segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A MINHA ESCOLA

Marcos deu um bocejo bem grande enquanto se esticava, espreguiçando-se. O café-da-manhã o tinha deixado sonolento.
No dia anterior, quase doze horas atrás, ele fora chamado antes do almoço por um problema no Sistema. Ele, juntamente de Constante, tinham ido verificar o problema, e descobriram algo extremamente assombrante. Como conseqüência, eles passaram o dia inteiro pesquisando e, de pesquisa em pesquisa, eles acabaram ficando sem almoço e sem janta, só sustentados por bolachinhas e alguns salgados. Isso combinado com o fato de ter dormido duas horas naquela noite, resultou nesse bocejo.
Ele abriu a caixa de mensagens do seu e-mail, e seus olhos percorreram a longa lista de “TESTE DE LÓGICA”, “NOVOS RESULTADOS DAS CIRURGIAS”, “GANHE PONTOS COM AS MULHERES”. Ele parou para refletir o porquê de tantos spams no seu e-mail quando percebeu que tinha entrado no endereço pessoal. Ele já ia mudar de endereço quando seus olhos perceberam um e-mail diferente: Invisível.
O assunto chamou sua atenção e ele abriu o e-mail. Ele procurou o endereço de quem havia mandado e ficou pasmo: terroristasinvisivel@hotmail.com.

Bom dia Chefe de Segurança.
Venho por esse e-mail expressar o meu espanto ao ver a sua coragem ao se expor no jornal. Não pense que venho até aqui dizer que vou parar ou que me vendo através de suborno para parar. Não, definitivamente não.
O motivo de eu ter o trabalho de criar uma conta para mandar uma mensagem ao senhor foi algo bem diferente. Eu mandei essa mensagem para deixar registrado que nós seqüestramos uma garota de quatorze, quinze anos e que a devolveremos assim que nosso objetivo estiver concluído. E que se ela por “acaso” morrer no meio de uma invasão, se vocês chegarem a nos encontrar, tem provas para conseguir a sua demissão. Que se dará, coincidentemente, com o fim do nosso objetivo, coisa que não vai ser muito boa, para vocês.
E peço para que você não gaste esforços em tentar hackear esse endereço, pois se vocês tentarem vão receber outra dose de vírus. E que qualquer palavra que sair daqui, é a sentença de morte da garota.
Atenciosamente.

Ele terminou de ler a mensagem de queixo caído. Precisava agir rápido, era sua responsabilidade, antes que a cidade virasse cinza.

Thiago tinha levado para o quarto o jornal para lê-lo no quarto. Não queria ser interrompido enquanto lia sobre o ataque. O clima na cozinha não era um dos melhores, seria até suportável, se Thiago não fosse o culpado e não conseguisse fingir o contrario por muito mais tempo. Agora ele estava sentado na cama, lendo-o:

O grupo terrorista Invisível tem dado muito mais dor de cabeça às autoridades do que o normal. Após terem atacado a praça central e o parque, o grupo agora atacou o Sistema da prefeitura.
Contando com mais de um Terabyte de informações sobre os moradores de nossa cidade, o Sistema continha desde informações de assembléias a informações individuais de cada morador que nasceu e morreu aqui.
O ataque ocorreu diretamente ao computador, em que se foi instalado um vírus conhecido com “Delta”, um símbolo matemático que é representado pelo símbolo ∆.
“Estamos realmente muito apreensivos” comenta o prefeito Umberto, vice antes da morte do Roberto Inácio “é quase certeza de que esse vírus foi implantado por um integrante do grupo terrorista Invisível. O nome é sugestivo demais para ser somente coincidência. Vírus Delta. Ao passo que delta é um triângulo. Sem contar que quem implantou o vírus passou pela segurança.”
Matéria completa na página 07.

Thiago ficou perplexo. Delta. Um triângulo. Ele realmente tinha que tirar o chapéu para o chefe do grupo. Agora ele via que tinha o dever de falar com o Matheus, contar a verdade a ele.
Mas como? O seu telefone estava grampeado; os celulares também deveriam estar então como falar com o Matheus sem que o Invisível soubesse?
A campainha tocou, despertando-o do sonho. Ele correu até a escada:
- Eu atendo! – gritou para os pais.
Ele abriu a porta, dando de cara com o Matheus e seus pais.
- Oi Matheus, oi Sra. Miriam, oi Sr. Alberto. – cumprimentou.
- Olá. – cumprimentaram em uníssono – e não precisa nos chamar de Senhor e Senhora. Nós já falamos que dispensamos isso – disse Miriam. Ela sempre ficava nervosa quando ele a chamava de senhora. Apesar de ela ter 39 anos, ela dizia que a “senhora” a envelhecia.
- Meus pais estão na cozinha. – informou ele quando o trio entrou.
- Você já recebeu a noticia? – ela perguntou em um tom maternal.
- Sim – ele respondeu – o Matheus pode ir para o meu quarto?
- Claro – respondeu Alberto, sua voz (que era mais grave de todo mundo que Thiago conhecia) enchendo a casa.
- Alberto? Você está aí? – gritou o pai de Thiago, lá da cozinha, fazendo uma pausa para esperar o rouco “sim” em resposta – vem aqui.
Thiago bateu no ombro do Matheus, indicando para eles subirem. Enquanto subiam as escadas, Thiago escutou a Miriam sussurrar para o marido: “ele está em choque”.
Quando chegaram ao quarto, Thiago fechou a porta.
- Como foi com você? – perguntou Matheus, se sentando na cama.
- Que?
- Como foi que você recebeu a noticia? Hoje – começou, cortando Thiago – eu acordei, me arrumei e quando chequei na sala... Bem... Meu pai me contou que ela tinha sido seqüestrada e... Bem... Eu nunca fui tão interessado nela como você, mas... Sabe, ela era minha amiga e... Ela foi seqüestrada aqui, na porta de casa... – Thiago se espantou, seus pais não tinham lhe contado isso por quê? – podia ter sido eu, né?
- Não muito...
- Por quê? – ele perguntou desconfiado.
- Deixe eu te mostrar algo. – ele então se virou para ligar o computador. Não suportaria olhar nos olhos do amigo.
Enquanto o computador ligava, Thiago começou a brincar com o celular, jogando-o para o alto e recuperando-o, para de volta jogá-lo. Ele se lembrou que precisaria do cd para mostrar as coisas para Matheus. Quando o recuperou de trás da cama, onde tinha o deixado de “castigo”, o Matheus tentou puxar assunto:
- O quê que tem no cd? – perguntou descontraído.
- Você vai ver. – disse apenas.
O computador terminou de ligar e Thiago colocou o cd, já pronto para ser julgado.
Thiago deixou Matheus se sentar na cadeira do computador, deixando-o mais à vontade, enquanto se sentava na cama. Matheus leu o passo um, e seu rosto começou a mudar, leu o dois, e sua cara se contraiu num “o que?”, leu o passo três, e seu rosto expressava assombro e no passo quatro ele olhou intrigado para o amigo:
- Desde quando você tem esse cd?
- Eu o achei no dia em que o prefeito morreu...
- Você sabia... Você sabia o tempo todo e não contou!
Sua reação tirou o chão de Thiago. Achara que o amigo seria compreensivo.
- Você podia ter entregado a polícia, e eles já teriam preso os caras. Mas não, o guardou...
- Eu tava vendo se era compatível...
- Com a morte do prefeito você ainda tinha duvidas?
- Mas eu fui entregar o cd... – se defendeu.
- E por que ta com ele?
- Por que... O chefão do grupo me viu... Falou comigo.
A raiva de Matheus foi substituída por um “Meu Deus!”.
- O que ele disse? – perguntou, preocupado.
- Disse que... Que tinha me visto nas duas vezes em que eu fui verificar o cd e... E que tinha seqüestrado a Mariana... E que a mataria se eu entregasse o cd...
Matheus se levantou e, um segundo depois, Thiago levou uma de direita.
A força do soco jogou Thiago para trás, fazendo ele, que estava na beirada da cama, cair no chão. Reprimindo em grito de dor, ele tampou o olho direito com as mãos, desejando Matheus sair do quarto e evitar falar com ele por umas duas semanas, por causa do ego e também pelo fato de ele poder curar o olho, que ficaria roxo.
Porém nenhum dos dois se moveu. Thiago permaneceu deitado no chão, de bruços, pressionando o olho com as mãos, se segurando para não chorar, com os olhos marejados. E Matheus continuou em pé, respirando forte, não acreditando no que tinha acabado de fazer.
- Thiago... Me desculpe... Eu não...
- Silêncio. – pediu.
Matheus se calou, respeitando o amigo. Afinal, não devia ser fácil levar um soco. De vez em quando ele olhava para a própria mão direita, pensando no o que levou a fazer aquilo.
Thiago permaneceu no chão, quieto. Ele já tinha apanhado muito do Juca na escola, como todo mundo, mas nunca tinha levado um soco do seu melhor amigo. Lentamente ele se sentou, evitando olhar para o Matheus, pois o seu ego ainda estava muito ferido.
O Matheus se agachou, tentando falar com o Thiago.
- Desculpe... Eu não queria ter te batido...
Thiago queria tanto quanto o amigo que a amizade não acabasse, mas o seu orgulho ainda gritava “não ouça nada!”. Ele sabia que o amigo agiu por impulso, e que também Thiago não estava certo, mas partir para um soco?
Thiago olhou para ele, tentando formular uma resposta à altura. Mas a única coisa que saiu dos seus lábios foi:
- Por que um soco?
Matheus escondeu que estava aliviado pela reação não violenta do amigo, mas Thiago a notou pela sua voz:
- Eu agi sem pensar, sabe. Quando você falou que tinha em mãos o cd e não o entregou; que os caras te viram e que foi por isso que seqüestraram a Mariana... – ele cerrou os pulsos, evitando dar outro soco em Thiago – perdi o controle.
Thiago manteve-se calado. Não devia julgar mal o Matheus, mas soco? Por que não tapa?
- Por que não me xingou? Era mais fácil. Agente não se falava durante um ano e depois voltaríamos a conversar como se nada tivesse acontecido. Mas soco deixa marcas. Literalmente falando.
Matheus se segurou para não dar uma risada, era falta de bom-senso naquela hora.
- Desculpe...
- Tudo bem – cortou – foi só um soco e, cá entre nós, eu merecia. Não que eu pediria conscientemente, mas merecia. Mas eu precisava de alguém que me apoiasse e foi por isso que eu te escolhi para contar... Se fosse para apanhar, eu contaria para a Lívia.
- Tudo bem, de reações negativas minhas você já recebeu tudo. Agora vamos levantar – ele se levantou, estendendo a mão para ajudar o Thiago, que a pegou e ficou de pé – e me deixe ver o estrago.
Thiago tirou a mão do olho, e Matheus deu um assobio.
- É, parece que eu sou forte...
Thiago deu um empurrão nele.
- E muito convencido.
- Acho que a sua mãe vai me proibir de falar com você. – Matheus comentou – não depois de ela ver o seu olho.
- Para todos os efeitos, eu tropecei e ganhei esse olho roxo.
- Você sabe que é muito azar cair e ficar só com o olho roxo?
Thiago afirmou.
- Mas você tem outra desculpa?
- Você pode mudar para: “caí e meu olho foi direto para a mão dele”.
- Rá – riu ironicamente – to me matando de dar risada.
- Vamos andar um pouco? – sugeriu Matheus, depois de alguns minutos silenciosos.
- Ta, eu vou sair na rua parecendo uma panda. – Thiago respondeu.
- Não – corrigiu – para tanto o outro tem que estar roxo também.
- Rá ao quadrado. – ele tirou o Matheus da cadeira e se sentou.
Aproveitando que o computador estava ligado, ele olhou o próximo atentado:

Passo 5

Escolher uma escola da região para instalar uma bomba...

Thiago avançou um pouco mais a página. A descrição do passo só falava em como proceder e, o máximo que ele citava da escola escolhida era: “essa escola será escolhida de última hora. Os fatores relacionados à sua escolha serão diversificados em vários pontos e, provavelmente, algo que dê a oportunidade de instalar o caos a uma grande massa de pessoas e/ou há alguém muito influente”.
Thiago parou para refletir o passo cinco. Referências a datas também eram escassas. Deixavam a crer que seria escolhido também de ultima hora.
- Vamos lá então. – disse depois de refletir um pouco. Precisava espairecer um pouco. Isso não aconteceria dentro do seu quarto.
Os dois desceram as escadas e anunciaram aos pais que eles iam dar uma saída, sem que Thiago fosse visto.
- Pra onde nós vamos? – perguntou assim que trancaram a porta.
- A praça da cidade.
Saiu tão quase que automaticamente que Thiago se conteve para não mostrar surpresa. Não sabia dizer por que escolhera aquele lugar.
Quando deram menos de dez passos em direção à praça, eles avistaram uma garota. Ela devia ter quinze anos, e estava parada, olhando para os dois com cara de “Não acredito!”.
Crendo que eles se conheciam, ele correu para se lembrar quem era ela. Ela estava vestindo, de baixo para cima, um tênis esportivo (quem eu conhecia que usava esportivo?), um short jeans grudado que ia até o joelho (já elimina cinco), uma blusinha regata branca com um “I ♥ NY” (volta cinco). Os cabelos, de um preto intenso, iam até abaixo da orelha. Seus olhos eram cinza e iam de Thiago até o Matheus e vice-versa. Sua pele era meio bronzeada, sugerindo poucas horas do dia no sol. Seu rosto indicava “sou inocente... mas diga a coisa certa para ver o que acontece”.
A única pessoa que ele conhecia que era assim era...
- Júlia! – gritou ele, a reconhecendo de longa data. Matheus se surpreendeu:
- Ela é a Júlia?
Júlia fora sua vizinha antes de Elza, morara lá por dois anos antes de se mudar após um incidente.
Eles se aproximaram dela (correram é o termo certo) e ela abraçou Thiago:
- Que bom ver você! – exclamou – Quanto tempo! Faz o quê? Cinco anos? Cinco anos! – ela o soltou – como você mudou Garotinho. Ta mais alto, mais escuro e... Mais forte?
Thiago não sabia mais o quê estava o fazendo ficar vermelho. Se era os elogios ou o seu antigo apelido. Ela o chamava de Garotinho mesmo ele tendo só um ano a menos.
Agora Matheus o olhava:
- Ela tem razão. Você está mais forte.
Thiago sempre agradecera o fato de que o treinamento que o Diogo lhe dera fora só para flexibilidade, gerando poucos músculos. Mas o que acontecera depois, seu alojamento no futuro, tinha lhe proporcionado alguns músculos a mais que, coincidentemente, tinham ficado com os poderes. Só que eles tinham passado despercebidos, até agora.
- Quantas pessoas ficaram depois de mim? – perguntou ela, desinteressada.
- Uma, bem encrenqueira, e depois veio uma família, e a filha foi seqüestrada. – respondeu Matheus.
O peso de tudo caiu de volta ao estômago de Thiago. Tudo o que tinha acontecido nas ultimas doze horas voltou à tona, e ele levou a mão automaticamente ao olho roxo.
Júlia seguiu sua mão, mas manteve quieta, por enquanto:
- Que triste – disse ela, sentida – mas que olho de panda é esse?
- Rá ao cubo.
- Ele caiu – cortou Matheus – o que te trás aqui?
- Rever velhos amigos.
- Thiago! – gritou alguém atrás de Júlia.
Thiago olhou atrás dela e viu Lívia vindo em sua direção, correndo feito louca.
Ela parou ao lado de Júlia, murmurando um “oi” geral.
- Você não sabe o que aconteceu... Que olho de panda é esse?
- Rá elevado à quarta.
- Ele caiu – respondeu Matheus, sentindo que já falara a mesma frase.
- Ah – suspirou Lívia – mas você não sabe o que aconteceu!
- O que? – ele perguntou.
- Fui passar na escola para falar sobre o ocorrido com a Mariana e tinha um cartaz no portão da escola dizendo: “As aulas foram suspensas devido a um acidente. As aulas retornarão no dia 1° de março”. E eu dei uma olhada na escola e sabe o que eu vi – Thiago respondeu que não – as salas do meio do bloco um caíram.
- Mas como você sabe que bloco é o quê? – perguntou Matheus.
- A diretora nos mostrou – ela respondeu rispidamente – tanto que eu sei que o bloco um é da quinta a oitava, o dois é da primeira a quarta e o três é do primeiro ao terceiro grau. Ordem de motivos de construção – explicou para Júlia.
Antes que Thiago a alertasse que ela já tinha estudado lá, a Júlia se encarregou disso.
- Eu sei. Estudei lá da primeira à terceira série... – as duas se encararam por um momento.
- Lívia! Você aqui? – a indignação de Júlia surpreendeu Thiago.
- Sim.
- Você e a Mariana não tinham se mudado?
- Sim. Ela mora ali – ela apontou para a casa vizinha a Thiago – e eu moro na outra rua. E você? – havia um tom maligno em sua voz.
- Me mudei para um prédio na Rua dos Mercados.
A rua lhe parecia bastante familiar, então escapou da boca de Thiago o numero que lhe lembrava o endereço:
- 223.
- Isso mesmo... – afirmou Júlia – como você sabe?
Os três olharam para Thiago, o culpando de alguma coisa. Algo identificado de Lívia foi “como você sabe? Cachorro”.
Depois de um minuto constrangedor Thiago tentou mudar de assunto:
- Vamos até a escola ver o que aconteceu? – perguntou ao Matheus e a Lívia.
- Vamos – ela respondeu ainda brava – quer ir? – perguntou para Júlia, mais por ocasião do que por outra coisa.
- Não – ela respondeu no mesmo tom raivoso – eu vou voltar à minha casa.
A Júlia se afastou e sumiu na esquina. Assim que ela estava longe o suficiente a Lívia deu um tapa no ombro de Thiago:
- Seu bobo! – não – devia – ficar – babando – por – ela! – gritou ela, pontuando cada palavra com um tapa.
- Ai, ai, ai, ai, ai, ai, aiiii. Para! Que coisa! Eu não tava babando por ela!
- Tava sim – disse Matheus. Thiago lhe lançou um olhar “mas que amigo, hein”.
- Bobão. – continuou Lívia – a Mariana desaparecida e você babando pela Júlia...
- E qual é o problema com ela, hein? O quê que ela fez?
- ELA – explicou Lívia, irritada – é uma patricinha esnobe que fica se jogando nos garotos!
- Quê? – exclamaram Thiago e Matheus.
- Eu e a Mariana não gostávamos muito da Júlia. Ela tinha sido transferida na terceira e logo de cara nós duas não gostamos dela.
- Por quê? – perguntou Thiago.
- Por que ela era muito oferecida. – disse simplesmente.
- Deixa ver se eu entendi. – começou Matheus – ela começou a chamar mais atenção do que vocês e então vocês não simpatizaram com ela.
Essa era, basicamente, a mesma teoria que Thiago tinha pensado, mas não tinha recolhido coragem suficiente para perguntar. Pela cara dela, eles estavam certos.
- O quê você quer dizer com “começou a chamar mais atenção”?
- Mais bonita – logo depois que ele acabou de falar, Thiago percebeu que deveria ter ficado quieto.
- O QUÊ?!?!?!?! – berrou – você quer dizer que ela é mais bonita do que eu ou a Mariana?
- Não – Thiago se apressou – ele só quis dizer que vocês sentiram in...
- Inveja? – sua voz caiu num sussurro.
Ela parecia bem magoada. Começou a caminhar sozinha, na frente dos dois. Eles começaram a segui-la.
- Não foi bem inveja – ela começou a falar em tom de voz normal – eu nunca iria desejar algo ruim. Mas sabe, ela chegou à nossa escola e do dia para noite virou popular.
- É que, em minha opinião – Thiago começou – ela é bem...
- Atraente. – ela completou.
-... Chamativa. – ele corrigiu – mas agente só se reencontrou hoje, depois de cinco anos que ela tinha se mudado.
- Mas você conhecia bem o endereço dela – lembrou Matheus, antes de fazer uma careta “eu não devia ter falado isso, eu não devia ter falado isso”.
- É verdade Thiago, você conhece muito bem o endereço dela.
Enquanto ele pensava numa resposta, eles chegaram à escola.
A escola ocupava um quarteirão inteiro e era dividido em três blocos. Agora Thiago estudava no prédio principal, mas ao fim do ano ele passaria para o bloco três, o mais recente. Eles estavam na frente da entrada da secretaria, que era uma escada que ziguezagueava até o segundo andar, para ter acesso a um hall, que tinha acesso a tudo.
O cartaz que a Lívia tinha falado estava no portão ao fim da escada. Nele estava escrito: As aulas foram suspensas devido a um acidente. Todas as informações recorrentes à re-matrícula, históricos e matrículas estarão disponibilizadas no site da escola: WWW.martinsdafonsecajr.gov/informacoes/alunos. As aulas retornarão no dia 1° de março.
Thiago olhou para a sala do meio do segundo andar, não havia nenhuma. Ele sentiu desapontamento em não poder ver o resto da destruição.
Uma luz fez-se em Thiago. Parecia não haver ninguém na escola e Matheus e Lívia – ele com a mão por cima do ombro dela, coisa que quase tirou uma risada de Thiago – estavam prestando atenção na escola e não nele. Com isso ele resolveu usar poder. Ele iria usar um poder Elétrico, bom para situação.
O portão que barrava a entrada dele era elétrico. Thiago encostou a mão na fechadura da porta e descarregou um choque de freqüência baixa.
A única coisa que ele conseguiu com isso foi que Matheus e Lívia levassem um choque, e para disfarçar, ele fingiu que levara um também.
- Ai! – gritou Lívia – o que foi isso?
Thiago indicou que não sabia. Eles voltaram a sua atenção para a escola. Thiago se concentrou em um choque muito mais potente e o direcionou para o dispositivo para abrir o portão. O choque dessa vez funcionou, e a porta abriu com um solavanco seguido de um barulho que ecoou na escola inteira. Thiago, que estava apoiado na porta, a fez abrir, derrubando-o no chão.
Ele se levantou do chão ao som de gargalhadas dois outros dois.
- Do nada eu escuto um plec – começou o Matheus – depois um cataplof, e o quê que eu vejo? O Thiago estirado no chão.
- Vá se catar. – respondeu.
Os três se aproximaram da mureta:
- O que será que abriu a porta? – perguntou Lívia
- Não sei – respondeu Matheus – será que foi uma queda na energia?
- É – concordou Thiago – pode ter sido. Ou uma sobrecarga.
Ele olhou para a sala do segundo andar, havia um vazio em seu lugar. Em compensação havia um monte de escombros no primeiro andar. Os escombros escorriam até o pátio, e nele tinha marcas de fuligem.
O seu cérebro demorou dez segundos para associar a marca no chão com uma figura geométrica e então associá-la ao cd. No pátio, a fuligem marcava um triângulo.
Seus olhos procuraram os de Matheus, que o encarava, do outro lado de Lívia. Dava para ver sua expressão desejando deixar o outro olho dele roxo. Lívia mantinha seu olhar hipnotizado com a figura.
- Invisível! ¬– saiu de sua boca.

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