era um grupo. Por que a polícia não toma providências então?” como você pôde ter dito algo assim! – ele terminou gritando.
- Eles interpretaram errado! E só publicaram por que não têm nenhuma gravação, por que eu disse: “esse tipo de grupo terrorista, do estilo do Invisível, é um grande conhecido de nós, que estamos em contato com filmes do gênero”. Eles distorceram tudo.
- Não se pronuncia a imprensa, pensei que tivesse me ouvido.
- E ouvi. Mas não me deixariam sair de lá sem que eu tivesse falado algo. Escolhi algo bem óbvio, e distorceram.
Constante deu um sorriso presunçoso.
- O povo precisa de sensacionalismo. Ninguém acha que a notícia está contada direito sem que o repórter exagere um pouco. Esses ataques... Eles são um prato cheio para as pessoas. É uma minoria quem acha irritante o repórter que fique inconformado com tudo – sua voz abrandou – também aprendi do seu jeito. Foi um escândalo em 2001, quando um depósito de fogos explodiu. Disse a eles que iríamos verificar se o dono tinha documentação, e no dia seguinte saiu à manchete: “o nosso Chefe de Segurança deixa escapar depósito clandestino de fogos”. Acabou que o cara tinha licença, e eles engoliram um sapo desse tamanho. Quer um conselho? Fique na sua. Quando você fizer a coisa certa e desmenti-los, nunca mais eles vão falar de você.
Marcos sentou-se.
- Por onde começo? – perguntou desesperado.
- Siga a linha de raciocínio deles. – aconselhou Constante, feliz por ser chamado de volta à ativa – Primeiro: desordem. Segundo: simbolicamente falta de segurança. Terceiro: alta destruição – disse enumerando com os dedos, ele levantou o mindinho – o Quarto passo, em minha opinião, é algo para nos desorientar...
Ele foi interrompido por uma batida frenética na porta.
- Entre – anunciou Marcos.
Um homem baixo entrou na sala, estava expressando nervosismo.
- Temos um problema, chefe.
- Onde?
- No Sistema.
–
Matheus o encarava seriamente.
- Ela sumiu? – perguntou ele.
Thiago, no último instante, desistiu de contar ao amigo do cd. Mudara a conversa sobre o desaparecimento de Mariana.
- Parece que sim.
Matheus o fitou durante um minuto.
Thiago, curioso, estendeu a sua mente com um poder de Consciência. Ele tocou levemente a mente de Matheus, só o suficiente para escutar os pensamentos do amigo. A primeira impressão foi desconfiança.
... E como ele pôde saber assim, tão rápido. Nem a minha mãe sequer sabia. Será uma pegadinha? Mas ele está serio demais. E ultimamente ele tem andado esquisito demais e... Peraí!
Na mente de Matheus se formou a imagem de Thiago, olhando para ele com a cara emburrada.
Thiago, de reação não-pensada, ficara bravo por que o amigo tinha falado mal dele, e tinha fechado a cara. Para disfarçar, ele levou a mão às costas e começou a coçar.
- Coceira – explicou.
A desconfiança diminuiu, mas permaneceu na mente de Matheus, quieta, à espreita.
Thiago abriu os olhos. Tinha acordado sozinho. O quarto estava estranhamente escuro. O rádio-relógio marcava três e vinte e dois da manhã.
Ele se sentou na cama. Nada havia acordado ele. Nenhum sonho, que ele se lembrasse, até àquela hora. Apenas um pensamento tinha o despertado.
Culpa.
Culpa pelo o que Mariana estava sofrendo. Culpa pelo que os pais dela estavam sofrendo. Ele mesmo já tinha sentido o que é perder um familiar.
Mas agora era diferente. Agora ele era o responsável pelo desaparecimento dela. Agora, se ela morrer, todos sabiam que tiveram a chance de tê-la de volta.
O estomago dele prensou quando ele pensou na possibilidade deles matarem ela.
Calma. Você pode salva-la. Mantenha-se na sua, e bole um plano. Não corra. Tem de ser bem-feito. Sussurrou-lhe uma voz, vinda de sua consciência.
Thiago se deitou, não com a ambição de voltar a dormir. Preciso salva-la. Foi seu último pensamento antes de ser embalado no sono.
Joaquim olhou para o interior da escola.
Estava de caseiro naquela escola, o E.E. Martins da Fonseca Jr., há quarenta anos. A conhecia quase tão bem como a palma de sua mão, e eram fatos como o de hoje à noite que o faziam duvidar se conhecia a escola.
Ele estava dormindo com a sua mulher quando um barulho o acordou as 03h18min da manhã. Depois de se vestir ele saiu da casinha de quatro cômodos e subiu o pequeno morro em direção à entrada do caseiro. Essa entrada ficava no segundo e último andar e ficava ao lado da sala dos professores. Ele caminhou o mais silenciosamente do que seus setenta anos podiam permitir e verificou as portas do andar. A sala da diretoria; secretaria; banheiros; sala dos professores; sala da coordenação, todas fechadas. Das sete portas existentes daquele lado da escola naquele andar, quatro eram as que possuíam coisas de valor. Ele caminhou de volta a porta de entrada do caseiro, a ultima do corredor, talvez foi paranóia. Pensou.
Outro barulho chegou a seus ouvidos. O barulho de porta sendo aberta veio do andar de baixo. Ele se aproximou da mureta, que chegava aos seus ombros, e olhou para baixo. No instante que olhou, viu um vulto pular os muros da escola, fugindo. Seus olhos percorreram as portas das salas, procurando uma arrombada. Além dela, a única coisa diferente era uma trilha de água no pátio.
A porta em questão era a porta da sala do meio, sua fechadura estava arrombada (com certeza o barulho que o acordara). Mas o que o intrigava era o fato de não ter nada de valor naquela sala. Por que então arrombá-la?
A resposta veio quase que instantaneamente. Um barulho ensurdecedor se chocou contra ele logo após uma bola de fogo desmoronar a parede da sala, jogando a porta metros longe. A força da combustão empurrou Joaquim para trás, fazendo-o cair sentado.
Apesar do ocorrido, ele sentiu uma pontada de humilhação, pelo fato de não conseguir se levantar.
Mas um grito reverteu tudo isso:
- Quim! – gritou sua mulher – Quim! Você está aí!
Apesar dos 68 anos, ela ainda conseguia correr relativamente rápido.
Atrás dela vinha o seu filho, de trinta anos. Ele foi mais rápido que ela e o levantou. Seu rosto mal barbeado amarelado pela luz do fogo.
- Pai, o senhor está bem? – sua esposa, Maria acabara de chegar.
- Estou, mas... Explodiu! – explicou ele, bobamente. Ele se aproximou do muro, para poder se ver melhor.
No instante seguinte, a sala correspondente ao segundo andar cedeu , fazendo desmoronar também parte do corredor de acesso as portas do andar de cima. O desmoronamento provocou uma densa nuvem de fumaça.
Porém a nuvem de fumaça não conseguiu apagar uma marca. Maria e seu filho se aproximaram e também a viram. Os três emudeceram.
Queimando em óleo, estava um triângulo.
Thiago acordou novamente às nove horas, sem um pingo de sono.
Ele se vestiu e desceu as escadas, para tomar café. Assim que passou pela porta da sala, viu que lá tinha um jornal. A manchete chamou os olhos de Thiago: TERRORISTAS ATACAM NOVAMENTE.
Seu queixo caiu. Estivera tão irritado com o cd que nem olhara para ver onde seria o próximo ataque. Ele desviou da sala. Não queria se envolver mais. Queria jogar a responsabilidade para alguém, não tava mais no pique do futuro, em que se aventurava corajosamente e arriscava palpites de ultima hora.
Mas tudo mudou. Thiago voltara à realidade – ou assim raciocinava seu cérebro – e tudo perdera um quê de não é de verdade. E, alem disso, havia outro ponto. Como Thiago relutava em admitir, o que estava acontecendo era presente, não futuro. Suas decisões aqui e agora tinham também peso. Se Mariana morresse, fim. Não daria para ele voltar ao presente e deixar tudo acontecer e na hora H salva-la.
Era diferente de sair voando e carregá-la de volta. Ele precisa entrar no esconderijo, tirá-la de lá e ir direto a polícia. E para tanto, primeiro ele precisaria do endereço. Coisa até então inexistente.
Outro ponto era o fato de que se Thiago entregasse o cd, o “Invisível” poderia alterar um ataque ou a data. Não seguir necessariamente o cd como script total. Mas então, qual é a importância dele? Se eles podiam transformar ele em falso, por que ele queria evitar que chegasse até a polícia? Por que ele deveria lê-lo até o final?
Thiago balançou esses assuntos da cabeça. É de manhã e eu to com fome. E, além disso, tinha a tarde inteira livre.
Quando ele chegou à cozinha, viu que não tinha mais escapatória. O seu pai estava sentado à mesa, com o café intocado, com o telefone na mão e o caderno de telefones na outra; a sua mãe estava encostada na pia, segurando bem aflita o pano de prato. Os dois pareciam em choque, mas estavam controlados.
Sara o viu entrar na cozinha e correu para perto dele:
- Venha filho... Sente-se – pediu ela.
- O que foi que houve? – perguntou ele fingindo desconhecer.
Sara olhou para o marido, em busca de apoio. Seus olhos se encontraram e então, como a maioria dos pais fazia, conversaram por olhar. Depois de alguns segundos Sara olhou de volta para o Thiago.
- Acabamos de receber a noticia de que... Bem... – ela se calou procurando as palavras certas, mas incapaz de achá-las – lembra que você tinha ido fazer o trabalho e, bem, não achou a Mariana?
- Hum.
- Então... Ela foi... Seqüestrada.
Thiago manteve-se calado. Ele continuou a fitá-la como se esperasse que ela desmentisse. Por mais que tivesse ciência de tudo, a situação era pior do que ele tinha previsto. O silencio da agonia silenciosa dos seus pais era insuportável. Thiago preferia um escândalo à La novela-mexicana. Vendo que Thiago não respondia, ela continuou:
- Os seqüestradores mandaram contato hoje de manhã. Falaram para a Maria não entrar em pânico por que eles cuidariam dela, e que não entrassem em contato com a polícia, pois senão eles receberiam “o presunto mais bonitinho do mundo”. Os seqüestradores falaram também que, o culpado de ela ter sido seqüestrada, foi alguém aqui da região.
Thiago se sentiu sem chão. Era quase como se tivessem espancado ele à quase-morte.
Os terroristas tinham dedado ele. Não foi uma coisa direta como um “foi o Thiago”, mas tinham feito uma indicação de que morava na região. O que eles queriam? Dar um susto?
Thiago balbuciou as palavras “eu vou para o meu quarto” e saiu da cozinha.
Precisava pensar. E rápido.
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