Thiago acordou às oito da manhã, não podia se atrasar.
Sara e Gabriel estavam sentados na mesa, tomando café.
- Como é ter quatorze? – perguntou seu pai.
- Bom – respondeu simplesmente – e como foi à convenção.
- Pode conversar com a gente, mas não grite – pediu Sara.
- Desculpe – sussurrou – como foi?
- Foi bom. Bebemos a quantidade de cerveja de graça por um ano inteiro. Teve um cara que bebeu além da conta e destruiu o estoque de uma das barracas, inundou o chão de cerveja. O cara teve que pagar mais de dois mil pelo prejuízo e mil de fiança. Mas, além disso, tinha um cara lá muito suspeito.
Thiago tomou o café e saiu de casa, dando uma desculpa que ia andar com a Mariana. Ele foi até a casa dela e tocou a campainha, e enquanto esperava olhou no relógio: 09h15min.
A porta se abriu, e apareceu Mariana de regata e shorts de uma antiga calça jeans que fora cortada, a sua altura era o meio das coxas.
- Sim? – perguntou ela, meio constrangida.
- Oi Mariana, posso te pedir um favor?
- Claro – ela respondeu, abaixando inutilmente o short.
- Eu quero caminhar um pouco sozinho, mas eu falei para os meus pais que eu ia sair... Andar com você, e eu precisava que, caso meu pai ou minha mãe pergunte para seus pais eles confirmem.
- Pode deixar – Ela tentou abaixar o short novamente – mas para aonde você vai?
- Na praça.
- Ta bom. – ela bateu a porta, finalizando a conversa e o constrangimento.
Ele foi até a praça, confirmar se o cd era verdadeiro.
Dez horas. Praça central da cidade.
A praça era um monumento, para se falar a verdade. Bem no meio dela havia uma estátua de um Desbravador apontando para uma das direções cardeais, que Thiago não sabia especificar. Ela tinha cinco metros de altura. A uns quinze metros da estátua tinha uma fonte. O estrago da convenção de bebidas ainda era visível. As barraquinhas, agora evacuadas, se instalaram em volta da estátua, então tinha lixo para todo lado, junto de dezenas de litros de cerveja espalhados para todo lado. Tinha um homem da prefeitura jogando sabão liquido no chão, ele colocou a garrafa no carrinho ao seu lado e começou a esfregar. Parou um pouco e foi para o próximo metro quadrado. As marcas do pequeno ritual dele cobriam quase toda a cerveja. Um cheiro extremamente forte de álcool pairava no ar. O faxineiro olhou no relógio, olhou para os lados a procura de um superior e então guardou o esfregão e foi fazer uma boquinha num carrinho de cachorro-quente. Thiago olhou no relógio: dez e onze.
Ele bateu os pés na cerveja já impaciente, querendo que aquilo acabasse logo. Um cachorro parou para beber a cerveja e percebeu que ela estava indigesta, então voltou abanando o rabo para o dono. Dez e quatorze.
Ele esquadrinhou o horizonte a procura do míssil. O achou imediatamente em forma de um ponto. Esse mesmo ponto cresceu e tomou forma, voando em direção à estátua. Thiago se preparou para o barulho.
O míssil atingiu o braço da estátua, que se transformou em uma bola de fogo. O barulho veio instantaneamente, desnorteando Thiago, o calor o esfolou. O indicador da estátua pendeu para baixo, com o cotoco incandescente e a parte final do braço amputado, aparentemente só unidos por uma viga de metal. Ele se partiu com um estrondo, fazendo o braço cair apontando para baixo. O pedaço deslocado da estátua se chocou com o chão, parecendo uma tocha, se inclinou, fazendo as chamas tocarem a cerveja.
Uma explosão de calor irrompeu pela superfície da cerveja espalhada pelo chão. Thiago deixou o instinto reagir por si próprio, que ativou um poder Temporal, parando-o instantaneamente.
Depois de alguns segundos o Thiago abriu os olhos, para olhar em volta. Uma onda de chamas amareladas cobria boa parte da cerveja. As chamas estavam a apenas três metros de distancia dele, o fazendo agradecer por ter parado o tempo. As chamas lambiam o carrinho do faxineiro, que tinham provocado um buraco por onde todo o sabão líquido iria sair naquele exato instante. Thiago achou estranho o fato de haver uma bola de fogo no lugar da garrafa que estava sendo usada para jogar o sabão no chão, uma vez que, pelo que Thiago sabia, sabão não é tão inflamável assim.
Ele só entendeu o que estava acontecendo quando olhou para o funcionário do governo. O cara ostentava uma cara de satisfação, como o que estava acontecendo era o esperado, no lugar de uma cara normal de “o que está acontecendo? Meu carrinho”. E algo a mais veio à sua cabeça. O cara suspeito na festa do dia anterior nada tinha a ver. Pois os terroristas iriam precisar de um pretexto para o liquido inflamável. O verdadeiro culpado era o bêbado, não o suspeito. Ele olhou para os próprios pés, confirmando as suas suspeitas.
A cor da cerveja em que pisava era a mesma cor da cerveja em reação com o “sabão”. Ou seja, era inflamável. Seu cérebro trabalhou rapidamente para resolver a questão. As pessoas iriam achar estranho ele sair do fogo sem nenhuma queimadura. Também achariam estranho ele evaporar e aparecer do outro lado da praça, ou nem aparecer. Ele teria que se salvar e não ficar muito na cara como conseguiu aquilo. A solução veio rapidamente.
Ele secou o chão à sua volta com calor puro, e assim que estava a uma distancia boa, ele se agachou um pouco, simulando que já tinha se abaixado. Ele fez o tempo rodar.
O calor o envolveu como numa cúpula, enquanto ele se transformava numa bolinha no chão. Ele olhou em volta e viu o fogo o fechar, queimando com o calor a pele exposta. Uma voz gritou ao fundo:
- Meu Deus do Céu! Tinha um garoto lá no meio.
Alguém – uma velha – gritou:
- Tinha. – seu tom de sarcasmo irritou Thiago de tal forma que, assim que as chamas não ofereciam perigo de queimá-lo, ele se levantou.
- É o filho do demo! – Gritou a velha novamente.
- Cala a boca! – gritou o homem, que devia ter uns trinta anos. – você está bem? – gritou para o Thiago.
- Sim – gritou em resposta. Ele olhou para o carrinho, e viu que o fogo lutava para entrar, mas a corrente de água, por mais inflamável que fosse, impedia o acesso. Depois de duas tentativas o fogo entrou, explodindo o carrinho. Um fogo líquido se espalhou para todo lado.
- Fica calmo – continuou o homem – nós já chamamos os bombeiros e...
Uma sirene o interrompeu, vinda de longe. Em menos de um minuto depois o fogo já estava sendo apagado.
- Você teve muita sorte de estar justamente na parte seca da cerveja, - continuou o homem para Thiago, depois que ele foi para um lugar seguro – deixa só a TV te pegar...
- A TV está vindo? – interrompeu Thiago, se seus pais o vissem na praça sozinho, estava frito.
O homem acenou positivamente.
Thiago agradeceu às pressas e saiu correndo de volta para casa, assim que a equipe do jornal estacionava o furgão. O trajeto não demorou mais de cinco minutos.
Quando ele virou à esquina da própria rua, ele decidiu ir primeiro à casa de Mariana:
- Já? – ela perguntou, quando abriu a porta. Sua cara se contorceu na hora em que ela viu o estado dele – o que aconteceu?
Enquanto tomava fôlego ele a empurrou casa adentro, levando-a para a sala.
- A TV... Explica... Melhor.
Ela pegou o controle remoto e ligou a televisão e colocou no canal em que passava o jornalismo naquela hora. O apresentador encheu a sala com a sua voz:
-... Urgente. Fui informado nesse exato instante que aconteceu um atentado aqui na capital. Isso mesmo, atentado igual aos de filmes de ação. Vamos trazer as imagens do helicóptero que está sobrevoando a área. É com você Tales.
–
Tales estava com o microfone em uma das mãos e com a outra ele apertava o fone na orelha, tentando diminuir o barulho da hélice. O câmera-man que veio junto segurava uma daquelas câmeras-jumbo, que estava fixada em um tripé que estava fixado no chão do helicóptero. Plugado à câmera estava um cabo que a ligava a uma telinha de doze polegadas que exibia exatamente o que estava sendo gravado, auxiliando para que ele narrasse a noticia. No momento o que se via era uma vista panorâmica da cidade, tremeluzida pelo calor que emanava lá de baixo.
-... Que está sobrevoando a área. É com você Tales. – anunciou o fone. Ele respirou.
- É isso mesmo, um ataque aqui na cidade até então pacata. Testemunhas afirmam que o braço explodiu sozinho.
- Você esta com uma imagem do estrago?
- Sim. Pode mostrar – sussurrou longe do microfone para o câmera-man, mantendo o olhar fixo na telinha para poder narrar.
A câmera abaixou, mostrando uma visão aérea do estrago. Ele se calou, prendendo a respiração.
Santo Deus!
–
Thiago, Mariana e a mãe dela (que viera da cozinha para lá e agora estava encostada no batente da porta, com um pano de prato na mão) mantinham o olhar fixo na TV, acompanhando uma imagem aérea da cidade, e assim que a câmera apontou para baixo, eles prenderam a respiração, assim como o apresentador do jornal e todas as casas da cidade.
No meio da tela estava a estatua com o seu cotoco. E a sua volta estava um triangulo grosso de fuligem. Mas não era fuligem do fogo, pois a marca estava incrustada no concreto exatamente onde o “faxineiro” tinha esfregado. Na base do triangulo via-se uma bolinha branca, o exato lugar onde estava o Thiago.
A mente de Thiago foi direto à única linha de raciocínio que centenas de pessoas estavam fazendo: o grupo terrorista Invisível.
O nome Invisível era cortesia da polícia, uma vez que eles mataram o prefeito embaixo do nariz deles.
A noite, depois da janta, a família de Thiago se juntou na frente da TV para ver o jornal, que passou uma reportagem especial.
Nela todas as testemunhas narraram a própria versão da historia – todas com um garoto que por milagre se salvou – e todas eram falhas no mesmo ponto: a primeira Explosão. Todos afirmavam e juravam que a primeira explosão fora quase “espontânea”. E o jornalistas até defenderam isso. Mas num certo ponto um tape foi chamado.
O tape era uma gravação da câmera de segurança de um prédio vizinho. A gravação dava direto na estatua. Num certo ponto, um clarão branco – a imagem, como qualquer outra de segurança, era preto-e-branco – iluminava o canto da tela. O apresentador, em pé e em frente à tela de exibição, pediu para que inúmeras vezes o vídeo fosse reprisado. Depois da enésima vez – segundo as contas de Thiago – o apresentador notou um pontinho marrom que piscava na tela. Depois é que perceberam que o pontinho era um míssil. Coisa que não melhorou em nada o clima, que era só um.
Medo.
Medo do próximo ataque, aonde vai ser, quando.
E Thiago podia acabar com isso.
Só mais uma vez, jurou a si mesmo, se o próximo ataque for compatível, eu entrego o cd a polícia.
Só mais uma vez.
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