O caminho de volta foi silencioso. Ninguém queria falar, os três mantiveram-se de cabeça baixa. Thiago manteve-se quieto, como Matheus, por que sabia o que aquilo significava. Ou há alguém muito influente. Essas palavras vieram a sua cabeça.
Sou influente por que estou com o cd. Não foi pura coincidência.
Os seus olhos bateram em uma carta no chão. Seu aspecto não era de uma carta que tinha caído acidentalmente. Ele a pegou e sentiu meio atônito; ela estava endereçada a: Lívia Souza de Melo, Matheus Marques da Costa e Thiago Vinicius Rodrigues.
Thiago a virou para ver quem mandara: Invisível. Mas o que os chocou foi a letra de quem tinha mandado, a Mariana. Ele abriu a carta, que continha só uma folha sulfite dobrada em quatro. Ele a desdobrou tremulamente, prevendo o que veria.
Ocupando quase toda a folha se encontrava uma imagem de Mariana, presa em uma cadeira. Lívia abafou um gritinho. Matheus o fitava, mas não o culpava.
Estivera tão certo que o amigo o reprovava que ele se surpreendeu quando viu que a reação de Matheus foi um “tudo bem, estou com você”.
Lívia olhou chocada para os dois pela falta de reação.
- Nós já sabíamos – explicou Thiago.
Lívia olhou de Thiago para Matheus, ligando dois mais dois. Ela apontou para o olho roxo de Thiago, com a boca aberta.
A falta de voz da amiga não provocou nenhuma surpresa em Thiago. Mas quando ela durou mais de um minuto ele se mexeu para a direita, impaciente. Apesar de seu movimento brusco, os olhos dela não se mexeram, assim como suas mãos, e nem parecia que ela respirava.
Ele andou até ela, curioso, mas ela manteve-se estática, sem mover um músculo. Ele pegou na mão dela, que estava quente. Matheus também estava estático, olhando a reação da Lívia. E, Thiago só percebera agora, tudo mantinha-se quieto. Não pode ser uma Divagação Momentânea. As Divagações que têm movimento são muito raras e essa seria a minha segunda. Mas o que seria então?
Ele se virou para ver o fim da rua. Os pássaros estavam parados no ar, no meio de um vôo. Caminhando lentamente, ele foi até o meio da rua. Enquanto olhava para o fim da rua, um pedaço do ar no meio da rua tremeluziu como se visto através do calor e então viu um vulto surgir do nada. O vulto estava agasalhado como se tivesse saído em uma nevasca. Estava de jaquetão (que parecia cobrir três ou quatro blusas de lã), uma calça térmica e toca. Assim que o “tremor de calor” parou, vários flocos de neve se desprenderam dele, para depois parar flutuando no ar, seguindo a influência do Tempo.
Agora Thiago sabia o que estava fazendo aquilo; era um Poder de Tempo. O garoto sob as várias camadas de roupas se aproximou, apontando para Thiago. Ele próprio se aproximou, curioso, e olhou para o rosto familiar dele. Por um lapso primitivo, ele tentou reconhecer o garoto, e, relacionando-o ao rosto que ele via todo dia no espelho, reconheceu a si mesmo. Mas isso não pode acontecer! A não ser...
- Não! – gritou o outro Thiago, três ou quatro anos mais velho.
Tarde demais. Assim que chegou à conclusão que estava olhando para si mesmo do futuro, uma imensa luz desceu dos céus, em direção aos dois eu do Thiago.
Ele sentiu uma dor cruciante na coluna, vergando-o para trás. O grito saiu silencioso, pois ele estava com a garganta travada. Os dois caíram, de joelhos no chão. O clarão amarelo se manteve por mais dois segundos antes de desvanecer, deixando o dia novamente azul, com algumas nuvens que rumavam para o sul.
- Sorte nossa que eu tive tempo de amenizar o Choque-Temporal. – comentou o Thiago do futuro.
- Por que está aqui? – perguntou Thiago do presente, entre lágrimas.
- Por que preciso entregar algo para você.
- Não posso recebê-lo na hora certa?
- Como você acha que eu o recebi? – seus olhos expressavam “te peguei” – é só uma pulseira.
- Pra quê preciso dela?
- Na hora você saberá. Mais do que isso não posso revelar.– ele estendeu uma pulseira de prata, que Thiago colocou no pulso direito.
- Onde eu estou? Quer dizer, no seu tempo?
- Aqui mesmo.
- Mas aqui não neva!
- Eu sei. E por esse motivo você vai precisar dessa pulseira – ele colocou a mão no relógio – só não se esqueça de passar essa pulseira para si mesmo, como eu fiz. Grandes conseqüências aconteceram se você esquecer.
- Animador. – murmurou ironicamente o Thiago do presente.
- E não se preocupe, a vai tudo acabar bem.
- Como posso salva-la? – assaltou para o Thiago do futuro, cogitando perguntar como tudo aconteceu – como posso tentar salva-la sem que eles a matem?
- Não posso contar, outro Choque-Temporal pode acontecer... – ele pensou um pouco – apenas diga: Ferrari formus espontanae. Dará certo. – sussurrou – acho melhor voltar para a Lívia – ela não vai virar mais uma anja – que vai ser melhor.
Thiago correu para ficar de volta à frente da Lívia, como antes. O Thiago do futuro acionou o relógio, e o calor o fez desapareceu. Da forma que, há muito e muito tempo atrás, o Diogo tinha lhe falado que acontecia para uma terceira pessoa.
Uma pulseira e uma fórmula. Acho que não me lembrei como odeio enigmas.
O tempo voltou, trazendo-o de volta para a realidade.
Thiago deu uma olhada no pequeno grupo à sua frente.
Seu pai, mediano e forte – com músculos mesmo – sentado no sofá, abraçado a mãe de Thiago, Sara, a quem Thiago tinha herdado à pele branca e o cabelos meio loiros, que conversava com Maria, a mãe de Mariana, que tinha os cabelos volumosos e ondulados como os da filha, ela estava calma agora, mas ainda era possível ver as lágrimas em seu rosto. O seu marido, o Silas, estava encostado na batente da porta da sala. Ele estava em estado de choque, e estava sendo acalmado pelo Alberto e pelo Carlos, o pai da Lívia. A Miriam e a Juliana voltavam da cozinha, trazendo um lanchinho para todos. O Thiago via tudo isso sentado na escada, ele estava ao lado de Matheus, que fora expulso do seu lugar ao lado da Lívia por Hugo, o irmão mais velho dela – e futuro presidente – que tinha um ciúme enorme dela. Thiago via tudo isso através do olho esquerdo, por que o direito estava tampado com um bife. Quando todos viram o olho dele, sua conta chegou a “Rá à décima sexta”, pois o Hugo o chateou cinco vezes.
Os adultos conversavam em grupinhos, excluindo os mais jovens. O Hugo tentou por três vezes se interar na conversa, mas era sempre escorraçado pela mãe. Ele agora conversava com o Thiago, pelo motivo que evitava conversar com o Matheus e, da posição em que estavam à conversa dos dois cortava qualquer tentativa de aproximação de Matheus à Lívia.
- Que sorte a de vocês, não terem aula por um mês a mais.
- Detalhe que depois nós vamos ter que repô-las. E adivinha o horário? Sábados. – disse desgostosamente.
Era estranho estar sentado ao lado do futuro presidente. Segundo as lembranças de Thiago, Hugo assumiria a presidência dali a seis anos. O pior é que ele nem tinha jeito de que iria assumir um cargo daqueles.
- Do que você está trabalhando? – perguntou, puxando assunto.
- Auxiliar de Mecânica – disse orgulhoso.
- É um bico de mecânico que ele conseguiu – corrigiu a irmã – nada tão surpreendente.
Matheus deu uma risadinha, mas foi fuzilado pelo olhar do Hugo. Ele podia não dar medo, mas ainda sim era mais forte e mais velho.
- Pode ser um bico sim – respondeu ao Thiago, decidindo não discutir com a irmã – mas é para juntar dinheiro para a minha faculdade.
- E vai ser de...?
- Direito.
Thiago mordeu a língua com força para não rir. A imagem do Hugo com terno e gravata e seus cabelos, que desconheciam um pente, arrumados de gel num estilo formal era o suficiente para arrancar gargalhadas. Ele não riu para não ferir os sentimentos do amigo e também por que a situação não era nem um pouco engraçada. O estranho era que ele não estava sentindo um pingo de apreensão. Seu subconsciente lhe dizia que tudo ia dar certo e, quando seu subconsciente falava, era tiro e queda.
Mas até quando eu estarei certo? Às vezes também erro. Será que eu estou errado agora?
A voz da Lívia o trouxe de volta à realidade:
- E como anda o nosso trabalho?
- Já comecei a desenvolver a música – mentiu – vocês acham que vão fazer mal a Mariana?
- Talvez – respondeu Hugo e, ao ver a cara de todos, ele se apressou a acrescentar – mas nada muito grave.
Thiago abocanhou sem pressa o seu lanche. Será que o Hugo desconfiava de algo? Não haveria como, o único que conhecia o cd além dele era o Matheus. Será que ele deveria contar a todo mundo? Sua mãe ligou a televisão, em que passava a mulher do tempo. Todos olharam desanimados para a TV. Seguiu-se uma noticia sobre a escola, e então uma chamada puxou a atenção de Thiago: a Avenida Capitalismo estava começando a ser construída. O repórter informou que a avenida, quando finalizada, seria a maior avenida do país.
Ele se levantou pesado pelas responsabilidades, e gesticulou um “vou pro meu quarto”. Não tava a fim de puxar um papo longo. O dia em si fora longo. Nem parecia que tinha sido hoje que todo mundo soube da Mariana. Que ele contara ao Matheus. Que ele tinha levado um soco. Reencontrado a Júlia. Descoberto a escola do jeito que estava...
Ele andava pelo corredor da escola, atônito. A parede detrás dele explodiu, revelando o chefe do Invisível. Mariana vinha na frente. Ela apontou o dedo para ele:
- Você é o culpado...
- Eu gosto de você! – ele gritou.
- Se gostasse não teria feito isso comigo!
- Não foi de propósito. Eu te amo!
Mas Matheus se aproximou e, no instante seguinte, ele abraçou a Mariana e os dois se beijaram na frente de Thiago.
Ele acordou sobressaltado. Precisava salva-la, mas será que ele conseguiria dessa vez bancar o herói?
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