Thiago sentou-se na cama, depois de acordar pela segunda vez. Eram nove e meia, e, apesar de saber que ainda era o mesmo dia, sua mente teimava que aquela explosão tinha ocorrido no dia anterior.
Sua mente estava tentando assimilar os fatos ocorridos. Aquela explosão, contando com a combustão que tinha o empurrado e as labaredas, não era coisas de um dia-a-dia normal do Thiago antes da carta. Todos os acontecimentos faziam parte do dia-a-dia do Thiago do futuro. Maldito poder, se não fosse você, eu não teria concertado o cd. Pensou, depois, deu uma risada. Nós, humanos, precisamos culpar alguém. Mesmo se ele decidisse destruir o cd, continuaria com a responsabilidade a martelar seu bom-senso. Entregando o cd, retirava – da forma mais primitiva possível – a responsabilidade de seus ombros.
Ele se arrumou com roupa de sair e, enquanto se trocava, pensava em uma desculpa para a saída. Não posso contar a verdade... Posso falar que vou fazer trabalho. Mas o Matheus não pode saber por que vou à delegacia... Esqueci, ele tem consulta hoje. A Mariana.
Ele desceu para o café, e foi recebido pela sua mãe, que estava sentada à mesa fazendo palavras cruzadas:
- Oi filho, bom dia. O seu pai foi buscar pão.
- Mãe, posso te pedir uma coisa? – perguntou, sentindo a costumeira dor de barriga que sentia toda vez que estava mentindo.
- Sim – ela tirou os olhos das palavras cruzadas.
- Eu posso fazer trabalho na casa da Cíntia hoje?
- E você pede isso agora? – sua voz tinha um tom de bronca.
- É que eu esqueci. – disse simplesmente. A porta da sala abriu.
- Tente não se esquecer. Pode sim. Agora vamos tomar café.
Eles tomaram café na sala, para poder ver TV e descobrir o que foi o barulho de manhã cedo. O jornal da manhã mostrou imagens do parque, que teve um quarto de sua área queimada e, se não fosse o barulho da explosão, o um quarto de área queimada não seria do parque, mas sim da cidade. O barulho foi proposital.
Quando deram onze horas Thiago saiu para fazer o “trabalho”. Mas primeiro, ele foi direto para a casa de Mariana.
- Ela não está aqui não. – Disse a mãe dela.
- Obrigado – respondeu Thiago, sem muita convicção.
O jeito foi ele caminhar sozinho, com o cd na mão.
Enquanto andava, Thiago ia pensando em vários assuntos. Por duas vezes imaginou situações diversas envolvendo a revelação de sua paixão por Mariana. Quase perto da delegacia, ele começou a pensar em alguns motivos para o documento ser tão pesado. Se, pelo que Thiago tinha visto, o documento só tinha trinta e três páginas. Mais uma vez, ele se odiou por não ter visto o documento inteiro, mas lembrou do motivo. Quanto menos eu me envolver, melhor. Posso tirar o meu corpo fora sem me prejudicar.
Thiago chegou ao centro da praça, e deu uma olhada em volta para reconhecê-la.
A praça onde estava não era a praça central, onde ocorrera o atentado, por isso era duas vezes menor. No centro dela havia uma “ilha de cimento”, rodeada pela grama, que só possuía quatro divisórias que serviam para ligar o centro da praça à calçada. A praça em si era mais que um ponto de encontro, mas servia também como retorno, tanto da Avenida da Fé, fazendo com que seu formato fosse um circulo. A avenida em si era reta a maior parte do caminho, exceto algumas curvas não muito acentuadas. Mas o que tornava aquele lugar excepcional era o fato que a avenida fazia uma curva acentuada para a direita, se abria por causa da praça e, logo após se juntar, fazia novamente a curva para a direita, fazendo a pessoa que estava utilizando a avenida, em direção para o interior (pois essa era a melhor entrada para a Estrada do Frei) fosse à mesma direção de que veio por uns vinte metros, para logo após fazer uma curva para esquerda, depois esquerda, esquerda novamente e por fim direita, voltando ao sentido original. Tudo isso pois o bairro local não quis que o campinho (instalado lá há mais de setenta e oito anos) fosse arrancado. Em virtude disso, vendo que a delegacia teria que ser destruída para a construção da estrada, a delegacia fora incluída na lista de patrimônios a serem preservados, juntamente da escola local, outro prejuízo iminente ao desvio da avenida. Justificando o desvio imenso da avenida e tantas viradas para a esquerda.
Voltados para o centro da praça havia bancos de concreto, que davam de cara para as mesinhas e cadeiras também de concreto, que serviam mais para jogos do que para conversas. À frente de Thiago, do outro lado da esquina, estava à delegacia, uma construção antiga (datada do começo do século dezoito) de dois andares. Essa delegacia servia mais para B.O.s e trinta prisioneiros no prédio inteiro. À sua esquerda estava o campinho, que despertava em Thiago, toda vez que o olhava, a lembrança de quando soltou o primeiro poder, um de Suspensão no Ar. Agora, que toda a verdade estava assentada e os fatos ocorridos a dois messes, a lembrança da morte de Diogo não o entristecia. Aquele devaneio trouxe, repentinamente, imagens dos seres malignos e da batalha que presenciara, e ele se obrigou a fechar os olhos e agradecer o sol que o banhava.
A loja APSE estava ao seu lado direito, e os seus quinze andares de loja ainda espantavam as pessoas que passavam ali perto. Da praça, Thiago localizou a janela do quarto em que tinha ficado no futuro, as condições agora eram bem melhores.
Uma coisa repentinamente intrigou Thiago. Ele olhou para a esquerda, para verificar onde o campinho estava situado. Então, atrás de seus olhos, ele formou uma imagem da vista da janela do seu quarto, no décimo quinto andar, do campinho. A única coisa que denunciava a existência do campinho era um desnível de alguns centímetros do tamanho do mato em comparação ao redor. Ele se lembrou de uma das aulas de Diogo:
- Alguns anos depois do seu tempo, em 2012, para ser exato, um abalo sísmico atingiu a cidade, o que transformou algumas das construções perigosas demais para moradia e/ou comercio. Como medida, as pessoas pegaram as roupas e documentos e se mudaram, deixando as casas para as reformas. Como medida preventiva, a prefeitura adiou por cinco meses o começo das reformas, para que alguma casa não matasse um funcionário. Quando o prazo acabou, todas as famílias já estavam se virando. A prefeitura, por comodidade, deixou de fazer as reformas. Por isso existem várias áreas urbanas abandonadas, como por exemplo, o campinho.
O mato devia ter crescido bastante, então. Pensou. Atrás dele haviam séries de lojas de todos os tipos. Agora vazias pela concorrência do prédio tão perto.
Vou lá, pensou, meu tempo livre à tarde vai ser muito bom.
–
Andrews dirigia o carro com muito cuidado.
Ele seguia pela Avenida da Fé com cautela. O seu disfarce com o Logan era muito pouco provável de ser furado. Apesar de ser um carro caro, o Logan era muito vendido, e ninguém estranharia um desses passeando na rua. E esse tipo de carro justificava a pouca visibilidade que as pessoas tinham de fora para dentro das janelas. Ao seu lado, estava Jorge. Ele olhava impaciente para o celular, à espera do telefonema. Andrews torcia para que tocasse logo, pois aí o trabalho seria rápido, prático. E ele não precisaria ficar dando voltas e mais voltas no mesmo trecho, evitando ser descoberto. No banco detrás estava sua convidada especial, para tornar o trabalho muito mais fácil...
Sua linha de raciocínio foi desviada pela música “American Boy”, e ele levou instantes para reconhecer como toque do celular.
- Desculpe – pediu Jorge sob o olhar de reprovação de Andrews. – Alô?
Depois que a pessoa do outro lado da linha disse sua identidade, Jorge colocou o celular na viva-voz.
- E aí? – Perguntou Andrews.
- Está aqui, faço algo?
- Não – respondeu para o Bruno – tenho algo para melhorar a barganha.
- O que é?¬
- Fique olhando para o Logan preto, você vai descobrir.
Andrews estacionou o carro na frente de uma loja de doces, abarrotada de crianças da escola. Ele pegou o celular da mão do Jorge e finalizou a ligação.
- Deixe que eu abro – foi sua ultima recomendação, antes de sair do carro.
–
Thiago se preparou para andar quando sua perna vibrou.
Depois de alguns segundos ele se lembrou que ele tinha um celular. Rapidamente ele o tirou do bolso, para então ver o nome da Mariana na tela. Ele atendeu.
- Alô Mariana.
- Não, não é ela – respondeu uma voz masculina.
Thiago se assustou.
- Quem é? – perguntando com o máximo de inocência possível.
- No momento não importa – respondeu a voz jovial – o que realmente importa é você.
- Do que está falando?
- Do cd. Sei o que ele contém.
Por um impulso obtido com anos de criança que apronta, ele tentou esconder o cd. “Não tente esconde-lo” aconselhou a voz “você vai preferir assim”.
- Como você tem tanta certeza que o cd está comigo? E que cd é esse? – acrescentou, tentando formar uma imagem de inocente.
- Vou responder a segunda primeiro: é o cd que contem todas as informações dos planos que a organização terrorista “Invisível” tem. E eu tenho certeza por que você fez a burrada de comparecer aos dois atentados públicos. Seria uma coincidência a não ser que você estava às sete horas da manhã no parque, uma vez que ele deveria estar deserto. – a voz perdeu o tom de explicação – você anda vendo muito filme de policial, garoto.
- Você quer o cd de volta? – Thiago abandonou o fingimento.
O homem visivelmente aprovou o jogo aberto.
- Não, não. Pode ficar. Temos vários dele.
- Então, o que você quer?
- Que você não o entregue. Qualquer tentativa de aviso a polícia e nós mudamos a grade, ou... Tem ainda a observação.
- Que observação? – perguntou Thiago, sem entender.
- Você não leu até o final? – voz estava visivelmente curiosa.
- Por que, deveria?
- Não muito. – a voz estava entre aliviada e contente – mas faz o seguinte, não entrega para a polícia.
- Por que eu te obedeceria?
- Por que você é inteligente e não faria isso.
- Tente – desafiou. Thiago tinha tido experiências suficientes no futuro para se defender e, caso precisasse, bastava algumas palavras para evocar um Choque-Temporal.
- Garoto, garoto... Isso não é um jogo de truco. – aconselhou – olhe para trás.
Thiago se virou, olhando para as lojas. Um carro preto, estacionado em frente à loja de doces, chamou sua atenção. Apoiado no carro estava um homem olhando para ele. O homem acenou e sua boca se mexeu, no mesmo instante a voz no celular voltou:
- Eu lhe apresento o chefe do “Invisível”. – ele fez um floreio com a mão livre – e, também te apresento o motivo do “bico-calado”.
Ele abriu a porta do passageiro, revelando um bolo que sugeria uma pessoa. Quando os seus olhos conseguiram discernir o que era o que, ele percebeu que essa pessoa estava amarrada, a juba de ondas castanhas caia da cabeça inclinada, sugerindo que essa garota (palpite de Thiago) tinha tido um ataque de choro.
- Levante a cabeça e olhe para fora. – falou o homem longe do celular.
A garota obedeceu, olhando em direção de Thiago. Os cabelos se afastaram, revelando Mariana. Ela estava com a boca amordaçada pela fita prateada. De súbito, após o susto inicial, ele imaginou onde que aquelas fitas eram vendidas, e imaginou uma loja chamada ELSI: Especialidades para Ladrões, Seqüestradores e Infratores. A simples imagem de um cara no balcão, entregando uma arma, munição, a fita e dois tíquetes para a retirada de bombas e perguntando: “mais alguma coisa, senhor? Não? Então pode ir ao caixa quatro, por favor.” Fez com que Thiago sentisse uma enorme vontade de rir, e ele se controlou o máximo para não gargalhar. É sério. Ela está seqüestrada... Ele se acalmou, mas a imagem voltou, trazendo consigo outro acesso de riso. Concentre-se, ela está em perigo. Disse a si mesmo enquanto mordia o lábio inferior. Ela precisa de sua ajuda, mas um poder não pode ser, tem muita gente olhando.
O homem fechou a porta do carro.
- Tenho a sua ajuda de boa vontade?
Thiago se conflitou por dois segundos. Vai isso mesmo. Decidiu.
- Tem.
- Que bom – ele abriu a porta do carro, no motorista – e lembre-se: entrega o cd, a matamos.
A chamada se encerrou, deixando Thiago com o celular colado no ouvido.
–
Marcos olhou para a sua escrivaninha, notando a bagunça.
Ele tinha sido promovido no dia primeiro para ser o Chefe de Segurança da cidade, um cargo que até então, na sua vida como delegado, só ouvira raramente. E, apesar de tão pouco tempo (dezoito dias) no trabalho, a cidade agora passava por dificuldades inimagináveis. O prefeito morto, a estátua e o parque destruídos e uma organização terrorista – isso não é trabalho de uma pessoa só – que atua bem debaixo do nosso nariz. Por que na minha gestão?
Se esses acontecimentos tivessem ocorrido vinte dias ou um mês antes, ele não seria culpado. Mas, por um capricho do destino, isso acontecia só com ele. O pior era os seus superiores o culpando pelos acontecimentos. “Falta de pulso firme” é o que diziam. “Você não sabe nada de segurança”. E ele não podia jogar tudo para o ar por que uma demissão nesse emprego significava suicídio na carreira.
Sua vida tinha virado um inferno, era fato. Mas agora ele temia era outra coisa: o próximo ataque. Onde seria? Seu alvo? Quando? Ele mergulhou o rosto nas mãos, se escondendo de tudo o mais. A prefeitura já não é problema meu, o vice subiu ao poder, a estátua está sendo reconstruída e o parque reflorestado, mas algo me diz que o próximo vai causar muito mais danos. Como ele adoraria se atirar em baixo das cobertas, afagado pela sua mãe. Mas não podia.
Ele aceitou o emprego. Não fora retirado de seu réveillon para nada. Era questão de honra. Aquele dia não seria em vão.
Marcos amaldiçoou aquele trinta de dezembro de dois mil e nove.
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